Com o escrutínio perto do fim, a coligação independentista Juntos Pelo Sim já ganhou as eleições autonómicas na Catalunha, devendo alcançar 39,6% dos votos e 62 lugares no parlamento regional. Esse número de deputados não garante a maioria absoluta, mas o partido Candidatura de Unidade Popular (CUP) também apoia as pretensões separatistas da região, pelo que os 10 representantes que deverá eleger vão ser fundamentais para o movimento independentista. Juntas, ambas as forças conseguem maioria parlamentar, mas não conseguem obter 50% dos votos dos eleitores catalães, o que significa que a separação de Espanha ainda não é consensual.

Em segundo lugar ficou o Ciutadans, com 17,9% dos votos, seguido do Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC) com 12,8%. O Catalunya Sí Que És Pot, apoiado pelo Podemos, não conseguiu tornar-se a terceira força política da região, obtendo 8,9% dos votos e 11 lugares na assembleia. Segue-se o Partido Popular, atualmente no governo de Espanha, que perde oito deputados face às eleições de 2012.

Quando já estavam escrutinados mais de 60% dos votos, o presidente do governo autónomo da Catalunha (Generalitat) esteve na sede do Juntos Pelo Sim, em Barcelona, para se dirigir pela primeira vez aos muitos apoiantes que ali estiveram horas à espera. As primeiras palavras de Artur Mas foram um festejo em várias línguas:

Hem guanyat, hemos ganado, we have won, nous avons gagné!”

Visivelmente satisfeito, Mas afirmou que, nestas eleições, “ganhou o sim e ganhou a democracia”. E deu uma alfinetada ao governo de Madrid, embora sem o referir:

Tal como nós, enquanto democratas, aceitaríamos a derrota, agora exigimos que aceitem a vitória da Catalunha, a vitória do sim.”

Os partidos que não apoiam a independência da Catalunha escudaram-se no facto de a votação nos partidos separatistas não ter alcançado os 50% para clamar vitória, cada um à sua maneira. Inés Arrimadas, a carismática cabeça-de-lista dos Ciutadans, afirmou que os resultados provam que os catalães querem ficar em Espanha. E foi mais longe, exigindo a demissão do presidente da Generalitat. “Com o resultado de hoje, Artur Mas só pode fazer uma coisa: demitir-se e ir para casa”, disse para uma plateia entusiasmada. Albert Rivera, presidente do partido, reclamou para o Ciudadanos o mérito de ter “evitado a ruptura do país”.

O candidato do PSC, Miquel Iceta, felicitou os vencedores da noite e manifestou a esperança de que o Juntos Pelo Sim “governe com respeito pela lei e de acordo com as representações parlamentares”, numa clara referência ao processo independentista, que é considerado ilegal pela justiça espanhola.

“Hoje temos uma Catalunha fraturada, dividida em dois blocos. A tarefa de quem vai a formar governo será tratar de coser bem estas feridas”, alertou Pedro Sánchez, líder do Partido Socialista nacional (o PSOE).

“Perderam aqueles que disseram que estas eleições eram um referendo [à independência]. A maioria dos catalães quer abrir um novo tempo de diálogo”, escreveu Pedro Sánchez no Twitter.

O cabeça-de-lista do Catalunya Sí Que És Pot admitiu que os resultados não tinham sido os que esperava e o líder do Podemos, Pablo Iglesias, aproveitou a ocasião para lançar farpas a Mariano Rajoy, acusando-o de ameaçar os catalães. “Espanha não precisa de um primeiro-ministro que ameace os catalães, precisa de um primeiro-ministro que escute a Catalunha”, disse Iglesias, que defendeu uma Espanha unida e a necessidade de ser eleito para alcançar essa união:

Só connosco a governar em Espanha se poderá construir um projeto de país em que fique uma nação chamada Catalunha.”

