Monarquia

A família real portuguesa em dia de caçada

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Em 1876, um pintor francês de talento médio retratou D. Luís I e D. Maria Pia com os filhos. Não é uma pintura soberba, mas os visitantes do Palácio da Ajuda gostam muito de a admirar.

Quando é chamado a fazer o retrato da família real portuguesa, Joseph Layraud não é reconhecido como pintor de talento invulgar. E nunca será. De origens humildes, nasceu em 1834 no sul de França e viveu como pastor até aos 20 anos. Só então, com o apoio de um padre, começou a desenvolver-se como artista. Estudou na Escola de Belas-Artes de Paris, a partir de 1856, pelo que tem poucos anos de experiência quando cria “A Família Real Portuguesa em Queluz”.

Apesar de tudo, o quadro é hoje emblemático, mais pelo grande formato do que pela estética. Data de 1876 e terá sido iniciado dois anos antes. Retrata D. Maria Pia de Sabóia e D. Luís I, com os filhos, num dia de verão, junto ao Palácio de Queluz. Sabe-se que custou entre 14 e 16 contos de réis e demorou a ser pago, o que terá motivado queixas por parte do pintor.

Incluído na exposição permanente do Palácio da Ajuda, em Lisboa, podendo ser visto na Sala Verde, antigo espaço de trabalho e atelier de pintura de D. Maria Pia, o quadro foi exposto pela primeira vez no ano em que ficou pronto, na Sociedade Promotora de Belas-Artes, em Lisboa (futura Sociedade Nacional de Belas Artes).

Encontrava-se originalmente numa pinacoteca criada no palácio, anos antes, por D. Luís. Hoje ocupa uma parede da Sala Verde onde em tempos esteve pendurado um enorme espelho, segundo o conservador João Vaz.

O Palácio da Ajuda foi residência oficial da família real portuguesa entre 1861 e a queda da monarquia, em 1910. Ali nasceram os príncipes D. Carlos e D. Afonso, ou seja, as duas crianças retratadas na pintura. Aliás, D. Carlos nasceu precisamente na Sala Verde, a 28 de setembro de 1863. Pode ser ele a figura central deste quadro.

1. Infante D. Afonso chegado à mãe
Tem 9 ou 10 anos quando é aqui retratado. “Chega-se muito à mãe, como que a procurar a sua proteção, parecendo prenunciar a forte ligação que os uniria durante toda a vida da rainha”, observa João Vaz, conservador de pintura do Palácio da Ajuda. Filho mais novo do casal D. Maria Pia e D. Luís, D. Afonso de Bragança (1865-1920) era segundo na linha de sucessão e tornou-se muito próximo da mãe. Layraud, neste retrato obviamente encenado, capta esse detalhe com rigor, através da pequena mão sobre o braço da rainha.

2. Caçadas em Queluz
Os dois cães, provavelmente perdigueiros, à direita na composição, são apenas um dos elementos que remetem para as caçadas que D. Luís tanto apreciava. Em Queluz, caçava coelhos e atirava ao alvo, informa João Vaz. O rei aparece em traje de caça, de espingarda ao ombro, pena no chapéu, punho esquerdo apoiado na cintura. O filho mais velho segue-lhe já as pisadas.

3. D. Carlos como figura central
O futuro rei de Portugal parece ser o centro da pintura, não apenas pelo sítio em que está colocado. O irmão tem um olhar distante e perdido, enquanto D. Carlos, com 10 ou 11 anos, olha-nos diretamente, tal como os pais. Tem já uma postura adulta, o suficiente, pelo menos, para ter a sua própria arma de fogo, que ostenta na mão esquerda. Embora mais perto da mãe que do pai, parecer estar na divisão pictórica entre o mundo da fantasia (veja-se a bola e o arco, ao fundo, à esquerda, e até mesmo a vegetação) e o mundo real (à direita, onde há mais luz e se encontram o rei e o palácio).

4. Rosa no início do verão
“Sabe-se que a preferência do casal régio por Queluz incidia precisamente no período decorrente entre junho e setembro”, refere João Vaz. É, por isso, de supor que o quadro seja um retrato familiar em período estival. Mais concretamente, em inícios da estação, o que é sustentado pela rosa que D. Maria Pia traz no decote.

5. Vegetação romântica
“Leyraud faz parte daquele grupo vastíssimo de pintores na transição do romantismo para o naturalismo, mas tem muito de romântico”, explica o conservador do Palácio da Ajuda. “O tipo de arvoredo é ainda muito do romantismo, na maneira de criar sombras, ou no céu, que não tem nada de realista”, acrescenta. O mesmo se diga do ar sério das personagens. “São hieráticas, falta-lhes, na minha opinião, emotividade na expressão, aquilo que depois o Columbano, e outros retratistas, foram capazes de fazer.”

Título: “A Família Real Portuguesa em Queluz”
Autor: Joseph Layraud (1834-1912)
Data: 1876
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões (cm): 325 x 251
Coleção: Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa

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