Rádio Observador

Atentados de Paris

O perfil (possível) dos jihadistas do Estado Islâmico, com a França em destaque

371

França sempre foi território fértil para o recrutamento do Estado Islâmico para a guerra do Califado na Síria ou Iraque. Condições financeiras são mais importantes no recrutamento do que religião

À medida que vai sendo libertada informação sobre os ataques a Paris pelas forças de segurança, descobre-se o inevitável: alguns dos terroristas são franceses ou terão vindo de outros países europeus, nascidos e criados no continente da liberdade, que decidiram matar os seus concidadãos em nome de um ideal fanático religioso que vê o Ocidente como um inimigo.

Como explicar que cidadãos europeus, nascidos em liberdade e em terra onde a laicidade é razão de Estado, se sintam atraídos pelo Estado Islâmico (EI)? Esta é a pergunta que os serviços de informações europeus têm tentado descobrir desde que o EI se tornou uma ameaça visível.

As respostas – as explicações para uma situação com esta complexidade só podem ser no plural – partem da pouca informação do EI que se encontra disponível mas que são claras em diversos pontos – e com a França em particular destaque.

Os seguintes dados foram recolhidos pelo Observador em Outubro de 2014 com base informações das secretas da França, Bélgica, Holanda e Alemanha. Apesar de poderem estar desatualizados em termos de pormenor (um ano depois, os serviços de informações têm mais informação sobre o EI), permitem perceber melhor o ‘sucesso’ daquela organização terrorista na Europa:

  1. O EI sempre teve uma forte capacidade de atrair jovens europeus para o combate militar na Síria e no Iraque. Dos 10 mil a 12,5 mil combatentes estrangeiros alistados nas fileiras do EI em outubro de 2014, cerca de 2500 eram europeus. Destes a maior parte eram franceses. Hoje o número total de estrangeiros nas fileiras do EI terá disparado para 30 mil, segundo dados da CIA e da ONU.
  2. Os quatro serviços de informações europeus não conseguiram fazer um perfil rigoroso do jihadista europeu mas maioritariamente são homens entre os 18 e os 35 anos, mas existiam cada vez mais mulheres entre os 15 e os 25 anos. Nota importante: estamos a falar essencialmente de jovens que representam todos os estratos sociais, com predominância para a classe média. A questão da pobreza ou desemprego não é assunto neste dossiê.
  3.  A forma de recrutamento predominante é simples: a internet e as redes sociais. Sites e páginas nas redes sociais de radicais islâmicos são o primeiro contacto com o EI, existindo depois uma fase recrutamento presencial que passa, em primeiro lugar, por uma educação religiosa e pela conversão ao Islão.
  4. Contudo, a questão religiosa não é apontada pelos quatro de serviços de informações como a questão predominante no sucesso do recrutamento. Jovens com uma vida sedentária, segura e ‘monótona’, em que a cultura dos video jogos tem alguma influência – são alguns das explicações que são dadas para a aventura de emigrar para a Síria e contribuir para a construção do Califado.
  5. A questão financeira também é importante – muito mais que a questão religiosa. A ‘aventura’ na Síria tem salário e casa garantidos. O EI também promete aos homens que terão uma mulher à sua espera. Estas duas questões são consideradas essenciais pelos serviços de informações para aumentar a sua competitividade na área do recrutamento face a outros grupos terroristas como a Al-Qaeda 
  6. O EI tem grande interesse em recrutar europeus com habilitações literárias em áreas técnicas como a medicina, engenharia, eletricidade ou água para reforçar a sua capacidade de povoar os territórios que são conquistados
  7. Por isso mesmo, os combatentes europeus dividem-se em dois grupos: os combatentes e os que ajudam no povoamento do califado ou em outras áreas técnicas como a propaganda.

Qual o perfil dos jihadistas portugueses? E regressaram?

A pouca informação disponível sobre o EI é uma das razões para o ‘sucesso’ dos seus objetivos militares e terrorista mas também explica a ineficácia no combate às suas ações na Europa. A coordenação e troca de informação entre as diferentes secretas europeias tem sido essencial para elaborar o perfil dos combatentes mas também para tentar coordenar os indivíduos que estão sinalizados como elementos suspeitos.

Por exemplo, a troca de informação dentro do Espaço Schengen tem sido crucial para identificar os europeus que partem para a Síria ou para o Iraque para se juntarem às fileiras do EI, sendo que o seu regresso à Europa leva as secretas a seguirem o seu rasto para descobrir células adormecidas.

O mesmo acontece com Portugal, estando essa monitorização a cargo do Serviço de Informações de Segurança (SIS).

O perfil dos jihadistas portugueses é mais difícil de fazer do que dos restantes europeus devido ao seu reduzido número mas também devido ao fato de Portugal não representar um alvo estratégico para o EI.

Das poucas informações que existem na comunidade de informações, é possível dizer o seguinte:

  • Trata-se de cidadãos com nacionalidade portuguesa nascidos em território nacional ou noutros países europeus. Cidadãos luso-franceses são predominantes;
  • A idade média situa-se entre 18-40 anos, maioritariamente do sexo masculino e convertidos ao Islão. Contudo, as conversões em questão são rápidas e que têm subjacente um laço frágil com o islamismo;
  • As primeiras deslocações dos combatentes portugueses para a Síria ocorreram em 2011. 

Verificaram-se regressos temporários mas a maioria dos regressados, apesar dos laços familiares, não têm uma ligação ou quadro de vida em Portugal que lhes permita ficar em território nacional durante muito tempo.

O SIS avalia a presença de jihadistas em Portugal como uma ameaça real mas com duas perspetivas:

  • Portugal pode ser um local de recuo para o descanso do guerreiro;
  • E um vértice de financiamento da organização terrorista

Uma questão importante na avaliação da ameaça do EI para Portugal é o fato de o português ser uma das línguas que o EI usa para efeitos de propaganda.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: lrosa@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)