Uma equipa de investigadores de instituições do Rio de Janeiro e Campinas, no Brasil, confirmou que as células do cérebro são um alvo do vírus zika, que compromete a viabilidade e crescimento destas células. Estes resultados foram publicados na revista científica Science.

As conclusões surgem na mesma semana em que os investigadores dos Centros de Controlo e Prevenção da Doença norte-americanos, confirmam, na revista científica The New England Journal of Medicine, que “existe uma relação causal pré-natal entre a infeção com o vírus zika e a microcefalia e outras anomalias cerebrais graves”. Por responder continuam questões como que tipo de defeitos pode causar a infeção com zika, qual o risco real para os fetos de mães que tenham sido infetadas ou como é que o momento da infeção afeta as consequências.

Desde o início do surto de zika no Brasil que se começou a registar um aumento do número de casos de microcefalia em recém-nascidos, podendo esta situação estar associada à infeção das mães com o vírus. Outro dos problemas neurológicos que poderá ser causado pela infeção com zika é o síndrome Guillain-Barré, como se demonstrou com o surto na Polinésia Francesa, em 2013-2014.

Patricia Garcez, investigadora no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Rio de Janeiro), e respetiva equipa, usaram células estaminais, que diferenciaram em células do cérebro, para explorar as consequências da infeção com zika durante a neurogénese (formação de neurónios) e crescimento.

O vírus demonstrou não só a capacidade de infetar estas células, como o poder para impedir que as neuroesferas – as células-mãe neuronais – se desenvolvessem normalmente: tinham um formato anormal e o vírus induzia a sua morte prematura. Os investigadores criaram ainda modelos celulares tridimensionais para testar os impactos da infeção com o vírus. A taxa de crescimento dos modelos expostos a zika foi 40% mais baixa do que a dos modelos que tinham acesso a condições semelhantes ao desenvolvimento normal de um cérebro. Assim, os investigadores demonstraram que a infeção com o vírus zika impede o normal desenvolvimento das células do cérebro e, consequentemente, do próprio órgão.

Quando as neuroesferas e os modelos tridimensionais foram expostos ao vírus dengue, da mesma família do zika, os investigadores encontraram sinais de infeção nas células, mas sem as mesmas consequências: as neuroesferas tinham um formato redondo, não houve morte celular precoce e os modelos tridimensionais cresceram normalmente.

A equipa de Patricia Garcez demonstrou de que forma a infeção com o vírus zika pode afetar os estados iniciais do desenvolvimento do cérebro, correspondendo ao primeiro trimestre de gestação. Outros trabalhos serão necessários para mostrar quais as consequências da infeção noutras etapas do desenvolvimento embrionário.