Sporting

Quando um autocarro de 2 andares não trava leões

Mas não esteve muito longe de o conseguir. Apesar do domínio total, muita bola e momentos asfixiantes, o Sporting teve dificuldades para vencer a Académica (1-0). João Mário marcou o único golo.

João Mário marcou o sexto golo da época

Denis Doyle/Getty Images

Autor
  • Hugo Tavares da Silva

O ritmo cardíaco estava acelerado. Os guerreiros de negro guardavam a baliza de Lee como se estivessem a defender a honra de um país. Os homens que vestiam de verde-esperança tentavam de todas as formas, o cerco às muralhas de Coimbra estava montado desde muito cedo. Tentava-se de todas as formas: cruzamentos, tabelas, remates de longe. Mas não havia forma. Até que se ouviu no estádio “e o Tanaka vai entrar…” e parecia que automaticamente ficaram mais perto da glória. E assim foi, pouco depois, William Carvalho sacou um excelente cruzamento, o japonês cabeceou com muita pinta para uma grande defesa de Lee, que não conseguiu evitar a recarga certeira de João Mário. O Sporting venceu a Académica por 1-0 e colou-se ao FC Porto (um ponto), que entrava em campo às 18 horas.

SPORTING: Rui Patrício, Cédric, Paulo Oliveira, Tobias, Jefferson, William, Adrien e João Mário, Carrillo, Nani, Montero

ACADÉMICA: Lee, Iago, Capela, João Real, Ricardo Nascimento, Nuno Piloto, Fernano Alexandre, Obiora, Ofori, Magique, Rafael Lopes

O Sporting começou bem na primeira parte. Dinâmico, móvel, criativo e com vontade de jogar à bola. A Académica foi obrigada a encolher-se, cada vez e cada vez mais, até que eventualmente acabaria, qual exercito vestido de negro, a proteger a sua baliza à entrada da área. Ainda assim, os homens de Coimbra tiveram algumas bolas paradas para testar Rui Patrício e a defesa dos leões.

O primeiro aviso chegou cedo, pela direita, após cruzamento de Carrillo, que encontrou a cabeça de Montero em bela posição para festejar mais um golo. Mas a bola saiu longe, por cima da baliza de Lee, um guarda-redes brasileiro de 26 anos, que chegou esta época do Atlético Mineiro.

A primeira grande notícia da tarde era o que parecia ser o regresso de William Carvalho às boas exibições. Este médio, com talento que nunca mais acaba, parece querer voltar ao que era e voltar a ser importante no coração dos sportinguistas. Em sentido contrário estava Nani, que depois da exibição muito pobre contra o Rio Ave (4-2) voltou a entrar mal na partida, com várias bolas perdidas e pouco peso no ataque leonino.

Do outro lado, havia uma equipa que tenta fugir à despromoção e que aguentava estoicamente as investidas do Sporting, que foram perdendo brilho, paciência e consistência. Os de preto recuaram até colocarem praticamente dez jogadores à frente da área. Seria um grande, grande teste à paciência e maturidade deste Sporting de Marco Silva, que, recorde-se, se vencesse ficava apenas a um ponto do FC Porto, que entrava em campo às 18h no Funchal (vs. Marítimo). Os caminhos para a baliza de Lee estavam tapados, por isso o festival de remates de longe, inaugurado por Tobias Figueiredo, foi visto como uma boa solução (ou desespero?). Seguiram-lhe o exemplo João Mário, Paulo Oliveira (grande remate com a bola a aterrar na rede superior da baliza de Rui Patrício) e Adrien.

Adrien estava discreto. Normalmente é ele quem encurta distâncias entre defesa e ataque. É ele quem inventa espaços e desmonta os rivais, aproveitando melhor do que ninguém as movimentações dos colegas. O médio estava discreto e o Sporting sofria com isso. Igualmente desaparecidos estavam Carrillo e Nani, factor esse que não estaria alheio ao posicionamento da teia defensiva dos estudantes. E o que se pede neste caso? A subida e maior protagonismo dos laterais. Cédric e Jefferson mostravam-se tímidos, mas foram crescendo durante o jogo. Outra ideia que estaria na cabeça de Marco Silva seria, porventura, lançar um avançado para dar outro peso ao ataque. Afinal, só se jogava perto da baliza de Lee.

