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Pode parecer mentira e pode provocar muitos revirar de olhos, mas “falar à bebé” é um dos comportamentos humanos mais comuns, seja em que língua for. Apesar da expressão, este tipo de fala não se limita ao contacto com as crianças, também se estende aos parceiros e até aos animais. E a questão que se impõe é: porquê?

A razão é simples. O impulso não é causado por um carinho ou um focinho enternecedores, mas sim por motivos que se prendem com a biologia evolutiva, o desenvolvimento da linguagem, os laços humanos e a neuroquímica. Ou seja, sempre que se sentir inclinado a mudar o tom de voz, não se sinta culpado — esse comportamento não é bizarro, é biológico.

A Bustle juntou seis coisas que deve saber sobre a fala à bebé, tudo para provar que não é uma atitude descabida e que existe uma lógica por trás da tendência, quiçá milenar.

1. Está feita para ajudar os bebés a aprenderem a linguagem

O termo técnico da fala à bebé é “discurso direcionado para as crianças”. Ora, este discurso é pautado por algumas características como o recurso a palavras pequenas — algumas sem qualquer sentido — e apelidos para palavras maiores. Para além disso é uma fala carregada de emoção e repetitiva, mais aguda que a fala normal, quase cantada. E para quê?

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Os cientistas acreditam que a fala à bebé está feita para atrair a atenção dos bebés e para dar pistas sobre o significado das palavras, apressando o processo de aquisição da linguagem. Os bebés gostam muito mais desse tipo de fala do que de ouvir as palavras ditas de forma normal, muito provavelmente porque parece-lhes mais interessante.

Um estudo feito em 2014 descobriu que falar com as crianças num tom agudo, alongando as vogais, significa que elas possuem três vezes mais palavras no seu vocabulário quando chegam aos dois anos do que crianças que não ouvem falar à bebé. Este tipo de fala está feito para apelar aos ouvidos infantis e a prática é mais eficiente quando feita entre uma só pessoa e um bebé.

2. Falamos menos claramente com as crianças do que com os adultos

Um dos primeiros estudos feitos mais a fundo sobre a fala à bebé saiu em janeiro deste ano e veio trazer novas descobertas. Durante anos, as pessoas achavam que este tipo de discurso tinha sido feito para tornar as palavras mais claras para os bebés, enfatizando as sílabas e falando mais devagar, mas o estudo concluiu que, em média, a fala à bebé é menos clara do que a que se tem com os adultos.

Isto é importante porque mostra que este “idioma” não passa por uma grande articulação das palavras e que o processo de aprendizagem da linguagem, para as crianças, pode estar mais ligado à emoção e ao tom do que às sílabas extremamente bem articuladas. Ao que parece, os bebés apanham a emoção das palavras muito rapidamente, até noutras línguas. De acordo com a Parenting Science, um grupo de cientistas pôs crianças americanas a ouvir falar à bebé em alemão e italiano e descobriu que elas reagiam de forma positiva ou negativa ao discurso em estrangeiro, tal como o fariam na sua própria língua.

3. É comum entre os primatas

A fala à bebé já foi gravada em várias culturas e pode até ser um comportamento universal, mas não é algo exclusivo dos humanos — os primatas também a usam. De acordo com estudos feitos em 2011, os gorilas também têm o seu próprio toque à bebé. Quando comunicam com as crias, os mais velhos usam linguagem gestual que inclui muito mais toque e comunicação física gentil do que quando comunicam uns com os outros. Este comportamento também foi verificado em chimpanzés-pigmeus e outros primatas.

4. Os pais usam-na menos do que as mães

Entre a comunidade científica, falar à bebé traduz-se por “motherese”, palavra que, não tendo equivalente em português, remete para as mães, já que é bastante associada ao lado maternal. Um estudo feito pelo American Institute of Physics descobriu que, apesar de atualmente os pais estarem cada vez mais presentes na educação dos filhos desde a nascença, continua a ser pouco provável que embarquem numa longa fala à bebé, preferindo falar com os seus filhos como se fossem adultos em miniatura.

Não há, no entanto, nenhuma prova de que uma criança educada por um homem tenha dificuldades em adquirir linguagem. Simplesmente há mais do que uma forma de falar com um bebé, e o que acontece é que os pais, mesmo não alinhando no “cutxie cutxie”, tendem a alterar o seu discurso de diferentes formas para torná-lo mais percetível, falando por exemplo mais devagar e acentuando certas sílabas.

5. É usada com os animais porque tendemos a vê-los como bebés

Ao que parece, a necessidade de ligação também fala mais alto quando estamos na presença de animais, e há uma série de características — de olhos grandes a uma cabeça redonda — que despertam uma reação neurológica nos humanos que se traduz em qualquer coisa como “tenho de proteger e tomar conta”. Essa reação é concebida para que as pessoas tomem conta dos bebés e não os abandonem, mas também se estende aos animais de estimação.

Cantar as palavras, como qualquer dono sabe, é uma excelente forma de comunicar com os animais, que respondem bastante bem ao tom de voz e associam-no a sensações e experiências.

6. É usada com os parceiros para demonstrar afeto

Toda a gente tem aqueles casais amigos que chamam nomes fofinhos um ao outro em público, mas o que muita gente não sabe é que esses casais têm uma relação forte (mesmo que insuportável para os demais). Ao que parece, a fala à bebé está incorporada nas memórias de muitos humanos como sinónimo de segurança e amor, não tivesse sido essa a forma que os pais usaram para comunicar com os filhos durante anos.

Em declarações à Bustle, o conselheiro sexual Ian Kerner diz que a fala à bebé numa relação também faz parte de uma linguagem individual, formada enquanto laço privado entre parceiros. “Quando nos baseamos no vocabulário comum, o sentimento é só esse – comum. Penso que as pessoas procuram o vocabulário secreto e privado que existe apenas entre uma pessoa e o seu parceiro e é maravilhoso quando as nossas palavras podem correlacionar-se e sintonizar-se com os nossos sentimentos.”