Estreia da Semana

“Star Wars: O Despertar da Força”. Acordar a meio gás

518

O sétimo filme da saga criada por George Lucas, e assinado por J.J Abrams, quer estar à altura do original, e faz tudo para isso. Eurico de Barros, fã de primeira hora, não ficou muito convencido.

Aviso: este artigo pode conter spoilers do filme “Guerra das Estrelas: O Despertar da Força”.

Antes de mais, deixem-me dizer em meu abono que vi o “Guerra das Estrelas” original nas primeiras filas do cinema Monumental, em 1977, e voltei lá para o rever uma boa meia-dúzia de vezes; que “Guerra das Estrelas” e “O Império Contra-Ataca” estão na minha lista de filmes favoritos de sempre; que já apertei a mão a George Lucas e disse-lhe o quão agradecido estava por ele ter criado esta saga, e o que ela significava para a minha geração; que já disse a Harrison Ford o quanto gostava de Han Solo e que era uma das minhas personagens cinematográficas preferidas; que tenho autocolantes das personagens de “Guerra das Estrelas” no meu frigorífico, uma miniatura do Millenium Falcon na sala e um Sabre Luminoso no escritório. Por isso, não venham cá respigar comigo e fazer pose de fãs de babar na gravata quando eu lhes disser que “Star Wars: O Despertar da Força” não me entusiasmou por aí além.

[Trailer de “Star Wars: O Despertar da Força”]

Eu sei que J.J. Abrams é fã de carteirinha de sócio de “Guerra das Estrelas”, que fez tudo e mais alguma coisa para, neste filme que reactiva a saga (agora propriedade da Disney, que comprou os direitos a George Lucas) e se passa 30 anos depois dos acontecimentos de “O Regresso de Jedi”, ser o mais possível fiel ao seu espírito, ao seu universo visual, tecnológico, genealógico e narrativo, à sua vibração de space opera clássica e à herança de “serial” tradicional, e às relações entre as suas personagens, humanas, alienígenas e artificiais. Só que a sensação que esta sétima fita da série nos deixa é semelhante à de ver jogar, num estádio agradavelmente familiar, a esforçada, entusiástica, competente equipa B de um grande clube, abrilhantada por algumas “velhas glórias” que ainda sabem uns truques, apesar dos cabelos brancos e do peso dos anos. Uma coisa é querer estar à altura, outra é conseguir estar. Abrams tê-lo-à conseguido para “O Caminho das Estrelas”, mas aqui não.

[Entrevista com o realizador J.J. Abrams]

O filme, escrito por Abrams, Lawrence Kasdan (que colaborou também nos argumentos de “O Império Contra-Ataca” e “O Regresso do Jedi”) e Michael Arndt, apresenta-nos uma nova geração de personagens fazendo regressar quase todas as antigas, promove encontros e recontros, faz descobrir heranças insuspeitadas, procura manter uma lógica narrativa semelhante à da trilogia original, e permanece fiel à sua ideia condutora das relações familiares antagónicas e com pinceladas freudianas, e ao combate contínuo e de contornos mitológicos entre os representantes das forças da Luz (agora a República) e das forças das Trevas (agora a Primeira Ordem), reservando-nos ainda um choque brutal e totalmente inesperado.

[Entrevista com Harrison Ford]

Mas, no seu melhor, “Star Wars: O Despertar da Força” é um decalque aplicado e melhorado de momentos, figuras, situações e de sequências espectaculares do primeiro filme, caso do ataque final à gigantesca sucessora da Estrela da Morte, um planeta esventrado e transformado em super-arma destruidora de outros planetas. E é preciso mais do que isso para acordar o entusiasmo, o espanto e a sensação de novidade transmitidos pelo primeiro filme. Os poucos momentos em que “Star Wars: O Despertar da Força” nos dá um sobressalto de satisfação e vontade de aplaudir, são aqueles em que figuras familiares reaparecem do passado, como a altura em que Han Solo e Chewbacca irrompem no Millenium Falcon. (E que falta faz o Yoda!).

[Entrevista com Carrie Fisher]

Das personagens estreantes, apenas a determinada e combativa Rey, da excelente Daisy Ridley, deixa uma marca e promete fazer estragos nos próximos dois filmes (este é o primeiro de uma nova trilogia). O novo vilão, Kylo Ren, não passa de um sub-Darth Vader, o Supremo Líder Snoke é uma segunda mão do Imperador e o robôzinho BB 8 um R2D2 menor. Entre as coisas boas estão, e de novo, as variadas criaturas alienígenas que passam em fundo ou que têm participações secundárias, como Maz Kanata, a dona da nova Taverna Espacial, ou os monstros de um só e enorme olho, muitos tentáculos hiperactivos e boca com elevado poder de sucção que Han Solo e Chewie transportam no seu cargueiro sideral. E que uma vez à solta na nave nos contemplam com uma das poucas sequências dignas do primeiro filme, na sua dinâmica mistura de acção, humor e aflição.

[Entrevista com Daisy Ridley]

Na cena final de “Star Wars: O Despertar da Força” dá-se o encontro de uma nova geração de Cavaleiros Jedi com o derradeiro (e envelhecido) representante da geração anterior. Como há mais dois filmes a caminho (que, em princípio, terão novos realizadores, respectivamente Rian Johnson e Colin Trevorrow), confiemos que a saga ganhe em espírito, impulso e arcaboiço depois deste acordar a meio gás.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)