A apresentadora Bárbara Guimarães esteve cerca de três horas em tribunal a ler notícias de vários meios de comunicação social, no âmbito do julgamento do ex-marido, o ex-ministro Manuel Maria Carrilho. A leitura foi pedida pelos advogados de ambas as partes e aceite pela juíza Joana Ferrer. Recorde-se que, além do crime de violência doméstica, Carrilho é acusado de 21 crimes de difamação e calúnia.

O julgamento do ex-governante foi retomado esta sexta-feira, depois de suspenso durante dois meses por causa de um incidente de recusa da juíza. A sessão começou às 14h24 e foi retomada onde tinha terminado: com Bárbara Guimarães a prestar declarações sobre o seu casamento. Só terminou pelas 18h00.

Quando confrontada pela procuradora Nadine Xarope sobre o que sentiu quando várias notícias vieram a público com acusações de Carrilho, a apresentadora declarou ter-se sentido “humilhada”. “Fiquei assustada e em estado de choque, não queria acreditar que uma pessoa pudesse quase diariamente atacar outra na imprensa”, disse. Antes de prosseguir, Bárbara Guimarães pediu à procuradora do Ministério Público (MP) para a ir recordando das notícias, a fim de “poder ser mais específica”. O seu advogado, Pedro Reis, interrompeu-a. “É muito difícil para a assistente fazer comentários sobre tantas entrevistas”, alegou.

Por seu turno, o advogado de Manuel Maria Carrilho, Paulo Sá e Cunha, considerou “preferível proferir à leitura integral das entrevistas e à visualização das entrevistas televisivas” para que ficasse “assegurada a genuidade do conteúdo das mesmas”. A juíza aceitou.

Bárbara Guimarães esteve, desde então, a ler todas as notícias que foram publicadas no período em que pediu o divórcio, em outubro de 2013, e nos meses seguintes. Carrilho foi reagindo. Por vezes sorria, outras olhava para trás, para a audiência. Noutras mexia na cabeça e suspirava. São dezenas de notícias publicadas em revistas e jornais que integram a prova documental que existe no processo. Há ainda entrevistas em televisão, que serão visionadas nas próximas sessões — “quando o tribunal tiver preparadas as condições técnicas”, disse a juíza.

A juíza Joana Ferrer deu dois intervalos a Bárbara Guimarães, um de cinco, outro de dez minutos. Ela ainda pediu água para poder prosseguir. A magistrada sugeriu que a sessão prosseguisse até às 19h00. Paulo Sá e Cunha pediu, no entanto, que a sessão terminasse pelas 18h00 e a juíza acabou por aceder.

A tinta que correu. E que ela leu

Os textos principais e secundários, os títulos e, até, os destaques. A apresentadora Bárbara Guimarães leu quase todas as notícias que constam no processo e que foram publicadas, sobretudo, em outubro e novembro de 2013 — quando se começou a falar da separação do casal e quando esta aconteceu de facto. Há notícias de vários meios: Expresso, Sol, Correio da Manhã, Lux, Vidas. Enquanto lia várias acusações de Carrilho em como “era alcoólica” e tomava “comprimidos” e em como “caía por estar bêbeda”, Bárbara ia contra-argumentando, justificando que as declarações do ex-marido eram “falsas”. Que ele a ameaçou várias vezes, que ela só tomava os comprimidos necessários, que bebia “um copo” e nada mais que isso. Nalguns momentos o advogado olhava-a fixamente e fazia-lhe sinal. Queria que ela realçasse um outro pormenor que mais a afligiu.

Com o aproximar das 18h00, a juíza disse a Bárbara Guimarães para terminar a leitura. “Faltam ainda umas notícias e falta visionar as restantes”, disse a juíza em forma de balanço, propondo terminar “as leituras” na próxima sessão. “Lê muito bem Doutora Bárbara”, disse a determinada altura a magistrada.

Joana Ferrer ainda voltou a perguntar aos advogados se, na sessão seguinte, a apresentadora teria que ler todas as notícias que foram juntas ao processo. Como aconteceu nesta sessão. Ou se bastariam as que relatam os factos constantes na acusação. O advogado de Bárbara Guimarães disparou logo uma resposta negativa. “É melhor ler tudo”, disse.

Juíza e procuradora não se entendem

A marcação da sessão seguinte gerou, mais uma vez, uma cisão entre a juíza e o Ministério Público (MP). E esta não foi a primeira vez neste processo que Joana Ferrer e Nadine Xarope não estiveram em sintonia. Recorde-se que o MP acompanhou o incidente de recusa de Joana Ferrer suscitado pela defesa de Bárbara após a primeira sessão de julgamento. E que o tribunal da Relação recusou.

Nessa sessão, a própria procuradora Nadine Xarope mostrou estar em desacordo com a juíza quando esta disse a Bárbara que a censurava por ela não ter ido ao hospital quando foi alegadamente vítima de violência doméstica. Desta vez, a procuradora informou a juíza não estar disponível no próximo dia 20 de maio para a sessão do julgamento, uma vez que se encontrará em formação. A juíza foi irascível e fez um despacho dirigido à coordenadora do MP a pedir que a magistrada fosse substituída naquela sessão, dada a urgência do processo e as 70 testemunhas que têm que ser ouvidas. “Já se tendo perdido tempo precioso com a desconvocação de mais de 60 pessoas”, justificou.

A procuradora do MP ainda alegou que a juíza já conhecia a apertada escala de magistrados para este mês, uma vez que uma magistrada do MP se encontra em licença de maternidade e os magistrados foram destacados para uma formação da CMVM. Mas a juíza não aceitou a justificação. Disse que o MP era um corpo único e manteve a data. Mesmo correndo o risco de o julgamento não se realizar por falta de comparência de um magistrado do MP.

Também Bárbara Guimarães perguntou se a sessão desse dia podia acabar mais cedo, por causa de uma festa no colégio da filha mais nova. Carrilho interrompeu. “Esse dia é meu, eu trato”, falou da cadeira do arguido. Bárbara Guimarães, sem nunca olhar para trás, respondeu à juíza. “Mas acho que a minha filha ia ficar contente se tivesse o pai e a mãe na festa”. A juíza compreendeu.

Carrilho tira foto em tribunal

Alguns jornalistas que assistiam ao julgamento testemunharam uma situação insólita no segundo intervalo da sessão: Manuel Maria Carrilho terá tirado uma fotografia a Bárbara Guimarães quando esta falava com o seu agente à porta da casa de banho. Depois terá mostrado a imagem ao seu advogado, Paulo Sá e Cunha. Ali, no corredor onde se cruzam jornalistas, advogados e testemunhas.

Apesar de vários jornalistas afirmarem o que viram, já no final da audiência e à porta do tribunal, Manuel Maria Carrilho negou completamente o episódio. “Não se falou de nenhum crime de violência doméstica”, declarou, referindo-se à sessão. E seguiu caminho. O advogado recusou falar da conversa que teve com o seu cliente depois do alegado episódio.