Ao reconhecer a pesada derrota, o cabeça-de-lista do Partido Popular, Xavier Albiol, mostrou-se disponível para colaborar “sem condições” com o Ciutadans por uma “alternativa não-rupturista”. O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, não fez qualquer aparição pública.

Sondagens ficaram ligeiramente ao lado

A primeira projeção, da televisão catalã TV3, dava 63 a 66 deputados ao Juntos Pelo Sim e 11 a 13 à CUP, apontando para uma maioria pró-independência entre os 74 e os 79 eleitos. Sabe-se agora que essa maioria é de 72 deputados.

A projeção da TV3 apontava ainda para os seguintes resultados:

  • Ciutadans, com 13 a 15 deputados
  • Partido dos Socialistas da Catalunha (PSC), com 14 a 16 deputados
  • Catalunya Sí Que És Pot, com 12 a 14 deputados
  • Candidatura de Unidade Popular, com 11 a 13 deputados
  • Partido Popular, com 9 a 11 deputados
  • Unió, com 0 a 3 deputados

Apesar de este domingo se decidir a composição do parlamento catalão para os próximos anos, o ato eleitoral ficou desde o início marcado por uma clivagem entre os partidários e os opositores da independência daquela região. O partido atualmente no poder, Convergência, coligou-se com a Esquerda Republicana, formando o Juntos Pelo Sim. Em todas as sondagens publicadas durante o período de pré-campanha, esta plataforma alcançava a vitória por larga margem, mas em nenhuma tinha a maioria absoluta (68 deputados em 135), o que veio a verificar-se. Se quiser levar adiante as promessas que dez relativamente à separação de Espanha, o Juntos Pelo Sim terá de se coligar com a Candidatura de Unidade Popular (CUP), um partido de esquerda cujo único ponto de concórdia com a coligação é a independência.

O próximo parlamento catalão terá uma composição eclética. O Ciutadans (catalão para Ciudadanos) e o Catalunya Sí Que És Pot (a versão catalã do Podemos) rejeitam uma Catalunha independente e fugiram do tema durante toda a campanha, preferindo focar-se nas condições de vida dos eleitores e do país. Todas as sondagens apontavam para que o Catalunya Sí Que És Pot se tornasse a terceira força parlamentar, mas o PSC conseguiu manter essa posição. Já o Ciutadans conseguiu eleger quase 10 deputados mais do que era apontado pelos estudos de opinião. Seja como for, isto que representa uma mudança significativa face à composição atual da assembleia, em que o PSC tem 20 deputados e o PP tem 19.

Abstenção em níveis muito baixos

A abstenção situou-se nos 23%, o valor mais baixo das eleições autonómicas da Catalunha. Até às 18h (17h portuguesas) já tinham votado 63,14% dos eleitores recenseados, o que representou um aumento de 7% face a 2012. Estes números confirmavam a tendência, já registada às 13h, de forte afluência às urnas, que veio a verificar-se plenamente já no fim do escrutínio.

Este nível de participação transforma as eleições deste domingo numa das mais concorridas desde que há autonómicas. Em 2012, aquando do fecho das urnas, tinham votado 65% dos eleitores. Este ano, esse número deverá ser largamente ultrapassado. O que também significa que os resultados oficiais vão demorar mais a ser conhecidos.

Foi um dia bastante calmo em todas as mesas de voto na Catalunha, apesar da crispação que houve durante a campanha eleitoral. Exceptuando uma pequena manifestação na assembleia onde o presidente da Generalitat foi votar, “a jornada decorre com toda a normalidade”, disse Meritxell Borràs, conselheira do governo catalão, cerca das 18h30, quando apresentou aos jornalistas os dados sobre a participação eleitoral. Em muitos locais de votação as grandes filas de eleitores mantiveram-se até ao fecho das urnas e algumas mesas viram-se mesmo obrigadas a pedir mais boletins de voto.

Como os jornais espanhóis olham para os resultados