Desde que o Tribunal da Relação determinou o fim do segredo de justiça interno do processo de José Sócrates, decisão que o Ministério Público acatou (apesar de ter recorrido) e fez com que decidisse libertar o ex-primeiro-ministro, que vários pormenores do processo Operação Marquês têm sido dados a conhecer por vários órgãos de comunicação social.

O processo é agora livre de acesso para todos os envolvidos, de arguidos a advogados, acabando nos assistentes. Daí que a publicação destes pormenores esteja a acontecer, levando a defesa de José Sócrates a anunciar que vai interpor providências cautelares para impedir a publicação de mais notícias nos jornais.

O dado mais importante dos últimos dias passa sobre a investigação da justiça à OPA da Sonae à PT, noticiada esta quarta-feira por Diário de Notícias (DN) e Correio da Manhã (CM).

No processo que tem 55 volumes, 21.954 folhas e um peso de 12,5 gigabytes, é referido o valor total que o Ministério Público suspeita pertencerem a José Sócrates: 30 milhões de euros, dos quais 23 milhões foram transferidos para Portugal ao abrigo do processo de regularização extraordinária de dívidas fiscais – que foi aprovado pelo último Governo socialista.

Dos últimos dias, vale a pena reter alguns dados que foram sendo publicados:

  • CM dava conta esta quarta-feira de várias escutas telefónicas feitas à mulher de Carlos Santos Silva, o empresário amigo de José Sócrates, suspeito de ser o testa-de-ferro do ex-primeiro-ministro. Nessas escutas, Inês do Rosário, diria, segundo o CM, que de facto o dinheiro nas contas do marido era de Sócrates e que João Perna, o motorista, era o “pombo-correio” que transferia o dinheiro de uma conta para outra.
  • Inês do Rosário, também arguida, fala do marido como um “pau mandado”, diz que Sócrates o obrigava a “assinar tudo” e que o ex-primeiro ministro seria uma “cruz na sua vida”, um “martírio Sócrates”. São várias as conversas telefónicas a que o CM se refere, entre elas uma em que confirma que comprou 30 mil livros da autoria de José Sócrates.
  • O processo contém dados sobre gastos que Sócrates e a namorada fariam em férias, algumas em conjunto com o casal Santos Silva. O CM fala em gastos de 49 mil euros numa viagem, 11 mil euros por quatro dias de férias no Sheraton Algarve ou mil euros por noite na ilha espanhola de Fermentera.
  • Numa outra escuta, o CM conta que Sócrates ficou sem conseguir levantar dinheiro porque se esquecera dos vários gastos que já tinha feito e que lhe esgotaram o plafond de um dos dois cartões de crédito: 4.100 euros na Prada, 2.000 euros num casaco para o filho e 10 mil euros em dois hotéis.
  • Segundo o CM, as escutas fazem ainda referência a duas casas que Sócrates suportaria em Paris, entre janeiro e junho de 2004, uma para ex-mulher Sofia Fava e outra para o filho do seu ministro e amigo Pedro Silva Pereira. O jornal fala ainda em André Figueiredo, até agora deputado, com um dos amigos ‘usados’ por Sócrates.
  • Já o jornal i conta várias manobras que Sócrates usaria para tentar iludir a vigilância da Justiça, de que teria, ou pelo menos suspeitava ter, conhecimento. Alguma das “manobras”, conta o jornal, eram combinadas com a ex-mulher, Sofia Fava.
  • O CM conta também quanto ganhava o motorista João Perna: 21 mil euros por mês, mais prémios de 21 mil euros entre agosto de 2011 e julho de 2014. O CM diz também que os serviços de advocacia de Proença de Carvalho eram gratuitos.
  • Numa outra escuta surgem pormenores da tentativa de compra de uma quinta em Tavira por “900 mil euros, pagos a pronto”. O dono exigiu um milhão e 250 mil, mas o negócio, que segundo o CM chegou a incluir a hipótese de se fazer “a meias” com Santos Silva, acabou por não se concretizar.
  • O jornal i fala da transferência de 600 mil euros de uma conta de Carlos Santos Silva para a mãe de José Sócrates, em 2012, através de três transferências de 200 mil euros. O CM também fala de pedidos de dinheiro de Maria Adelaide Carvalho Monteiro.
  • O CM dá ainda conta do percurso do dinheiro do resort de luxo de Vale de Lobo, que incriminou Armando Vara. Segundo o jornal, terá sido Vara, enquanto administrador da Caixa Geral de Depósitos, que insistiu no negócio com o banco público, quer em termos de financiamento, quer de participação numa das sociedades detentoras. Vara, segundo o Ministério Público citado pelo jornal, terá pedido 2,1 milhões. Mas há 12 milhões transferidos de Helder Bataglia (um dos empresário de Vale de Lobo) para o administrador do Grupo Lena Joaquim Barroca, dos quais só um milhão terá chegado à conta de Vara.
  • O CM fala em vários pedidos de informações ao Novo Banco sobre as contas dos acionistas de Vale de Lobo — Hélder Bataglia, Rui Horta e Costa e Luís Horta e Costa. Já sobre Armando Vara, o CM diz que foi Santos Silva quem lhe indicou a conta de Joaquim Barroca para a transferência dos montantes acordados.
  • Se já se sabia, também segundo o CM, que Sócrates teria seis números de telemóvel sob escuta, agora o mesmo jornal diz que Helder Bataglia teve 25 telemóveis alvo de vigilância.
  • Além da OPA da Sonae sobre a PT, que o CM e o DN dizem estar sob investigação, também a empresa de Rui Pedro Soares, ex-gestor da antiga PT, estará sob investigação. Rui Pedro Soares, agora presidente da SAD do Belenenses, é amigo de José Sócrates e foi o nome mais ouvido em dois assuntos polémicos envolvendo o ex-primeiro-ministro: a tentativa de compra da TVI e o famoso pequeno-almoço com Figo no TagusPark.
  • O i fala em cerca de meia centena de transferências suspeitas para Rui Pedro Soares e a mulher, que ascendiam a mais de 200 mil euros e que terão ocorrido durante o ano de 2009. Em 2012, o MP terá dado conta de uma transferência de 600 mil euros para contas de empresas de Rui Pedro Soares.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR