Exemplo um. Às primeiras imagens que coloco no Facebook, uma semana depois de iniciada a viagem, alguns amigos perguntam-me se não estarei a substituir a fruição do caminho pela pressão da partilha. Não deixando de lhes dar razão, devolvo a pergunta. Não estaremos todos a substituir a fruição da vida pela necessidade de validação social do que fazemos?

Exemplo dois. Ao confessar-me cansado da gastronomia escocesa, também no Facebook, um mês depois de iniciada a viagem, relato a desilusão de um jantar de tortilha seca e cidra de mirtilos (pedida por engano, registe-se) num restaurante espanhol. Sugestão de quem me lê: Haggis, neeps and tatties, um clássico aqui nas Terras Altas. Obviamente, já provado, repetido e voltado a repetir.

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©Tiago Figueiredo

Cédric Gerbehaye, fotógrafo belga com um trabalho excecional sobre o conflito armado no Congo, contou-me que um dos maiores incómodos que sente na fotografia digital, além da falta de empatia estética, é a possibilidade de poder ver o resultado do disparo no momento a seguir a fazê-lo. Ao desviar o olhar do ambiente que o rodeia para aferir no pequeno visor da câmara o resultado dos disparos, perde o contacto e a energia criada com as pessoas que estava a fotografar, prejudicando a continuidade e qualidade do trabalho.

Na verdade, algumas das inovações tecnológicas vieram roubar-nos mais do que nos dão. É fantástico podermos comunicar telefonicamente sempre que queremos e praticamente em todo o lugar, mas essa facilidade trouxe-nos uma ansiedade com a espera que não tínhamos há 20 anos. Chegar a casa e perguntar “Alguém ligou para mim?” é uma cena de outro século, mas quem a viveu talvez ainda se lembre o que é passar um dia inteiro incontactável. Combinar um encontro, com hora e local, era um compromisso sério e não comparecer estava fora de questão pela impossibilidade de ligar meia hora antes a dizer que não dava jeito. Um atraso de meia hora também não era vivido com a mesma ansiedade com que hoje se lida com cinco minutos de espera. “Já cá estou. Onde estás?”, “A chegar”, “Sim, mas onde?”. Reconhecem?

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©Tiago Figueiredo

Na fotografia aconteceu exatamente o mesmo. Os antigos rolos de 36 fotografias obrigavam-nos a pensar antes de disparar. A película, a revelação e a impressão tinham custos muito mais elevados que no digital. Levar três rolos para umas férias de um mês era razoável, quando hoje é frequente ouvir alguém dizer que trouxe 7000 fotografias das férias, o equivalente a quase 200 rolos de 36 fotogramas. A diferença é muito mais profunda do que a quantidade. A possibilidade de tirar fotografias sem limite palpável dá-nos a falsa sensação que “depois em casa escolhemos as melhores”. Não há melhores, quando se fotografa sem pensar. Existe eventualmente sorte, e seguramente muito desperdício. Mas mais importante ainda, não existe um processo de aprendizagem visual que só se obtém observando, fazendo opções e tomando decisões.

Viajar é sair do lugar, afastar-se da familiaridade dos percursos diários, da rotina que nos vai retirando curiosidade e estímulo. Conhecer países diferentes, cidades e soluções urbanas que não imaginávamos, povos e culturas com idiossincrasias especiais, pode tornar-nos maiores, mais completos, mais abrangentes. Torna-nos mais tolerantes, seguros e conscientes da relatividade dos nossos problemas ao alargar o perímetro da fronteira do nosso conhecimento empírico.

©Tiago Figueiredo

©Tiago Figueiredo

Mas esta experiência e contacto com a diferença pode ser fortemente anestesiada e reduzida se sobreposta por um uso excessivo da tecnologia. Parar num vale glaciar das Highlands escocesas e contemplar a paisagem, sentir o frio a passar na cara, ouvir a água que escorre pelas encostas, deixar o tempo passar, sentir essa passagem, viver a sensação de flutuação, de elevação; ou, simplesmente, parar, tirar uma fotografia, publicar imediatamente nas redes sociais e ficar a contemplar os likes e comentários dos amigos sobre a paisagem maravilhosa que está na fotografia.

Volto aos dois exemplos iniciais. Quão diferentes seriam as nossas vidas se soubéssemos viver o que dizemos viver nas redes sociais? O que retiramos de um almoço de amigos se o passamos a fotografar a comida, ver atualizações do facebook ou a consultar o email? Vale a pena espreitar o trabalho de Babycakes Romero a este propósito.

©Tiago Figueiredo

©Tiago Figueiredo

Lateralmente, só passamos a sentirmo-nos a fazer parte de um local, quando o vivemos sem o deslumbramento da novidade, quando fazemos nele o que fazemos no dia-a-dia. Nenhum escocês come Haggis, neeps and tatties durante um mês, como nenhum português se alimenta de cozido à portuguesa ou bacalhau à minhota a todas as refeições. Talvez entrar num restaurante espanhol em Inverness seja um sinal de que alguma coisa tenha mudado na viagem.

Sem fundamentalismos ou juízos de valor, parece-me que tudo se resume ao respeito que queiramos ter pela curva de aprendizagem. O afogamento na alienação impede a absorção da experiência; a insistência nas iguarias regionais a cada refeição faz mal ao coração.

 

Tiago Figueiredo publica também #doladoesquerdodaestrada em tiagofigueiredo.com e instagram.com/tiagofigueiredo

A viagem de dois meses que faz no Reino Unido e Irlanda é apoiada por

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