Cinema

Bowie no cinema: uma vocação para o fantástico

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O músico, lembra Eurico de Barros, deixou a sua marca especialmente em filmes da imaginação como "O Homem que Veio do Espaço", "Fome de Viver" ou "Labirinto".

Autor
  • Eurico de Barros

Em 1978, David Bowie entrou no filme “História de um Gigolô”, realizado pelo ator e seu compatriota David Hemmings. Interpretava um oficial alemão, herói das trincheiras da I Guerra Mundial, que uma vez regressado a casa em Berlim, após o armistício, não consegue arranjar emprego em parte nenhuma e vê-se reduzido a ser gigolô de mulheres ricas e solitárias. O filme, mauzinho, é hoje apenas lembrado por Marlene Dietrich ter feito nele a sua última aparição no cinema. Anos mais tarde, Bowie comentou assim a sua participação em “História de um Gigolô”: “Acho que todos fazemos pelo menos um mau filme na nossa vida. E o meu foi este, pronto.”

[Trailer de “História de um Gigolô”]

David Bowie haveria ainda de entrar nalgumas fitas menores (recordo apenas “O Incidente Linguini”, de Richard Shepard, em 1991), mas foi muito mais afortunado nas suas incursões no mundo do cinema do que outras personalidades da música. Foram vários os filmes em que deixou uma profunda impressão, e os melhores são aqueles em que, apoiado numa formação artística que incluiu o teatro e a mímica, Bowie capitalizou na imagem mutante, deslocada da realidade “normal”, coleccionadora de personagens insólitas ou sexualmente esbatidas que cultivou na sua carreira musical, e com que contribuiu para enriquecer nomeadamente o cinema fantástico e de ficção científica.

[Trailer de “O Homem que Veio do Espaço”]

É o caso de Thomas Jerome Newton, o extraterrestre de “O Homem que Veio do Espaço”, de Nicolas Roeg (1976), que visita a Terra com a missão de encontrar água para salvar o seu planeta moribundo; do vampiro centenário John Blaylock, ao lado de Catherine Deneuve, no filme de terror erótico “Fome de Viver”, de Tony Scott ( 1983); de Jack Selliers, o oficial inglês prisioneiro dos japoneses em “Feliz Natal, Mr. Lawrence”, de Nagisa Oshima (1983); ou do rei dos duendes no filme de culto de Jim Henson “O Labirinto” (1986), escrito pelo Monty Python Terry Jones, e um dos poucos onde David Bowie tem a oportunidade de cantar além de representar. Outra das suas participações mais intrigantes no cinema é, praticamente irreconhecível, no papel do físico, engenheiro e inventor Nikola Tesla em mais um filme fantástico, “O Terceiro Passo”, de Christopher Nolan (2006).

[Trailer de “Fome de Viver”]

[Trailer de “O Labirinto”]

Entre outros, Bowie teve ainda aparições assinaláveis em “Pela Noite Dentro”, de John Landis (1985); cantando de novo em “Absolutamente Principiantes”, de Julian Temple (1986); “A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorsese (1988), interpretando Pôncio Pilatos; “Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer” (1992), de David Lynch; ou a fazer — muito bem — de Andy Warhol em “Basquiat”, de Julian Schnabel. É também o narrador de uma das mais populares animações de longa-metragem natalícias, “The Snowman”, de Dianne Jackson e Jimmy T. Murakami (1982) .

[David Bowie como Andy Warhol em “Basquiat”]

[No teledisco oficial de “Absolutamente Principiantes”]

Fora da tela, há ainda que não esquecer a sua elogiadíssima interpretação em palco no papel principal da peça “O Homem-Elefante”, na Broadway (1980/81). E só não o vimos num filme de James Bond porque em 1985 recusou o papel do vilão Max Zorin em “007-Alvo em Movimento”, de John Glen, entregue depois a Christopher Walken. A ligação de David Bowie ao cinema tem continuidade no seu filho, Duncan Jones, realizador de dois bons filmes de ficção científica: “Moon – O Outro Lado da Lua” (2009), e “O Código Base” (2011).

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