Para alguns, é um hábito sagrado. Outros dispensam-no. Há aqueles que gostam de variar todos os dias, incluir produtos novos ou variar nas combinações. Outros seguem a mesma rotina religiosamente, à mesma hora, com a mesma quantidade de cada um dos produtos. Falamos do pequeno-almoço. Em 2015, é uma refeição enraizada nos nossos hábitos e está acessível à grande maioria da população, mas nem sempre foi assim.

Ian Mortimer decidiu investigar as origens históricas da primeira refeição do dia. Primeiro, deparou-se com uma realidade: os grandes banquetes das famílias reais, os jantares fartos, a etiqueta subjacente ou as conversas à volta de uma pausa para chá são frequentemente referidos nos manuais e nos textos históricos. O mesmo não acontece com o pequeno-almoço, com o café com leite matinal, o pão, as torradas ou os cereais.

Na Idade Média, entre os séculos V e XV, a maioria das pessoas não tomava o pequeno-almoço. Aliás, eram os nobres e os aristocratas que decidiam quem tinha direito a esta refeição. Em 1412/1413, nas propriedades da nobre inglesa Alice de Bryenne, por exemplo, apenas seis das 20 pessoas que lá trabalhavam podiam tomar o pequeno-almoço.

Por volta de 1470, no fim do século XV, a exclusividade do pequeno-almoço continuava. Nas propriedades de Cecily Neville, Duquesa de York, a primeira refeição do dia era permitida “aos oficiais e às suas senhoras, apenas quando estes estivessem presentes; ao reitor da capela; (…) e ao principal funcionário da cozinha”, relata o investigador Ian Mortimer.

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Os pequenos-almoços dos séculos XII e XIII eram constituídos essencialmente por pão, queijo e cerveja. Henrique IV de França não era “fã da rotina”, por isso preferia inovar nos menus. Ao pão, vinho e cerveja, acrescentava galinha. Nos dias de pesca, o Duque de Buckingham em 1501 preferia acrescentar solha à manteiga e aos ovos.

A era dos produtos lácteos pela manhã começou a surgir em força no século XVI. Thomas Cogan, em 1584, dizia que “pão e manteiga” era o pequeno-almoço de um “patriota”. A manteiga tornou-se a estrela do pequeno-almoço. Várias ervas foram adicionadas ao longo do tempo para “aumentar as suas propriedades”.

O pequeno-almoço tornou-se uma necessidade sobretudo no verão, devido à quantidade de horas passadas a trabalhar. Nesse sentido, o privilégio foi estendido aos viajantes. Ainda assim, não tinham direito a mais do que cerveja ou vinho. Para os viajantes que partiam cedo em viagem, o pequeno-almoço era um bom reforço até ao jantar, que acontecia às 11 da manhã. Cinco horas depois, era hora da ceia. E o dia estava feito para o alimento.

Agora, como nasceu o pequeno-almoço para todas as pessoas? No livro “The French Schoolmaster” (O mestre francês), de 1573, pode estar a primeira referência. Num excerto, a empregada diz a um rapaz antes de ir para a escola: “Frances, levanta-te e vai para a escola. Despacha-te rapidamente, faz as tuas orações e depois toma o teu pequeno-almoço”. Assume-se, portanto, que o pequeno-almoço já era uma realidade para mais pessoas. O físico e escritor Andrew Boorde defende no livro “A Dieta da Saúde”, de 1542, que “um trabalhador deve comer três vezes por dia, incluindo tomar o pequeno-almoço. Para os restantes, duas refeições chegam”.

O ato de tomar o pequeno-almoço estava ligado a uma cerimónia ou a uma receita medicinal. A doença ou a idade avançada era, muitas vezes, combatida com “um pequeno-almoço de…”, prescrito por médicos, avança o mesmo artigo. Por exemplo, Eduardo I, já com 65 anos, contratou um cozinheiro simplesmente para preparar pequenos-almoços.