Manuela Ferreira Leite distanciou-se de António Costa, depois de este ter dito ao jornal Sol que existia entre os dois “uma identidade muito significativa”.

No comentário que teceu na quinta-feira à noite na TVI24, a ex-ministra das Finanças disse que, em matéria de discussão política, o PS estava a ter um “comportamento verdadeiramente bizarro” e que achava que “estava a cavar a sua própria sepultura”. Em causa está a discussão do défice.

“Vejo o PS apenas focado na ideia do défice. O défice com certeza que é importante, mas não diz nada à vida dos portugueses”, referiu, acrescentando que discutir décimas (2,7% ou 2,8%) não era “discussão para o partido da oposição”.

As críticas à forma como tem sido conduzida a pré-campanha eleitoral não se ficaram por aqui. Manuela Ferreira de Leite diz que não têm sido debatidos os problemas que “interessam às pessoas” e que é preciso que estas sejam “mobilizadas para irem votar”. Falta, por isso, esclarecer aqueles que são os “pontos estruturais” da política e dos quais “depende o futuro do país”.

E dá vários exemplos, como a Segurança Social, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) ou o Novo Banco. Sobre o primeiro problema, diz que “não foi dito nada de novo” e que espera que os debates da campanha permitam esclarecer os portugueses sobre a sustentabilidade da Segurança Social e os 600 milhões de euros em falta.

As críticas que envolvem a CGD dizem respeito à entrevista de Pedro Passos Coelho ao Jornal de Negócios, em que o primeiro-ministro dizia que aquele banco o preocupava. “É de uma importância enorme que haja o compromisso [de Passos Coelho] de dizer: ‘eu não penso privatizar a Caixa’. Não haver informação nenhuma é ficar apenas a suspeita”, disse.

Pelo meio, um apelo para que os negócios das privatizações dos transportes públicos sejam revelados em pormenor aos deputados da Assembleia da República, que representam os portugueses.

“Precisamos de saber o conteúdo desses contratos, o que é que eles dizem”, referiu, acrescentando que estas operações podem ser, no futuro, “um desastre para os transportes públicos”.

Quanto ao Novo Banco, a ex-ministra “tem fortíssimas dúvidas” sobre o papel do Governo na operação, adiantando que esta venda é como se fosse uma privatização “que é da competência do Governo e não do Banco de Portugal”, que nas palavras de Ferreira Leite, “não tem competência ou ‘know-how’ para fazer a venda de um banco”.

Confessando que “não entende esta pressa na venda” do Novo Banco, a ex-ministra vai mais longe e critica o facto de as negociações estarem a decorrer com o grupo chinês Fosun, que em 2014 comprou a Fidelidade. “É preciso estar angustiado e com a corda na garganta”, diz.

Sobre a apresentação que vai fazer ao livro do deputado e ex-dirigente socialista Pedro Adão e Silva, a ex-ministra reagiu com nítida irritação: dar a isso uma conotação partidária revela que “estamos na posição zero da política e com ausência total de cultura democrática”, disse.