Estreia da Semana

“Amor Impossível”: as consequências da paixão

168

António-Pedro Vasconcelos baseou-se numa história real de amor e crime para realizar o seu novo filme, com Soraia Chaves, Ricardo Pereira e Victória Guerra. Eurico de Barros dá-lhe três estrelas.

Portugal vive em défice económico constante, o cinema português em défice crónico de histórias. Os cineastas portugueses, em geral, não querem, não gostam ou não conseguem contar histórias. Há sempre alguns que remam contra a maré, veteranos ou das novas gerações. Miguel Gomes, por exemplo, tentou compensar o referido défice com uma dose farta-brutos de narrativas, entre reais e imaginadas, nos três tomos de “As Mil e Uma Noites” — não há fome que não dê em fartura. Um dos realizadores de uma geração mais antiga que sempre cultivou um cinema narrativo e romanesco é sem dúvida António-Pedro Vasconcelos, um dos nossos mais insistentes e consistentes contadores de histórias em filme, inspiradas pela realidade ou sugeridas pela actualidade, e firme opositor da formatação telenovelesca.

Em “Amor Impossível”, o seu décimo filme, Vasconcelos, trabalhando pela quarta vez com um argumento de Tiago Santos, seu colaborador desde “Call Girl” (2007), volta a elaborar uma ficção baseada em material colhido aos factos. No caso, uma história de paixão e crime sucedida em Viseu entre um casal de namorados. Cristina (Victória Guerra), uma jovem universitária, é raptada quando estava com o namorado, Tiago (José Mata), também estudante, aparecendo depois morta. Dois agentes da Polícia Judiciária de Coimbra, Madalena (Soraia Chaves) e Marco (Ricardo Pereira) são enviados a Viseu para investigar. Madalena e Marco são amantes e a relação atravessa uma crise, pelo que passam tanto tempo às turras como a recolher indícios e depoimentos, o que não abona nada em favor dos amores de escritório e do seu efeito sobre a produtividade.

[O trailer de “Amor Impossível”]

Há duas histórias de amor em “Amor Impossível”, uma já desfeita e contada em flashback, outra a desfazer-se e a acontecer no momento, e que acabam por se espelhar. A primeira, entre Cristina e Tiago, os jovens estudantes de condições sociais e ambientes familiares muito diferentes, é a menos convincente, por não ter os contornos trágicos que o filme ambiciona para ela, ao citar paixões poderosamente funestas e intemporais como as de Amor de Perdição, de Camilo, ou de O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, o que se repercute nas personagens dos namorados.

Cristina e Tiago não têm estofo dramático suficiente para nos conseguirem cativar para as suas ilusões, as suas dores e a sua sorte, nem para conquistarem a nossa empatia. Ela é emocional e intelectualmente imatura, uma vítima do romantismo de trazer por casa e da literatura mal digerida. Ele é um filho-família a que os pais ricos subsidiam a rebeldia e as pretensões artísticas, e não está à altura da imaginação galopante, da sensibilidade exacerbada nem da capacidade de combustão amorosa e sexual da namorada (Cristina tem, pelo menos, a qualidade de juntar o gesto ao discurso). Apetece dar-lhes chapadas e mandá-los ter juízo.

[vlog do filme (1)]

A segunda história de amor, entre os agentes Madalena e Marco, é mais interessante e verosímil, apesar de menos pretensiosa e laboriosa do que a entre Cristina e Tiago. E pode dizer-se que esta – não entro em mais detalhes, vulgo spoilers, para não dar cabo do filme ao espectador – serve ao menos para abrir os olhos a uma das partes envolvidas na outra. Em ambas, António-Pedro Vasconcelos revela uma grande e óbvia compreensão e identificação com as personagens femininas, cuja caracterização é muito mais positiva e simpática do que as masculinas. Tiago e Marco são uns podões insofríveis e nem por sombras merecem a dedicação e os sentimentos de Cristina e Madalena. (Se tivesse sido realizado por uma mulher, “Amor Impossível” já andava por aí coberto de rótulos de filme “feminista”.)

[vlog do filme (2)]

Além de apresentar o sólido ofício cinematográfico a que o realizador nos habituou, a fita dá bons juros do investimento no trabalho feito com os actores, uma das constantes do cinema de Vasconcelos, e recrutados entre várias gerações. Victória Guerra e Soraia Chaves (esta no seu terceiro filme com o realizador, após “Call Girl” e “A Bela e o Paparazzo”) sobressaem em especial, cada qual no registo precisamente adequado às respectivas personagens, a inquieta, ardente e inteligente Cristina, e a tristonha, de poucas falas e perspicaz Madalena. Victória a fazer passar muita coisa fundamental sobre Cristina pelo olhar, Soraia a dizer-nos quem Madalena é pela forma de estar e de se movimentar, e pelo que não diz e guarda para si.

[vlog do filme (3)]

Uma palavra ainda para as personagens secundárias, a que o realizador de “O Lugar do Morto” dá sempre atenção — desde a mãe de Cristina ao polícia rústico e vernáculo que mete Tiago na cela, passando pela colega e melhor amiga daquela –, pela sua pequena mas importante contribuição para o realismo e a credibilidade geral do edifício narrativo. O diabo está nos detalhes, e isto é válido tanto para o amor como para os filmes.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Conflitos

Mediterrâneo

Luis Teixeira

Huntington defendeu, como Braudel, que a realidade de longa duração das civilizações se sobrepõe a outras realidades, incluindo os Estados-nação em que se supôs que a nova ordem mundial iria assentar.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)