Está na política desde Mário Soares, mas só com António Costa entrou com os dois pés na direção do partido. Pedro Bacelar Vasconcelos é constitucionalista, professor de direito na Universidade do Minho, e um dos novos rostos da liderança socialista. Diz que António Costa é diferente de António José Seguro sobretudo pelo estilo e que esta liderança não pode prometer o que não pode cumprir. Mas mais que isso, defende que Costa deve clarificar até às eleições as possibilidades de coligação ou acordos que admite vir a fazer e que há no PSD pessoas com quem se pode falar. Quem? Rui Rio e Manuela Ferreira Leite.

Pouco mais de três meses depois de António Costa ter sido eleito líder do PS, Pedro Bacelar Vasconcelos, diz, em entrevista ao Observador que é normal que o partido passe nestes meses por uma “travessia no deserto”, sobretudo por causa do calendário eleitoral. “Inevitavelmente o Governo governa e a oposição não está nem em condições de governar, nem com intenções nem com interesse de a cada proposta do Governo enunciar uma medida alternativa”, é assim que responde às críticas que são feitas ao PS de não apresentar tantas propostas, como era apanágio de Seguro.

“António Costa tem o seu próprio estilo, não é um estilo estridente e intervém quando é oportuno para dizer o que substancialmente tem de ser dito para se demarcar ou denunciar as medidas de que possa discordar. Não me apercebo da existência de um vazio de opiniões que possa corresponder a uma forma malandra de manter o silêncio para não se comprometer”, diz.

Para Bacelar Vasconcelos, o PS ainda está a sarar as feridas da luta intestina entre Seguro e Costa e da “excessiva fulanização” e “uma radicalização em termos pessoais” levada a cabo pelo anterior secretário-geral do partido.

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A ação de Costa para o futuro vai ficar no entanto condicionada pelo que acontecer na Grécia. Para o secretário-nacional do PS, o país tem “uma dívida para com a Grécia, pela sua ousadia”. E se por enquanto as boas notícia são só no que à forma diz respeito, Bacelar Vasconcelos acredita que são bons sinais de mudança: “Quebrou-se o dogma de que esta política de austeridade, que não aceitava discussão sobre a bondade das medidas tomadas, esta política está arrumada e devemo-lo à Grécia”.

A colagem do PS ao Syriza de Alexis Tsipras pareceu-lhe natural até porque, lança, por cá, António Costa e o PS vão ter a última oportunidade em eleições para que os eleitores ganhem confiança nos políticos. E isso não pode ser feito com promessas de fim de políticas de ajustamento:

Nas alternativas às políticas de austeridade, não há uma recusa de medidas de controlo orçamental e de assunção da responsabilidade pelo pagamento dos juros e da amortização dos empréstimos que se obteve. O que está em alternativa não é o derramamento de felicidade pelos povos, a abundância, mas a continuação de medidas, penosas, mas que permitam atacar as questões centrais que as democracias hoje defrontam, particularmente, na periferia sul”.

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Coligações: Com este PSD, não. Com um de Rui Rio, talvez

O discurso vem de cima: o objetivo é alcançar uma maioria absoluta, repete. As sondagens mostram essa dificuldade, mas os socialistas não desarmam. O dirigente socialista diz que os eleitores devem ter um quadro mais claro sobre que coligações está o PS preparado para fazer antes das eleições legislativas, mas que há um “quadro muito colorido” no espetro partidário do país. E esses acordos até se podem estender às áreas políticas da maioria, desde que as lideranças sejam outras.

“Tem sido uma critica concreta ao PS e a António Costa, saber se coliga ou não. É uma questão irrespondível. Com este PSD e com este CDS – e perante as políticas que têm levado a cabo, e que vão continuar a levar até ao final do mandato -, não há terreno possível para um acordo. Mas por outro lado, quando vemos as fraturas que se estabelecem no interior dos dois partidos, temos que reconhecer que Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix ou Rui Rio têm posições fortemente críticas dentro dos seus próprios partidos e que essas posições, se fossem posições liderantes – que não são, são vozes minoritárias – são pessoas, são propostas com as quais é possível dialogar”.

Quanto a questão concreta é uma coligação com Rui Rio se este viesse a liderar o PSD, o dirigente do PS retrai-se na resposta, remetendo para a “contestação” existente dentro dos partidos da maioria e pela recusa numa coligação com Passos Coelho: “A posição do PS é muito clara: com estas propostas não é possível uma forma verosímil, séria de governação”.

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Menos Presidente e menos candidatos a candidatos

O secretário nacional do PS não gosta do sistema semi-presidencial como o português, quer alterá-lo e por isso diz-se até enfastiado com a proliferação de nomes na praça pública para possíveis candidatos a Belém. Bacelar Vasconcelos defende uma revisão constitucional para retirar poderes ao Presidente da República, nomeadamente o poder de dissolver a Assembleia da República e, mais que isso, quer acabar com a eleição direta do chefe de Estado, passando este a ser nomeado pela Assembleia da República. Ideias que diz serem a título pessoal e que poderão não fazer caminho no programa eleitoral do PS.

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O constitucionalista da equipa de António Costa, apesar de ser defensor de uma revisão da Constituição que mexa, por exemplo, nas questões relativas ao referendo à regionalização diz que mudanças no Texto Fundamental não estão à cabeça no programa de António Costa. “Não é uma prioridade de facto. Para o PS a Constituição não é um obstáculo, poderá ser reformada em alguns dos seus preceitos, nomeadamente aqueles que referi a título de exemplo, mas não é um problema hoje, foi uma tábua de salvação”.