Porque é que gostamos de determinadas sonoridades, enquanto outras nos causam sentimentos de repulsa? A ciência já tinha encontrado uma forte relação entre a preferência musical e a personalidade. Mas e se a forma de pensar contribuir para o nosso gosto musical? Há um estudo que diz que sim.

David Greenberg e os seus colegas da Universidade de Cambridge provaram que é possível deduzir a preferência musical de alguém através do seu estilo de pensamento. Trata-se de um parâmetro psicológico que, segundo a teoria da empatia-sistematização de Simon Baron-Cohen, divide a cognição humana em duas grandes categorias: os que criam empatia, que têm um estilo de pensamento que se foca no estado mental e emocional dos outros, e os são sistemáticos, que analisam e respondem através de regras exteriores que governam vários sistemas, sejam eles políticos, abstratos, naturais ou musicais.

O estudo submeteu 4000 participantes, escolhidos nas redes sociais por psicólogas e sociólogas, a questionários que analisaram o seu estilo cognitivo. Os mesmo voluntários escutaram 50 peças musicais, de 26 géneros e subgéneros diferentes, todos na mesma quantidade, e escreveram notas da audição.

Os resultados são claros: aqueles que mostraram no questionário ter um pensamento Tipo E (empatia) preferiram canções mais melosas, dentro do soul e soft rock, em contraste com os de Tipo S (sistematização) que preferiram músicas mais agressivas e complexas, dentro do género do heavy metal e hard rock.

Mas a questão não se limita a géneros mas sim a características. Os de Tipo E mostraram uma tendência para gostarem mais de atributos gentis, acolhedores e sensuais, com atmosferas tristes, melancólicas e com alguma profundidade emocional. Os de tipo S escolheram sensações de excitação, rapidez, tensão, com atmosferas animadas e profundidade cerebral, ou seja, complexa. Ou seja, segundo o estudo, um apreciador de música clássica de Tipo E preferiu Mozart, com grande intensidade emocional, enquanto o de Tipo S preferiu o complexo pianista húngaro Bartok.

O que é que faz uma grande canção? Greenberg, que além de líder desta investigação e psicólogo doutorado é também um saxofonista apaixonado por jazz, explicou que uma canção que agrade a ‘gregos e troianos’ seria aquela que fundisse profundidade cerebral e emocional. Uma delas é “Giant Steps”, de John Coltrane.

“A estrutura harmónica da canção cumpre sem dúvida dessas caraterísticas. Apesar da canção de Coltrane ser complexa, também possui uma grande profundidade emocional”, explicou Greenberg ao jornal espanhol El País.

Mas, para Greenberg, uma coisa é certa:”É possível olhar para os likes de Facebook de uma pessoa, ou para uma lista de reprodução de iTunes, e compreender o seu estilo cognitivo”.

O psicólogo britânico assegura que esta investigação vai para além da música. Greenberg assegura que o estudo abre portas para uma futura analise do autismo através da preferência musical, agora que se encontrou uma relação entre o funcionamento neurobiológico e o gosto musical.