Arranca hoje à noite, às 21h30, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, a nova edição de um dos mais antigos e reputados festivais de jazz do país. O saxofone de Mats Gustafsson e da sua Fire! Orchestra dão o mote para dias quentes e muita música fora de portas. Até 9 de Agosto, sempre à mesma hora, passam por este palco dezenas de intérpretes deste género musical, num cartaz repleto de nomes internacionais que ajudaram a construir – e ainda definem – a história do jazz.

É essa viagem pelo tempo e pela intemporalidade da música que levou Rui Neves, diretor artístico do festival e uma autoridade nacional em jazz, a definir o programa desta edição. “O jazz vai-se sempre transformando, evoluindo. Mas a música de há 40 anos ainda funciona nos dias de hoje, ainda emociona”, disse. Para ele, é sempre uma oportunidade de “juntar a massa crítica que tem acompanhado anualmente o evento e que, na transição da era analógica para a era digital”, continua a acorrer aos espectáculos.

Foi com base neste conceito que Rui Neves tentou criar uma “maior ponte entre a perspetiva historicista e tudo o que agora permite dar a conhecer novas linguagens, novos artistas a públicos cada vez mais fragmentados”.

A dimensão é também uma das marcas do Jazz em Agosto 2015: as grandes orquestras terão destaque. Para lá da Fire! Orchestra, também marcam presença a Orquestre National de Jazz (França) e a portuguesa Orquestra Jazz de Matosinhos que, com quase 20 elementos em palco, irá acompanhar Michael Mantler numa reinterpretação do histórico álbum Jazz Composer’s Orchestra (1968).

Foi no rescaldo do primeiro ensaio desta colaboração que falámos com Mantler, o trompetista austríaco que, em 2013, mergulhou nas antigas partituras e empreendeu algumas mudanças. 45 anos depois daquela primeira gravação em que as teclas de Clara Bley e o saxofone de Pharoah Sanders também brilharam, entre outros artistas, Mantler resolveu reescrever algum do material. “A troca de instrumentos, com a guitarra elétrica a substituir o piano, por exemplo, o corte em algumas das improvisações que se arrastavam para lá do (seu] gosto, e a escolha de novos solistas” resultaram no projecto Jazz Composer´s Update. O álbum foi lançado recentemente e serão estas as melodias a ecoar na noite de sábado (1 Agosto).

“Alguns temas continuam muito semelhantes ao original e a estrutura é a mesma, mas tinha músicas que já não funcionavam apenas daquela forma. Não queria fazer igual e resolvi reescrever para mostrar que podem continuar tão vivas como em 1968”, resumiu. Para Mantler, que já prepara um novo projecto com uma orquestra de câmara, são “ossos do ofício”: “Um artista está condenado a continuar a tocar. Nenhum de nós pode, ou sabe, como parar de tocar.”

É assim que Mats Gustafsson regressa ao palco no domingo, mas agora com o projecto Swedish Azz. Entre a tradição folclórica escandinava e a homenagem aos anos dourados do jazz sueco (1950/60), identificado com o estilo mais melódico e organizado da West Coast (Costa Oeste norte-americana), este grupo junta elementos eletrónicos e reforça a contemporaneidade musical.

Portugal também estará representado pelos RED Trio, em nova parceria com o britânico John Butcher. Depois da gravação de Empire (2011), sobem ao palco na quarta-feira (5 Agosto) para recuperar a liberdade e originalidade de uma improvisação jazzística cúmplice.

No dia seguinte, é a vez de recuperar a ligação entre a imagem e o som. Numa viagem por “Berlim: Sinfonia de uma Capital” (1927), filme do alemão Walter Ruttman, dois pianistas (Alexander von Schilippenbach e Aki Takase) e um DJ (illvibe) embalam o trajecto proposto pelos Lok 03.

Para sexta-feira (7) o palco está reservado para um sexteto global: The Young Mothers. A busca do contrabaixista norueguês Ingebrigt Hâker Flaten por um novo grupo resultou nesta fusão de géneros musicais, em que hip-hop, rock e groove se ligam à improvisação livre.

A noite de dia 8 (sábado) vai receber a estreia europeia de “The Great Lakes Suites” (2014), o último álbum de Wadada Leo Smith. Este reconhecido trompetista norte-americano foi membro da lendária Academia de Chicago e, no final dos anos 1960, fundou com Leroy Jenkins e Anthony Braxton o trio Creative Construction Company. A acompanhá-lo nesta passagem por Lisboa vai estar Henry Threadgill, outro talento histórico dessa era.

Para o encerramento, no domingo (dia 9), voltamos a Berlim com uma orquestra francesa. Com a guitarra de Olivier Benoît a dar as coordenadas, será apresentado mais um elemento do projeto “Europa”, “um mapa musical da contemporaneidade europeia” que a Orchestre National de Jazz tem desenhado no último ano.

O preço dos bilhetes varia entre os 12 e os 20 euros, e todos os concertos decorrem no Anfiteatro ao Ar Livre.