Mustafa Calil fala muito depressa, com os olhos a piscarem enquanto fala num inglês rápido e desenvencilhado. Tem 18 anos, nasceu na Síria e agora vai estudar na licenciatura Engenharia Informática da Universidade Lusófona com uma bolsa da Global Platform 4 Syrian Students, do ex-Presidente da República Jorge Sampaio.

Além disso tudo, Mustafa é um génio em potência. “Queres saber o número do meu passaporte?”, pergunta-nos. Antes de ter uma resposta, pede-nos o caderno e escrevinha uma equação onde nove elementos se amontoam de um lado e, do outro lado, depois  de um “=”, aparece um 0. “Basta fazeres esta equação e logo ficas a saber o meu número de passaporte!”

Está, pois, provado que Mustafa não é um jovem qualquer. Mas aqui fica mais: este ano, Mustafa foi o aluno com melhor média nos exames nacionais na Síria, depois de ter sido testado em mais de cinco disciplinas, da Química ao Árabe. Além disso, há três anos seguidos que faz parte da equipa que representa a Síria nas Olimpíadas Internacionais da Matemática. Já teve duas menções honrosas na competição: uma na África do Sul, outra na Tailândia.

Um inventor no meio da guerra

Só que, da mesma maneira que Mustafa não é um jovem qualquer, a Síria também não é um país qualquer. Desde 2012 que o país foi mergulhado numa guerra civil que começou após a resposta violenta do regime do Presidente Bashar al-Assad aos protestos contra o regime. Eram os dias de ouro da Primavera Árabe que, com o passar do tempo, foi perdendo o brilho. Segundo a Aministia Internacional, o conflito, ao qual se juntaram forças islamistas e radicais como o autoproclamado Estado Islâmico, já matou 190 mil pessoas. Além disso, mais de 7 milhões de sírios vivem deslocados dentro do seu próprio país e mais de 4 milhões fugiram para o estrangeiro. Destes, aproximadamente 300 mil (7,5%) procuram receber o estatuto de refugiado na Europa.

Não é esse o caso de Mustafa e tampouco o de Ali Kordia, também ele um estudante sírio de 26 anos, e isso é um facto que procuram esclarecer. “Nós não somos refugiados”, diz Ali Kordia, que vai frequentar o mestrado de Engenharia Informática e Sistemas de Informação, também da Lusófona. “Não temos nada contra os refugiados, são pessoas que fugiram da guerra e que vivem com medo. Apenas procuram paz. Mas nós estamos aqui porque ganhámos um bolsa, é porque somos estudantes muito bons.”

Mustafa e Ali saíram da Síria no domingo e já falam com saudades da cidade onde ambos cresceram, Salamia, e da cidade onde estudavam, Lataquia. “São cidades com muito prestígio, onde há muito conhecimento académico”, diz Ali, que entende que o seu país deixou de ser um terreno fértil para o seu trabalho.

Ali é licenciado em Engenharia Informática na Universidade de Tishreen, mas o título que melhor lhe serve é o de inventor. Ao todo, tem três protótipos prontos a serem testados e a receberem investimento — algo que na Síria é impensável. A invenção de que mais se orgulha é um sistema que permitirá a cirurgiões fazerem operações de forma remota. “O médico pode estar na Alemanha ao mesmo tempo que opera uma pessoa de urgência na Síria”, explica. A cirurgia será feita por um “braço artificial”, que conta desenvolver assim que houver meios e investimento para tal. “Pode ser que dê para fazer isto em Portugal”, idealiza, sentado na cafetaria da Universidade Lusófona.

Estudantes vêm de região ameaçada pelo Estado Islâmico

Cada um dos 33 estudantes sírios que chegaram no domingo a Portugal (foram desde a Síria até Beirute, no Líbano, de onde voaram para Istambul e de seguida para Lisboa) foi selecionado através de um rigoroso sistema de seleção. “O método é totalmente assente na ideia de uma meritocracia”, diz a pessoa responsável pela escolha dos estudantes, que pediu para não ser identificada. “O meu trabalho humanitário serve apenas este fim, não tenho vontade de aparecer ou de ser reconhecido. Interesso-me apenas que estes estudantes saiam daquela zona de guerra e que consigam garantir que têm um futuro de acordo com as suas capacidades.”

Além do mérito académico, uma das prioridades para a escolha dos estudantes sírios que este ano letivo chegam a várias universidades portuguesas é a proximidade geográfica com a guerra. É o caso dos 10 estudantes que ingressam agora na Universidade Lusófona, que vêm todos dos arredores de Hama, uma cidade que tem o autoproclamado Estado Islâmico às portas.

Ali tira uma selfie com os restantes estudantes sírios da Universidade Lusófona, no dia em que foram conhecer as instalações da faculdade.

Ali tira uma selfie com os restantes estudantes sírios da Universidade Lusófona, no dia em que foram conhecer as instalações da faculdade.

“Isto são pessoas com o QI muito elevado, é tudo gente com muitas capacidades e que por força da situação no seu país não tinha maneira de conseguir evoluir lá”, diz o responsável pela seleção dos estudantes, para o qual houve ainda um outro critério fundamental para a escolha de cada um dos 33 alunos: “Tinham de ser pessoas cuja filosofia de vida era a de ajudar o próximo”.

Algo que para Mustafa, que ainda tem uma licenciatura de três anos pela frente, parece estar num horizonte próximo. Basta a guerra da Síria terminar.

“Do pouco que vi de Portugal, gostei. Mas assim que cheguei cá coloquei como objetivo aprender o máximo de ciência possível para depois poder voltar à Síria. Venho cá para aprender a melhor maneira de poder reconstruir o meu país.”

Já com a entrevista a findar, a meio das despedidas e de um pedido de desculpas por não querer ser fotografado, Mustafa pede para”dizer só mais uma coisa”. Na verdade, é uma pergunta: “Sabias que o Steve Jobs é filho de um sírio?”