Imagine-se um bolo em formato gigante, fabricado de quatro em quatro anos e servido sempre na mesma altura, para muita boca alimentar. O tamanho é tal que, na última vez que um forno o viu sair, a obra de pastelaria ficou dividida em 736 fatias, das quais 563 vinham do engenho do mesmo cozinheiro e dos mesmos ingredientes. Não é coisa pouca e a percentagem ajuda a prová-lo: equivale a 76,5% do bolo. E de cada vez que este bolo é fabricado, a cada quatro anos que passam, a receita pouco muda. Imagine-se também que, de repente, surge a intenção de mudar a altura em que o bolo é servido e não se tem em conta a opinião do tal cozinheiro. Agora pense-se no Mundial, nas ligas europeias de futebol e na FIFA.

A entidade que rege o futebol internacional decidiu que, em 2022, o Campeonato do Mundo se realizará no Qatar, onde o verão aquece o forno para lá dos 40.ºC. Cedo se percebeu que, em junho, e com estas temperaturas, não seria viável realizar a competição. A 9 de setembro de 2014, portanto, reuniu-se pela primeira vez um grupo de trabalho, uma task force, para discutir soluções e, sobretudo, outras datas para se fazer jogar um Mundial no Qatar.

Esse grupo reuniu-se mais duas vezes — em novembro e, por último, em fevereiro. “A ideia era dar uma opinião sobre o melhor período para se organizar o Mundial. A EPFL estava incluída neste grupo de trabalho”, resumiu, no meio da conversa, Alberto Colombo.

A sigla EPFL vem da entidade que, em português, se lê como Associação das Ligas Europeias de Futebol. Alberto é o diretor de marketing e comunicação, o homem cujo telemóvel não parou de tocar, com chamadas dos responsáveis das ligas do continente (incluído a portuguesa), assim que, a 24 de fevereiro, e após tanta reunião, a FIFA anunciar que havia uma proposta – a de organizar o Mundial do Qatar durante o inverno, entre novembro e dezembro. Foi com ele que o Observador se encontrou em Lisboa. “As ligas e os clubes europeus fornecem mais de 70% dos jogadores ao Campeonato do Mundo, mas a nossa proposta conjunta não foi ouvida nem tida em consideração”, lamentou, ao falar da sugestão que a EPFL e a ECA (a Associação Europeia de Clubes), levaram para as tais reuniões.

As ligas e os clubes propuseram que o Mundial se realizasse entre 5 de maio e 4 de junho. Porquê? Primeiro, por essa hipótese implicar poucas mexidas nos calendários dos campeonatos que, na maioria, se realizam entre agosto e maio. Segundo, devido às temperaturas. “Está provado que as condições no Qatar não serão piores das condições de locais onde a FIFA já organizou Mundiais, no México [1986] ou nos EUA [1994], ou em Fortaleza e Manaus”, recordou Alberto Colombo, como a EPFL já tinha lembrado, em comunicado, ao apontar uma das cidades onde Portugal jogou, no último Campeonato do Mundo. E mais: deste modo, a competição não coincidiria com os Jogos Olímpicos de Inverno e o período do Ramadão já teria acabado.

A prioridade, disse Alberto, era “manter os calendários mais ou menos como estão hoje”, além de “reduzir um impacto, que existirá sempre, das condições meteorológicas” nos jogadores. Mas, pelos vistos, o grupo de trabalho da FIFA, liderado por Sheikh Salman Bin Ebrahim Al Khalifa, presidente da Associação Asiática de Futebol, não os ouviu. “A FIFA, tanto nas minutas das reuniões, como no último encontro em Doha, há duas semanas, praticamente anunciou que o Mundial será no inverno”, indicou o dirigente da EPFL, ressalvando, porém, que uma decisão final será tomada apenas a 20 de março pelo Comité Executivo da FIFA — do qual Al-Khalifa, aliás, faz parte.

Esta task force, contudo, tinha “uma representação um bocado bizarra”. Nunca antes a FIFA criara um grupo com este propósito e, como tal, “não existiam regras”. Lá estavam representantes das confederações de futebol do planeta — UEFA, CONCACAF (América do Norte, Central e Caraíbas), CONMEBOL (América do Sul), CAF (África), AFC (Ásia) e OFC (Oceania) –, além da EPFL e da ECA. E mais, pois as reuniões contaram também com alguns clubes, em especifico. “Mas não existem clubes que contem mais do que outros”, defendeu Alberto Colombo, antes de indicar que, nos encontros, até a Premier League (Reino Unido) e a La Liga (Espanha) estiveram presentes, apesar de terem “exatamente a mesma posição” da associação que as representa. Porquê? “A FIFA quis apresentar-se de forma abrangente e democrática”, suspeitou.

Por agora, tudo indica que, para 2022, a FIFA aprove mesmo um Mundial no inverno. Algo que “vai causar muito dano” às ligas europeias, de onde vieram os tais 76,5% dos jogadores que estiveram presentes na última edição do Campeonato do Mundo. “Ficámos um bocado preocupados com a falta de atenção [dada] às posições da EPFL e da ECA”, lamentou o diretor de marketing e comunicação, sem querer, por enquanto, tocar no assunto que Karl-Heinz Rummenigge, presidente da Associação dos Clubes Europeus, já puxou para as notícias — as compensações financeiras. “Não se pode esperar que os clubes aguentem os custos deste reagendamento. Esperamos que sejam recompensados pelos danos que uma decisão final causará”, disse o alemão, logo a 24 de fevereiro, dia em que se conheceu a proposta invernal do grupo de trabalho.

De 19 de novembro a 23 de dezembro, foi esta a janela sugerida pela task force para, aí, encontrar os dias entre os quais se jogará o Mundial. A prova, por norma, um mês, que é antecedido por um período entre os 20 e os 30 dias durante o qual cada seleção nacional junta os jogadores em estágios e treinos. Logo, e seja em novembro/dezembro ou em maio, “provavelmente serão seis ou sete semanas” de calendário ocupado pelo Campeonato do Mundo — sendo que os clubes estão obrigados a libertar os jogadores para as seleções, no mínimo, dez dias antes de a competição arrancar. 

Ou seja, em teoria, para um Mundial que arrancasse a 19 de novembro, seria aconselhável que as seleções tivessem os jogadores reunidos por volta do meio de outubro. “Isso significa que, tanto nos meses anteriores como nos seguintes, o calendário terá de ser comprimido. Vai causar muito dano, de certeza”, argumentou Alberto Colombo.

A Premier League — que, a par da Bundesliga, foi o único campeonato a emitir um comunicado próprio, além do divulgado pela EPFL –, aliás, deu conta da “preocupação” face à hipótese “um Mundial termine no final de dezembro” e “prejudicar”, em 2021/2022, o Boxing Day. Ou melhor, os jogos que a primeira e segunda divisões realizam no Natal e Ano Novo. Esta temporada, por exemplo, a bola rolou no Reino Unido a 22 e 26 de dezembro. Uma das “grandes tradições e atrações do futebol inglês”, portanto, poderá ficar em causa. Tudo depende da decisão que, a 19 ou a 20 de março, a FIFA tomar.