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É uma das estrelas do concerto solidário de apoio aos refugiados que se realiza este domingo, às 19h, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Helena Miranda, responsável pelo coleção de instrumentos do Museu Nacional da Música, explica a importância do violoncelo Stradivarius Chevillard-Rei de Portugal.

Quantas vezes foi este violoncelo utilizado em concertos desde que faz parte da coleção do Museu Nacional da Música?
Este Stradivarius foi tocado em concerto cinco vezes desde que o ciclo com instrumentos históricos “Um Músico, Um Mecenas” começou, em 2013, numa média de duas vezes por ano. Segundo os nossos registos, antes desta data, e desde a abertura do museu, em 1994, tinha sido tocado três vezes.

Quais são os pressupostos obrigatórios para um músico utilizar o Stradivarius, como vai acontecer amanhã com o violoncelista russo Pavel Gomziakov?
Atualmente, é o Museu Nacional da Música que convida os solistas, através de um comité técnico de aconselhamento que, juntamente com a equipa do museu, analisa todos os anos várias opções. A análise é criteriosa e feita com base na carreira dos músicos e também no envolvimento natural de cada um pela história do instrumento. Há casos em que estes dois factores coexistem de forma óbvia, como por exemplo no concerto da violoncelista Irene Lima no passado dia 18 de maio, que resultou de um estudo aprofundado sobre composições portuguesas para violoncelo no tempo do D. Luís I, muitas delas dedicadas ao monarca, antigo proprietário do instrumento.

Nos concertos do ciclo de instrumentos históricos do Museu Nacional da Música, o público pode ouvir o som dos instrumentos antigos, conhecer a história musical à volta dos seus proprietários, o repertório do tempo em que foram construídos, etc. As pessoas têm assim a oportunidade de adquirir vários pontos de vista acerca de um único instrumento e de enriquecer a sua cultura musical. Todo o trabalho dos intérpretes é, como o próprio nome do ciclo indica, pro bono.

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Músicos como Bruno Borralhinho, Levon Mouradian, Clélia Vital, Irene Lima e Paulo Gaio Lima já fizeram concertos neste instrumento musical.

É o único Stradivarius em Portugal?
Sim, é o único.

Quantos existem no mundo?
A estimativa é a de que tenham sobrevivido até aos nossos dias cerca de 500 instrumentos feitos por Antonio Stradivari, na grande maioria violinos. Existem cerca de 60 violoncelos. Muitos deles estão em colecções privadas, portanto é quase impossível aferirmos um número exacto.

O que distingue historicamente este exemplar?
Há vários factores: a famosa forma B, correspondente ao período de ouro do construtor (só existem 24 exemplares conhecidos com esta característica); os seus ilustres proprietários (o violoncelista belga Pierre Chevillard e o monarca português D. Luís I); ou, por exemplo, o facto de ter sido construído quando Antonio Stradivari [1644-1737] tinha já uma idade avançada (81 anos). Gostaria de realçar também que a sonoridade deste instrumento é verdadeiramente extraordinária e que está em excelente estado de conservação.

Que medidas de segurança especiais são necessárias para o Stradivarius sair do museu para concertos como o de amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian?
À semelhança de todos os tesouros nacionais, é apenas em ocasiões verdadeiramente excepcionais que o violoncelo sai do museu e a entidade receptora (neste caso a Gulbenkian) tem de cumprir todos os requisitos de segurança, como videovigilância e segurança 24 horas por dia. É também obrigatória escolta policial no transporte. Em relação ao concerto de domingo, o acompanhamento do instrumento é feito por um courrier, não apenas durante as viagens, mas também nos ensaios e no concerto. Durante este processo, o luthier Christian Bayon, que tem feito a manutenção do instrumento desde os anos noventa, estará também presente.

A directora do museu, Graça Mendes Pinto, afirmou à agência Lusa que o violoncelo está “avaliado em vários milhões de euros”. É possível avançar um valor mais concreto?
O valor deste exemplar foi estimado em relação ao valor de outros instrumentos similares vendidos em leilão. Ou seja, o seguro das peças de um museu é sempre avaliado pelas leis do mercado específico dessas peças. De forma generalista, o valor de um instrumento Stradivarius está relacionado com a sua raridade, factores históricos, som e estado de conservação. [NR: Em 2012, um “modelo B” vendido em leilão ultrapassou a fasquia dos 5,3 milhões de euros.]