Rádio Observador

Noite Lisboeta

O que (não) vai mudar no Cais do Sodré

138

Maioria dos bares na Rua Nova do Carvalho continuará a fechar às 4h. Lojas de conveniência fecham às 22h a partir de hoje no Cais, Santos e Bica. "Querem matar a gente?", questiona dono de loja.

Rua Nova do Carvalho regenerou-se nos últimos anos

Gonçalo Villaverde / Global Imagens

Autores
  • João Pedro Pincha
  • Hugo Tavares da Silva

Ano novo, regras novas. É isto que vai acontecer nos estabelecimentos do Cais do Sodré, Bica e Santos, que terão horários de fecho diferentes a partir desta sexta-feira — nem todos, mas já lá vamos. Restaurantes, snack-bares, cafés, cervejarias e casas de chá vão funcionar entre as 7 horas e as 2 horas da manhã durante a semana. Alguns bares terão de fechar às 2 da manhã em dias úteis e às 3h aos fins de semana ou vésperas de feriado. Já as lojas de conveniência são as que sofrem o maior revés, com a obrigação de encerrar portas até às 22 horas — antes a licença permitia que estivessem abertas até às 2h.

“Querem matar a gente?”, questiona Miltan Rajli, dono da loja de conveniência no número 60 da rua da Bica. Rajli abriu o estabelecimento em julho de 2014, investiu entre 30 e 40 mil euros e paga 1.500 euros de renda. Agora, está preocupado e critica a forma leviana como a Câmara Municipal de Lisboa permitiu tantas lojas na mesma zona. “A culpa da câmara é fazer licenciamento de dez lojas na mesma rua”, acusa. “A câmara quer cortar-nos os pés? Todos ficámos chocados. Ninguém nos informa de nada, só mandaram um papel. Trabalham aqui três pessoas, como vou pagar?”, desabafa Rajli, que prevê um destino fatal para a loja — “um, dois meses vai fechar”.

Muitas vezes, esta loja na Bica fatura apenas 20 euros até à meia-noite, daí as reticências e a expetativa de tempos de angústia pela frente. “Sexta e sábado podia estar aberto [até mais tarde]”, insiste, encontrando soluções para a sobrevivência do espaço. “Adoramos Portugal, queremos ficar cá… mas como podemos? Andam a brincar, mas com a gente não brincam”, atira.

Pavan Kumar é dono de uma outra loja de conveniência na Bica, mais abaixo da de Rajli. “Não há férias, não há horário de almoço, não há fecho [semanal], trabalhamos como malucos…”, encolhe os ombros, vencido. Enquanto o lamento ainda existia na forma de verbo, uma senhora de um café do outro lado da rua não mostrava pudor e regozijava-se: “Amanhã isto está tudo fechado”. Kumar debate-se ainda com a decisão, afirmando que paga impostos, seguros, despesas que vão além da renda e dos ordenados dos trabalhadores. Mas adivinha a derrota e o mesmo fado para a sua loja, que conta com dois empregados: fechar.

Os hábitos e trajetos desta gente que celebra a vida nas ruas do coração de Lisboa são imprevisíveis, mas muitas vezes começam no Bairro Alto, descem um pouco para a Bica e culminam no Cais do Sodré, que há já algum tempo ganhou o rótulo de “Caos do Sodré”, tal é a multidão de gente misturada com um senhor ruído. E é por isso, por essa caminhada que faz da Bica um ponto de passagem, que o proprietário de um bar daquela rua, Miguel Pereira, acredita que não o afetará muito, pois à hora do fecho (3h) já seguiu tudo viagem rumo ao Cais. Miguel é um dos quatro empresários da Bica que, até agora, estavam autorizados a ter os bares abertos até às 4h.

“Se toda a gente cumprir, vai ser o melhor para todos”, assume, garantindo ainda que o maior problema será a redução do horário de venda de bebidas alcoólicas para consumo no exterior (até à 1h). “Aqui cabem 20 pessoas, antigamente tinha rua toda [com potenciais clientes]”, ri-se. “Não percebi porque é que a Bica está metida nisto”, diz, explicando que os clientes e os bares são diferentes do que se vê no Cais do Sodré. “Espero aí semanas e semanas de problemas”, admite, pois há um hábito já corriqueiro de ir para a rua conversar e beber. “Tenho de avisar [o cliente], tenho de o impedir. Pelo que percebi, vamos ser nós responsabilizados [caso o cliente vá para a rua beber]”. Há ainda outra dúvida a desassossegar este empresário, que se prende com a esplanada: conta ou não como bar? Ou é já considerada rua? “Ninguém [câmara e junta de freguesia] me sabe dizer se a esplanada está incluída ou não.”

Miguel Pereira não vê as lojas de conveniência como concorrência. Afinal, os clientes usam-nas mais como mercearias do que para adquirir bebidas alcoólicas, garante. “É uma minoria a que prefere as lojas aos bares.” Mas não resiste em revelar que há muitas pessoas que não acreditam que “isto” vá para a frente — “há muito pouca informação”. Apesar de tudo, vaticina duas coisas para a nova Bica: “vai ser uma luta por espaço dentro dos bares; as alterações vão mudar completamente a noite aqui”.

Impacto mínimo na rua cor-de-rosa

As alterações à lei visam, afiança Duarte Cordeiro, o vereador da Higiene Urbana na Câmara Municipal de Lisboa, garantir um equilíbrio “entre a vida noturna e o descanso das pessoas”. Pois bem, é então de esperar que a maioria dos bares do Cais do Sodré seja afetado pelos novos horários, certo? Errado.

Europa, Viking, Tokyo, Copenhaga, Liverpool, Oslo, Sabotage, Bar do Cais, Povo, Pensão Amor — todos na Rua Nova do Carvalho, a rua cor-de-rosa –, British Bar e Bar Americano continuam a fechar às 4 horas da manhã, tal como antes. Porquê? Porque o despacho da CM de Lisboa permite que nada mude para aqueles que têm licença de espaço de dança, espaços insonorizados, com segurança privada à porta e com sistema de videovigilância. Já estabelecimentos como Musicbox, Jamaica e Ménage, por exemplo, mantêm horário de fecho às seis da manhã.

A garantia é dada por Gonçalo Riscado, da Associação Cais do Sodré, que considera que a venda de bebidas alcoólicas para consumir na rua terá um “impacto bastante grande”, pois “obrigará as pessoas a decidir por conteúdos no interior dos bares”. Este representante dos empresários da noite lembra que a implementação de medidas que regulem a atividade das lojas de conveniência é já uma luta antiga. Segundo alguns proprietários, indignados, estes espaços estão a “vender cerveja nas barbas dos bares”, uma concorrência desleal que esperam que acabe agora.

Apesar de concordar com as medidas implementadas a partir desta sexta-feira, Gonçalo Riscado mostra-se cauteloso com os efeitos práticos. No caso da proibição da venda de bebidas para consumo no exterior a partir da 1h, por exemplo, como se fará a fiscalização? E será eficaz?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Serviço Nacional de Saúde

A Saúde e a Constituição

António Alvim

Agora, na altura em que se comemoram os 40 anos do SNS, importa desmitificar outra ideia feita pela esquerda. Que o atual Modelo Público de SNS resulta da Constituição e é imposto por esta.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)