Intervalo em Alvalade. Os homens da casa contavam com 72% de posse de bola, mas perderam gás, criatividade, ideias e paciência na construção. A Académica mostrava-se confiante e confortável com esta fórmula: defender, defender, defender. Nota positiva para William Carvalho e mais uma para o espírito dos homens de Coimbra, que, apesar do penúltimo lugar no campeonato, mostravam-se mais unidos do que nunca e com um senhor carácter para mudar as coisas. Aníbal Capela, um central formado no Sp. Braga, de 23 anos, estava com muita pinta, com cortes e carrinhos a fazer lembrar a escola italiana. Numa semana em que Galderisi, ex-treinador do Olhanense, comparou Maurício (novo jogador da Lazio) a Cannavaro, porque não dizer que Capela estava a fazer lembrar Alessandro Nesta?…

“E o Tanaka vai entrar, e o Tanaka vai entrar, e o Tanaka vai entrar…”. É isto que se ouve quando o japonês está prestes a entrar no relvado. Foi o que aconteceu aos 67′, numa altura em que o Sporting continuava sem marcar. Pior: deixou de asfixiar o meio-campo inimigo. Teríamos agora os leões a piscar o olho ao 4-4-2 clássico, com Montero e Tanaka na frente. Adrien saiu, mas antes quase fez um dos golos do ano: remate acrobático e bola a pingar na trave. Rui Patrício, sem trabalho e tranquilo da vida, desesperava de longe…

Cédric, com um remate de fora da área, obrigou Lee a uma enorme defesa aos 68′. Depois foi Nani a tentar, de livre direto, mas nada. Os fantasmas da primeira jornada, de Coimbra, voltavam a pairar: estariam os leões na iminência de perder mais dois pontos como no dia 1 do campeonato? Nessa noite quente de agosto, o Sporting até começou a ganhar, com golo de Carrillo, mas deixou-se empatar aos 91′, cortesia de Rafael Lopes.

A Académica, apesar de estar menos encolhida nesta segunda parte, não sabia nem tinha pernas para sair em contra-ataque (os 11 golos marcados em 17 jogos ajudam a compreender a pálida imagem). Estava resumida à defesa. Impotente. Esperançada na falta de criatividade alheia. Falta muito jogo pelo corredor central a este Sporting, o que pode indiciar algumas coisas: falta de confiança, falta de talento ou ousadia, coragem — é estranho aproveitar-se tão pouco Freddy Montero naquela zona, a dar apoios frontais, quando é um jogador com tanta qualidade a guardar a bola e a tabelar. Vejamos nos rivais o que acontece quando equipas estão assim tão fechadas: Óliver, Enzo (tempos idos), Brahimi e Gaitán, por exemplo, abrem verdadeiros buracos no meio-campo dos rivais. Falta de talento não é definitivamente o problema do Sporting…

O único golo da tarde chegou aos 76′. William Carvalho, pela direita, cruzou para a cabeça de Tanaka. O japonês, qual talismã, colocou a cabeça na bola com a determinação de quem quer ser novamente elevado ao estatuto de herói, mas Lee Winston Leandro da Silva Oliveira, um homem com 1.88m, voou e adiou a festa de Alvalade. Na recarga, de cabeça e sem que a bola caísse no chão, João Mário colocou no poste mais distante e festejou o sexto golo da época, 1-0.

Até final, a registar apenas dois lances de perigo protagonizados por Montero e Nani. Este último mostrou que está claramente desinspirado e, por vezes, displicente. Já a Académica deu-se ao luxo de sonhar com alguma coisa quando Tobias Figueiredo, já muito perto dos 90′, cometeu porventura o único erro da tarde, mas o ataque da briosa não soube engendrar a coisa. Ponto final em Alvalade: 11 vitórias à 18 jornada (35 golos marcados e 14 sofridos). Destaques: quinta vitória consecutiva no campeonato; William está a aproximar-se do nível de outros tempos; Tanaka continua a abanar e João Mário a resolver, com o sexto golo da temporada, naquela que é já a melhor da sua carreira.

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