Ano novo, regras novas. É isto que vai acontecer nos estabelecimentos do Cais do Sodré, Bica e Santos, que terão horários de fecho diferentes a partir desta sexta-feira — nem todos, mas já lá vamos. Restaurantes, snack-bares, cafés, cervejarias e casas de chá vão funcionar entre as 7 horas e as 2 horas da manhã durante a semana. Alguns bares terão de fechar às 2 da manhã em dias úteis e às 3h aos fins de semana ou vésperas de feriado. Já as lojas de conveniência são as que sofrem o maior revés, com a obrigação de encerrar portas até às 22 horas — antes a licença permitia que estivessem abertas até às 2h.

“Querem matar a gente?”, questiona Miltan Rajli, dono da loja de conveniência no número 60 da rua da Bica. Rajli abriu o estabelecimento em julho de 2014, investiu entre 30 e 40 mil euros e paga 1.500 euros de renda. Agora, está preocupado e critica a forma leviana como a Câmara Municipal de Lisboa permitiu tantas lojas na mesma zona. “A culpa da câmara é fazer licenciamento de dez lojas na mesma rua”, acusa. “A câmara quer cortar-nos os pés? Todos ficámos chocados. Ninguém nos informa de nada, só mandaram um papel. Trabalham aqui três pessoas, como vou pagar?”, desabafa Rajli, que prevê um destino fatal para a loja — “um, dois meses vai fechar”.

Muitas vezes, esta loja na Bica fatura apenas 20 euros até à meia-noite, daí as reticências e a expetativa de tempos de angústia pela frente. “Sexta e sábado podia estar aberto [até mais tarde]”, insiste, encontrando soluções para a sobrevivência do espaço. “Adoramos Portugal, queremos ficar cá… mas como podemos? Andam a brincar, mas com a gente não brincam”, atira.

Pavan Kumar é dono de uma outra loja de conveniência na Bica, mais abaixo da de Rajli. “Não há férias, não há horário de almoço, não há fecho [semanal], trabalhamos como malucos…”, encolhe os ombros, vencido. Enquanto o lamento ainda existia na forma de verbo, uma senhora de um café do outro lado da rua não mostrava pudor e regozijava-se: “Amanhã isto está tudo fechado”. Kumar debate-se ainda com a decisão, afirmando que paga impostos, seguros, despesas que vão além da renda e dos ordenados dos trabalhadores. Mas adivinha a derrota e o mesmo fado para a sua loja, que conta com dois empregados: fechar.

Os hábitos e trajetos desta gente que celebra a vida nas ruas do coração de Lisboa são imprevisíveis, mas muitas vezes começam no Bairro Alto, descem um pouco para a Bica e culminam no Cais do Sodré, que há já algum tempo ganhou o rótulo de “Caos do Sodré”, tal é a multidão de gente misturada com um senhor ruído. E é por isso, por essa caminhada que faz da Bica um ponto de passagem, que o proprietário de um bar daquela rua, Miguel Pereira, acredita que não o afetará muito, pois à hora do fecho (3h) já seguiu tudo viagem rumo ao Cais. Miguel é um dos quatro empresários da Bica que, até agora, estavam autorizados a ter os bares abertos até às 4h.

“Se toda a gente cumprir, vai ser o melhor para todos”, assume, garantindo ainda que o maior problema será a redução do horário de venda de bebidas alcoólicas para consumo no exterior (até à 1h). “Aqui cabem 20 pessoas, antigamente tinha rua toda [com potenciais clientes]”, ri-se. “Não percebi porque é que a Bica está metida nisto”, diz, explicando que os clientes e os bares são diferentes do que se vê no Cais do Sodré. “Espero aí semanas e semanas de problemas”, admite, pois há um hábito já corriqueiro de ir para a rua conversar e beber. “Tenho de avisar [o cliente], tenho de o impedir. Pelo que percebi, vamos ser nós responsabilizados [caso o cliente vá para a rua beber]”. Há ainda outra dúvida a desassossegar este empresário, que se prende com a esplanada: conta ou não como bar? Ou é já considerada rua? “Ninguém [câmara e junta de freguesia] me sabe dizer se a esplanada está incluída ou não.”

Miguel Pereira não vê as lojas de conveniência como concorrência. Afinal, os clientes usam-nas mais como mercearias do que para adquirir bebidas alcoólicas, garante. “É uma minoria a que prefere as lojas aos bares.” Mas não resiste em revelar que há muitas pessoas que não acreditam que “isto” vá para a frente — “há muito pouca informação”. Apesar de tudo, vaticina duas coisas para a nova Bica: “vai ser uma luta por espaço dentro dos bares; as alterações vão mudar completamente a noite aqui”.

Impacto mínimo na rua cor-de-rosa

As alterações à lei visam, afiança Duarte Cordeiro, o vereador da Higiene Urbana na Câmara Municipal de Lisboa, garantir um equilíbrio “entre a vida noturna e o descanso das pessoas”. Pois bem, é então de esperar que a maioria dos bares do Cais do Sodré seja afetado pelos novos horários, certo? Errado.

Europa, Viking, Tokyo, Copenhaga, Liverpool, Oslo, Sabotage, Bar do Cais, Povo, Pensão Amor — todos na Rua Nova do Carvalho, a rua cor-de-rosa –, British Bar e Bar Americano continuam a fechar às 4 horas da manhã, tal como antes. Porquê? Porque o despacho da CM de Lisboa permite que nada mude para aqueles que têm licença de espaço de dança, espaços insonorizados, com segurança privada à porta e com sistema de videovigilância. Já estabelecimentos como Musicbox, Jamaica e Ménage, por exemplo, mantêm horário de fecho às seis da manhã.

A garantia é dada por Gonçalo Riscado, da Associação Cais do Sodré, que considera que a venda de bebidas alcoólicas para consumir na rua terá um “impacto bastante grande”, pois “obrigará as pessoas a decidir por conteúdos no interior dos bares”. Este representante dos empresários da noite lembra que a implementação de medidas que regulem a atividade das lojas de conveniência é já uma luta antiga. Segundo alguns proprietários, indignados, estes espaços estão a “vender cerveja nas barbas dos bares”, uma concorrência desleal que esperam que acabe agora.

Apesar de concordar com as medidas implementadas a partir desta sexta-feira, Gonçalo Riscado mostra-se cauteloso com os efeitos práticos. No caso da proibição da venda de bebidas para consumo no exterior a partir da 1h, por exemplo, como se fará a fiscalização? E será eficaz?