Duas das quatro estirpes do vírus responsável pela sida podem ter tido origem nos gorilas dos Camarões, concluiu uma equipa de investigadores liderada pela virologista Martine Peeters, do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento francês e da Universidade de Montpellier, França, num estudo publicado esta segunda-feira no jornal oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

O VIH (Vírus de Imunodeficiência Humana) é composto por quatro linhagens filogenéticas, conhecidas pelos grupos M, N, O e P, sendo que cada uma resultou de uma transmissão diferente entre espécies (humanos e outros primatas) do vírus de imunodeficiência símia (IVS) que afeta os primatas africanos. Apesar de os grupos M e N terem sido geograficamente localizados como sendo provenientes das comunidades de chimpanzés do sudoeste dos Camarões, os reservatórios dos grupos O e P permaneciam até hoje por explicar. Sabe-se agora que podem ter sido transmitidos ao homem pelas comunidades de gorilas da mesma região daquele país africano.

“Com base neste estudo e em outros que a nossa equipa tem vindo a conduzir no passado, torna-se claro que as estirpes do vírus que afetam tanto os chimpanzés como os gorilas são capazes de atravessar a barreira das espécies e passar para os seres humanos, podendo causar grandes surtos de doenças no homem”, explicou à AFP a investigadora Martine Peeters.

A verdade é que os grupos O e P, principalmente o P, são as estirpes do VIH mais raras de encontrar nos homens. Se o grupo M é o mais fácil de encontrar, com mais de 40 milhões de pessoas infetadas em todo o mundo, o grupo O tem sido localizado no centro e oeste de África, infetando cerca de 100 mil pessoas. Já a estirpe do grupo P, no entanto, só foi detetada em apenas dois homens até hoje.

Segundo a agência de notícias France Press, a descoberta foi possível graças a novas amostras genéticas de chimpanzés e gorilas dos Camarões, Gabão, Uganda e República Democrática do Congo.

A equipa de cientistas que esteve a trabalhar no caso é proveniente de várias instituições, quer da escola europeia quer norte-americana, como a Parelman School of Medicine da Universidade da Pensilvânia, a Universidade de Edimburgo ou a Universidade de Montpellier, entre outras instituições. O artigo científico, na íntegra, pode ser consultado aqui.