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Na longa agenda de Marcelo Rebelo de Sousa no dia da tomada de posse, a 9 de março, é o último momento do dia que prima pela diferença. O novo chefe de Estado vai receber na Câmara Municipal de Lisboa um “concerto dedicado à juventude” que contará com a presença de Anselmo Ralph, HMB e Diogo Piçarra. A eles juntar-se-ão outros cantores consagrados, como Mariza – que cantará o hino nacional -, Paulo de Carvalho, José Cid e Pedro Abrunhosa, avança a agência Lusa.

O dia começa às 9h da manhã no Parlamento com Cavaco Silva a fazer uma última revista às tropas. A seguir à cerimónia de juramento de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, vai discursar antes do novo Presidente da República. A lista de convidados para a cerimónia ainda não é conhecida, mas julga-se que será menor que a de Cavaco Silva, que há dez anos levou 900 pessoas para o evento.

Marcelo Rebelo de Sousa dirige-se depois para o Palácio de Belém onde o espera uma cerimónia de boas-vindas e um almoço com várias personalidades do país, nomeadamente presidentes dos tribunais superiores. Depois da refeição, na Mesquita de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa deve assistir a uma missa religiosa e só às 18h é que segue para a condecoração por Cavaco Silva no Palácio da Ajuda.

Os concertos programados — e dados a conhecer esta quarta-feira — começam às 20h com artistas como Anselmo Ralph, José Cid ou Diogo Piçarra. Pedro Abrunhosa, que cantou a música “Talvez F*****” numa crítica expressa ao governo de Cavaco Silva em 1995, também é um dos convidados para um concerto na Praça do Município em Lisboa.

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Pedro Abrunhosa tem muitos fãs, quer em Portugal, quer além-fronteiras. Mas Abrunhosa nunca foi fã de Aníbal Cavaco Silva.

O albúm Viagens foi lançado em 1994, durante o terceiro mandato de Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro. E foi um álbum que, admitiu o cantor à revista Sábado, “deveu muito” à conjuntura da época. “O País vivia um clima de medo. O então primeiro-ministro [Cavaco Silva], antes ministro da Finanças, tinha uma longa história de culpabilidade na crise”, destacou Pedro Abrunhosa.

Num concerto, no Festival Portugal ao Vivo, em 2013, Abrunhosa tocou “Não posso mais”, um dos êxitos de Viagens, mas disse: “Julguei que nunca mais voltaria a ter de o tocar”. Um álbum utilizado para contestar a liderança de Cavaco Silva. Pedro Abrunhosa voltou à carga, mas desta vez com Cavaco Silva na Presidência. Citado pela Blitz, o cantor português referiu o facto de o “sindicato dos palhaços” não ter gostado que Miguel Sousa Tavares tivesse chamado palhaço ao chefe de Estado. E por isso Abrunhosa pediu à audiência que repetisse a expressão “sindicato dos palhaços”.

Para o cantor de “É preciso ter calma” e “Lua”, Cavaco Silva é “um verdadeiro psiché [toucador] político”, argumentando: “Acho notável que ao fim destes anos todos, ao fim não só destes 10 anos, mas quase dos últimos 40 anos, personagens políticos continuem a exercer cargos, e continuem o ativo. Diria que, talvez, o mais emblemático de todos é o Presidente da República, que é uma espécie de psiché político, que está quieto e não serve para nada. E quando faz alguma coisa é para incomodar “, afirmou à SIC, aquando da celebração dos 10 anos do Eixo do Mal. E reiterou: “É um verdadeiro psiché. E acho que diz tudo, também, de alguma incapacidade de refrescar o panorama político português”.

Já sobre a corrupção ao nível do poder político, Abrunhosa afirmava ao Porto Canal, em 2013, que a “desgraça” da crise portuguesa começou com os governos de Cavaco Silva. “É preciso chamar as pessoas à razão e é preciso pôr os corruptos na prisão. Recordo-me que, quando editei o “Talvez foder”, era ministro da Administração Interna [de Cavaco Silva] um senhor chamado Dias Loureiro… Há pessoas que são presas por roubarem um iogurte. O senhor Dias Loureiro é um dos responsáveis por levar um banco à falência, o BPN.” Mas Abrunhosa não se ficou por aqui, e destacou outros políticos: “O secretário de Estado das Finanças era Oliveira e Costa… Está preso, por causa do BPN, também. O presidente da bancada parlamentar era Duarte Lima. Está preso! Só falta prender o professor Cavaco Silva. Mesmo. Porque realmente é com ele que começa esta desgraça”.