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António Costa

Passos e Costa: separados pelo diagnóstico do país

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Primeiro-ministro foi mais concreto no que viu de bom em 2014. E desejou o fim dos privilégios. Costa pediu a união de todos e novas prioridades. Sem promessas, mas com diagnóstico negro.

Pedro Nunes/LUSA

Autor
  • David Dinis

Foram discursos muito diferentes, os que Passos Coelho e António Costa fizeram neste Natal. Há um ponto comum: os dois antecipam a campanha do próximo ano. E algumas palavras que ambos usam: confiança, justiça social, desafios à frente, responsabilidade. O que mais os separa é o diagnóstico do país. Mas há muitos espaços em branco sobre o que se vai fazer a seguir.

 

A próxima legislatura

António Costa introduziu no seu discurso uma expressão particular: “Confiança responsável”. Passos tentou passar uma mensagem idêntica: falou de “confiança”.

O final parecerá o mesmo, mas Passos quis deixar um alerta: “É muito importante proteger o que já conseguimos juntos, com grande esforço e sacrifício. Não queremos deitar tudo a perder.” O recado, claro, é para o PS, que o atual primeiro-ministro considera representar o perigo de facilitismo, se vencer as próximas eleições.

É a esse discurso que Costa responde com a sua “confiança responsável”. Já voltamos ao tema, porque os dois falam de modo distinto sobre o que se segue.

 

2014: dois retratos muito diferentes

Voltamos atrás para ver como um e outro olharam para o ano que agora se fecha. Passos, na sua mensagem de Natal, diz que “foi um ano extremamente importante para todos”. A principal razão? O país ter fechado “o programa de auxílio externo sem precisar de assistência adicional”. Mas também ter passado pela “grande adversidade” da resolução do BES, pela recuperação da economia “está a fazer crescer acima da média da zona euro a nossa economia – algo que não sucedia há mais de 10 anos, com valores recorde para as exportações e para o turismo”, anota o primeiro-ministro.

Passos vê mais virtudes neste ano que considera “decisivo”. Fala das “reformas” que foram postas a andar (“da agenda para a natalidade, aos incentivos ao investimento, passando pela modernização dos serviços do Estado”), também diz que foi fortalecido o SNS, lembra que o salário mínimo foi aumentado. Em suma, diz que em 2014 o país começou “a sarar as feridas”, que este é o Natal em que “as nuvens negras” desapareceram e que o país começa a olhar para o futuro com “esperança”.

Mas António Costa não vê o ano assim. “Foi mais um ano difícil. Mesmo com autarca tive conhecimento das dificuldades que os portugueses atravessaram, em todas as suas gerações, dos mais jovens aos mais idosos. Bem como da incerteza no dia de amanhã, que mina a confiança das pessoas e das empresas” – acrescentando ao retrato um “contexto internacional tão instável”, que será o elo de ligação entre os dois discursos.

Na verdade, o líder do PS não se prende muito em 2014 – passa logo à frente, ao ano de 2015. Melhor dizendo, passa diretamente a novembro de 2015, dando umas pistas discursivas das prioridades que terá se e quando assumir o cargo de chefe de Governo.

 

O país em 2015: começar a mudança ou continuar o esforço?

“2015 é o ano em que teremos oportunidade de começar um caminho de mudança”, diz o líder socialista. E que mudança é essa? “Apostar em mais e melhor trabalho – um trabalho digno e com direitos” – uma indireta a Passos, que o PS diz ter poucas preocupações sociais ou com os direitos adquiridos. Costa promete também “um país com menos desigualdades (…), onde o acesso à saúde e educação de qualidade não deve ser só para alguns, (…) onde ninguém seja deixado para trás.”

O socialista deixa uma “palavra de solidariedade para com os mais desfavorecidos, os que sofrem o desemprego, os doentes e os que vivem na solidão” (uma expressão que também está no discurso de Passos), deixando-lhes a certeza de que “é possível trabalhar para uma sociedade mais justa e solidária”. Em suma, mas sem detalhes, promete “trabalhar para construir uma alternativa às políticas atuais”.

E Passos? Que diz o primeiro-ministro do ano que entra? Admite que “muitos Portugueses ainda lidam com enormes dificuldades no seu dia-a-dia” – novo ponto de união entre os dois. Mas insiste que o Governo tem feito um esforço por garantir justiça social e apoio direto à recuperação: “As políticas activas de emprego para dar as oportunidades que os nossos jovens, e aqueles que estão há mais tempo no desemprego, merecem”; a proteção “daqueles que estão mais vulneráveis, (…) desde as isenções nas taxas moderadoras até aos aumentos anuais das pensões mais baixas”.

O líder social-democrata lembra – e sublinha – que “em 2015 haverá uma recuperação assinalável do poder de compra de muitos portugueses, a começar pelos funcionários públicos e pensionistas” – maior até do que previa o Governo, por decisão do TC (de que Passos não fala). Mas recorda que essa recuperação do poder de compra será “de todos os portugueses em geral, com o alívio fiscal que a reforma do IRS irá trazer, procurando especialmente proteger quem tem filhos a seu cargo e familiares mais velhos na sua dependência.”

Não será um alívio total, admite Passos. Mas é o possível, “num contexto em que ainda não podemos ir tão longe quanto gostaríamos”, diz. O primeiro-ministro afirma que há ainda “muito trabalho pela frente”, mas recusa, diz, resignar-se a um “fatalismo que nos impeça de alcançar aquilo que muitos outros povos conseguiram alcançar.”

Emigração: orgulho ou recomeço?

Passos fala também dos desafios externos mostrando confiança nos “melhores instrumentos” que diz existirem hoje na EU “para lidar com estas situações”. E sublinha ser sua convicção de que uma parte dos desafios “depende de nós próprios realizar”. Costa, por seu lado, não fala da Europa, apenas das interrogações externas que persistem.

No que respeita aos emigrantes, o líder socialista lembra as “centenas de milhares que recentemente tiveram de procurar lá fora a oportunidade que não tiveram em Portugal” e desafia-os a que regressem: “Portugal precisa de todos e temos de criar condições para que regressem e sejam parte ativa na construção de um futuro comum.” Já o social-democrata diz contar “com todos, com os que estão cá e com os que estão lá fora”. Esperando que “se orgulhem do caminho que estamos a trilhar e que todos participem mais intimamente no processo de recuperação nacional.”

Há, por fim, encerramentos com mensagens cruzadas. Começando por Passos, deixou a tal mensagem de “não deitar tudo a perder”. Confluiu com Costa nos objetivos (“uma sociedade com mais emprego, mais justiça, menos desigualdades” e ainda igualdade de oportunidades), variando num desejo do primeiro-ministro: uma sociedade “em que não haja privilégios nas mãos de um pequeno grupo com prejuízo para todos”.

António Costa centra tudo na mudança de cadeiras e de políticas: “Ano novo ida nova. Confiança, não como uma promessa, mas como um desafio”. Com a ambição de fazer isso com juntando todos: “Um desafio que nos convida a enfrentarmos juntos em 2015 um ano que seja mesmo novo, com novas opções, novas prioridades”. O como, fica para o ano novo.

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