Faça uma pausa de dois segundos e recupere o almoço com amigos na quinta-feira, a ida ao cinema nessa noite e as férias que fez no verão passado. Lembra-se? Thomas Dixon não. Há quatro anos, o jovem foi atropelado por um carro enquanto corria perto de casa dos pais e perdeu a chamada “memória episódica”, responsável pela lembrança individual de um determinado momento: o que sentiu na altura, o lugar em que ocorreu um evento ou o tempo que demorou. Como é que Thomas recupera a memória? Através do Twitter.

O jornalista da Fast Company que se encontrou com Thomas Dixon conta que quem conversa com ele está longe de imaginar o que se passa. A única parte do cérebro que ficou afetada foi esta. Quanto ao discurso e o raciocínio, permanecem iguais.

Em maio licenciou-se em Psicologia Educacional na universidade norte-americana de Filadélfia, a Temple University, e a inteligência valeu-lhe uma entrada para a Mensa, organização sem fins lucrativos destinada a pessoas que tenham um QI elevado, ou seja, com um percentil igual ou superior a 98 (em 100 pessoas, 98 têm um QI inferior ao do indivíduo em questão).

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“Tenho sempre consciência do que estou a falar e com quem estou no momento. O que não sei é o que aconteceu ontem ou no dia anterior”, explica Thomas Dixon.

Desde o dia em que sofreu o acidente que Thomas recorre ao smartphone para colmatar o mau funcionamento da parte do cérebro afetada no acidente. Na rede social Twitter, vai escrevendo o que lhe acontece durante o dia, o que está a ler, o que faz e com quem fala. E nem a vida sexual fica de fora, em coreano, para evitar constrangimentos, diz a publicação.

“Se isto tivesse acontecido há décadas atrás, teria de andar por aí com cadernos”, refere. É por isso que vive agarrado ao smartphone: para não perder pitada do que se passa na sua vida. Daí chamar-lhe “memória”. Para Thomas Dixon, a conta que detém no Twitter é um aglomerado de novidades diário, que funciona como arquivo.

São mais de 22 mil os tweets que Thomas postou na rede social, nos últimos anos. O registo permite-lhe olhar para a sua vida e analisá-la num ficheiro Excel, para onde exporta os posts. Contabilizar as vezes que vai ao ginásio ou que bebe café permite-lhe estabelecer padrões, por exemplo. E não é apenas o Twitter que o ajuda a recuperar a memória, o Gmail é outra das ferramentas que utiliza para saber o que anda a fazer.

A experiência que está a ter com o Twitter já o levou a ter uma ideia de negócio: uma app destinada a pessoas que têm problemas de memória. A tecnologia ainda está a ser desenvolvida, mas o nome já está escolhido. Será “Memory”. Dixon quer saber o que acontece na sua vida e quer ajudar os outros a fazê-lo também.

Thomas Dixon diz que o Twitter lhe traz o “contexto” que o acidente lhe roubou. “Esta experiência faz com que sinta que a minha vida não se perdeu”, diz. A conta que detém na rede social desde novembro de 2008 é privada.