Desenvolver cancro é um azar, mas e se for mesmo só isso? Há estilos de vida que propiciam o crescimento de tumores e embora nunca se tenha descoberto a razão, não é novidade que alguns tecidos do corpo humano são mais vulneráveis a alguns tipos de cancro. Agora, a revista de medicina Science publica um estudo que conclui que apenas um terço dos cancros pode ser atribuído a questões ambientais ou hereditárias. Sorte e azar. É assim que os investigadores definem as mutações aleatórias de DNA que fazem algumas pessoas serem vítimas da doença.

A investigação, levada a cabo pela Universidade John Hopkins é mais um passo para perceber a doença e para se desenvolver estratégias que permitam reduzir a taxa de mortalidade que lhe está associada. O azar tem na sua base “mutações aleatórias que se sucedem durante a divisão normal das células mãe quando estas se produzem em genes que intervêm no desenvolvimento do cancro”, explica o coautor Cristian Tomasetti.

O El País explica que esta descoberta pode ajudar a tirar dúvidas como, por exemplo, porque é que os tumores no pulmão são muito mais comuns – inclusive em não fumadores – do aqueles que afetam os ossos? Segundo o estudo, cada vez que uma célula mãe se divide para gerar outra, o seu ADN é copiado e durante o processo há erros que, se acumulados, explicam grande parte dos tumores. 

Bert Vogelstein e Cristian Tomasetti calcularam as divisões celulares de 31 tecidos do corpo durante a vida chegando à conclusão de que, quanto mais divisões houver, maior é o risco de se contrair a doença. Assim, 65% dos tumores têm origem no fator sorte ou, melhor, azar. Tomasetti explica que não há uma descoberta: “Possivelmente isto não contradiz o que já se pensava, mas é a primeira vez que se mede a contribuição dessa má sorte, e como resultado parece que tem um papel mais importante do que se acreditava ter.”

A título de exemplo, o jornal espanhol refere o colón que tem 150 vezes mais divisões da célula mãe do que o duodeno e, por isso, os tumores nesse orgão são 30 vezes mais frequentes sendo os riscos hereditários exatamente os mesmos.

Os investigadores reuniram para o estudo dois grupos de pacientes que, no total, perfaziam 31 tumores a estudar. O primeiro grupo tinha fumadores com cancro do pulmão, doentes de hepatite C com cancro e mais sete tipos cujo fator externo e hereditário tenham sido predominantes no desenvolvimento do tumor. No segundo grupo, havia tumores como o cancro do pulmão em não fumadores, doentes com glioblastoma – tumor no tronco cerebral -, portadores de leucemia linfocítica crónica ou cancro do esófago. Chegou-se à conclusão que a origem dos tumores do segundo grupo estavam sobretudo na divisão das células mãe, uma questão de sorte.

A comunidade científica salienta que estes resultados não devem fazer com que se acredite que o estilo de vida afinal não tem influencia no cancro. O britânico BBC diz que este é apenas mais um fator a acrescentar aos outros todos e que por isso é preciso o dobro do cuidado.