“Janis: Little Girl Blue”

De um documentário biográfico sobre Janis Joplin, podia-se esperar o pior: uma série de “clichés” nostálgicos sobre os bons velhos tempos do “flower power” e da contracultura, e de piedades sobre a “auto-destruição”, aos 27 anos, da cantora branca com a voz mais negra do rock e do “rythm’ n’ blues”. Mas em “Janis: Little Girl Blue”, Amy Berg evita tudo isso, construindo o seu filme com base em depoimentos de familiares e amigos de Joplin, de pessoas que tocaram e privaram com ela, e de ex-namorados, bem como de uma seleção da correspondência da cantora para pais, irmãos e amantes, lida por Cat Power, e muitas imagens inéditas. Berg revela como Joplin, uma Maria-rapaz texana sem interesse nas coisas de que as que raparigas da sua idade gostavam, e com ambições de fama, passou as passas do Algarve no liceu e depois na universidade, onde numa brincadeira cruel foi eleita “o homem mais feio do ‘campus'”, humilhações que lhe deixaram uma marca permanente; como a sua personalidade anti-convencional e expansiva, e a sua voz cruamente expressiva e a eletrizante presença em palco, escondiam uma permanente insegurança e uma sofrida vulnerabilidade emocional; e como o seu talento floresceu e se impôs no mesmo anárquico ambiente contracultural de São Francisco que acabou por contribuir para a matar, com uma “overdose” dupla: de heroína e de infelicidade. E ela morreu na altura em que, como a realizadora prova, parecia estar finalmente a conseguir controlar-se e a abandonar a droga, e se preparava para lançar “Pearl”, o álbum a solo que a consagraria como uma igual de Billie Holiday ou de Aretha Franklin no rock e R&B, mas que acabou por ser o seu sucesso póstumo.

“Negócio das Arábias”

Tom Hanks é o principal intérprete desta comédia dramática independente, uma co-produção anglo-franco-germano-americana, realizada pelo alemão Tom Tykwer, com base num livro de Dave Eggers, “An Hologram for the King”, também o título original da fita. Este é o segundo filme que ator e realizador fazem juntos, depois do desastroso “Cloud Atlas”, em 2012. Hanks personifica Alan Clay, um homem de negócios americano na mó de baixo profissional e familiar, que vai para a Arábia Saudita tentar vender ao rei um dispendioso sistema de teleconferência holográfico e em 3D, para ser instalado numa nova cidade que está a ser construída em pleno deserto. Clay é um daqueles americanos que têm apenas uma vaga ideia do que é realidade de um país muçulmano, sobretudo um país como a Arábia Saudita, e começa a colecionar passos em falso culturais e situações embaraçosas. As sequências árabes de”Negócio das Arábias foram rodadas essencialmente em Marrocos e no Egito. No elenco, encontramos ainda Ben Whishaw, Tom Skerritt e Sarita Chowdury.

“Axilas”

Quando o realizador José Fonseca e Costa morreu, aos 82 anos, no passado dia 1 de novembro de 2015, tinha parado, por razões de saúde, a rodagem do seu filme “Axilas”, adaptado do conto homónimo do escritor brasileiro Rubem Fonseca. Dois terços de “Axilas” tinham já sido filmados e Paulo Branco, o produtor, decidiu terminar a obra, até porque Fonseca e Costa tinha deixado indicações nesse sentido. Assim, o montador Paulo Milhomens foi encarregue de concluir as filmagens e de montar a fita. Pedro Lacerda interpreta Lázaro de Jesus, um órfão que foi adotado por uma velhota muito rica e muito beata a quem chama avó, mas que esta trata como se ele fosse uma criança. Um dia, Lázaro consegue ter acesso ao escritório do avô, onde descobre que este era um pornógrafo requintado, e estranhamente obcecado por axilas femininas. Lázaro assume a tara do morto e fixa-se nas axilas de Maria Pia, uma jovem e bela violinista da Orquestra Gulbenkian. “Axilas” foi escolhido pelo Observador com filme da semana, e pode ler a crítica aqui.