A passagem de ano como um marco, uma fronteira, que permite reorganizar a vida. Talvez seja por isso que, na iminência das 12 badaladas que separam os dias 31 de dezembro e 1 de janeiro, sejam feitas resoluções de ano novo, isto é, objetivos traçados para a etapa que se avizinha. Uma lista rasurada no habitual bloco de papel ou ideias pensadas por alto, o certo é que, independentemente da forma, há quem o faça com regularidade.

Mariana Cardoso é exemplo disso. Segue a “tradição” à risca e não hesita em proclamar o velho ditado, “ano novo, vida nova”. De há cinco anos para cá faz uma lista de resoluções, as quais não variam muito com o passar do tempo. “Passa sempre por um estilo de vida melhor, em termos de alimentação, ou até mesmo emagrecer”, conta ao Observador. A jornalista de 22 anos confessa que a maioria dos objetivos definidos não são cumpridos e que já perdeu a conta às vezes em que disse “este ano vai ser diferente”. Pouco lhe incomoda o insucesso, o importante é ter algo a que se agarrar. “É uma forma de organizar a minha vida. São 365 dias novos, é uma desculpa para mudar”.

A pergunta que, então, se coloca é a seguinte: porquê este dia, quando há outras 364 ocasiões para começar de novo? “É uma fase de transição em que se finaliza um ano e se inicia outro. Há uma tendência para se fazer um balanço do que se conquistou e do que não se alcançou, traçando objetivos como que coordenadas para os 12 meses seguintes”, explica Filipa Jardim da Silva. Psicóloga clínica na Oficina de Psicologia, esclarece que as pessoas, de um modo geral, precisam de metas para seguirem em frente. Caso contrário, podem correr o risco de se sentirem “à deriva”.

As resoluções ajudam a definir prioridades na nossa vida e numa determinada fase — “Desde que flexíveis e bem definidas, podem ser úteis na nossa tomada de decisões e organização do estilo de vida”. Para tal, o melhor é ter em consideração ideias específicas, mensuráveis, alcançáveis e definidas no tempo, até porque o dito incumprimento pode gerar “frustração” e “desmotivação”. E acrescenta: “Escolher objetivos que não constituem prioridades para nós é um mau princípio. Outro aspeto é que estes sejam estipulados a curto prazo e faseados ao longo do ano”.

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O psiquiatra Fernando Almeida adiciona outros conselhos à lista: ter em conta resoluções face às quais a pessoa está profundamente empenhada, que sejam facilmente identificáveis e que tenham ganhos evidentes. Ainda assim, admite que a dificuldade em cumprir objetivos é maior quando em causa estão mudanças mais amplas, relacionadas com a personalidade de uma determinada pessoa. “Imagine um indivíduo que tenha uma personalidade irritável e que quer, a partir de 1 de janeiro, deixar de ser assim. Não é muito fácil de conseguir porque este comportamento está subjacente a um conjunto amplo de condições que podem passar, por exemplo, pela autoestima.

O facto de uma pessoa estabelecer metas para um próximo ano não significa que uma pessoa esteja mal com a vida, explica Fernando Almeida, que compara o ser individual com entidades no campo da economia. “As empresas fazem isso em termos de ganhos, fazem por prever os níveis de crescimento para o próximo ano. De uma forma diferente, é também o caso do Orçamento de Estado”.

Posto isto, fazer o balanço do ano é aconselhável? “Sem dúvida”, diz o psiquiatra, “mas não apenas no fim do ano”. Tanto programar a vida como fazer o seu balanço devem acontecer de forma constante, ainda que seja compreensível que isso aconteça sobretudo na passagem do ano, a qual é tida como uma “fronteira” simbólica.

Mariana Cardoso, a jornalista, deve pensar de forma semelhante e até já definiu as resoluções para 2015: mudar de país, crescer na carreira e voltar a estudar. E emagrecer, claro.