Ele estava nervoso com o primeiro encontro. Queria impressioná-la mas, acima de tudo, queria evitar aqueles silêncios embaraçosos em que ninguém sabe muito bem o que dizer. Por isso, preparou 20 perguntas. “Não queria ficar sem assunto, então tentei decorá-las”, diz agora, visivelmente divertido. Como o encontro teve lugar num restaurante italiano, em Roma, a maior parte das perguntas era sobre comida. Mas bastou vir a ementa para perceberem que eram bastante diferentes nesse tema. Ele, David Frenkiel, sueco, pediu um rigatoni porque era vegetariano desde os 15 anos “mas não muito saudável, com uma alimentação feita à base de massas, pizas e gelados”. Ela, Luise Vindahl, dinamarquesa, pediu salmão porque comia carne e peixe e era “muito consciente da sua saúde”. Apesar de tudo, o encontro correu bem. Tão bem que o casal acabou junto, já lá vão nove anos, e o seu desentendimento gastronómico acabou por dar um blogue, o Green Kitchen Stories, que por sua vez deu vários livros de receitas e apps.

“Quando fomos viver juntos percebemos que tínhamos de encontrar uma forma de comer as mesmas coisas”, diz Luise ao Observador, sentada no terraço de um hotel em Lisboa depois da apresentação do primeiro livro do casal publicado em Portugal, Vegetariano Todos os Dias. David acrescenta: “No primeiro ano foi uma luta, mas depois começámos a focar-nos naquilo que tínhamos em comum, e não tanto nas diferenças. Chegámos mesmo a sentar-nos para ter uma conversa e perceber o que ambos gostávamos.” Na lista da concórdia estavam vegetais e o prazer de cozinhar, por isso os dois pegaram no avental e começaram a fazer receitas vegetarianas saudáveis.

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O livro foi editado pela Casa das Letras e custa 25,90€.

Como diz David, nessa altura — muito antes da explosão de superalimentos, sumos detox, sementes, quinoa e verduras a que se tem assistido ultimamente — os livros e blogues de receitas vegetarianas eram “muito antiquados”. “Havia guisados, lasanhas e risottos, e pouco mais. A nossa cozinha era mais centrada nos vegetais, mas não a encontrávamos em nenhum lado, e isso levou-nos a querer partilhá-la no blogue.”

O Green Kitchen Stories nascia então a 1 de outubro de 2009, com uma fotografia de uma banca de frutas do mercado La Boquería, em Barcelona, e a promessa de publicar receitas do dia-a-dia “quase vegetariano” do casal — Luise continua a comer peixe de vez em quando — com o mínimo de laticínios, açúcar e glúten. “Começou como um projeto divertido, na verdade, uma forma de documentarmos aquilo que estávamos a experimentar”, diz Luise. “No início só as nossas mães é que o viam, mas depois o blogue começou a crescer lentamente e começámos a perceber que as pessoas estavam de facto a experimentar as nossas receitas, o que nos levou a querer melhorar a forma como as apresentávamos e as fazíamos. Foi um processo de desenvolvimento que nos levou até onde estamos hoje. ”

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O casal numa das muitas viagens onde recolhe inspiração para as receitas, com a filha Elsa, de seis anos.

Pelo caminho ficaram outras experiências profissionais — David trabalhava como diretor de arte numa revista, Luise como nutricionista –, vieram dois filhos (o terceiro está a caminho), e o sucesso cresceu com a família. Há cerca de três anos, o casal passou a dedicar-se exclusivamente ao Green Kitchen Stories e aos vários produtos a ele associados, com uma legião de fãs que se estende também ao Instagram. Tudo somado são três livros — um quarto, de smoothies, está prestes a sair no Reino Unido –, duas apps e qualquer coisa como 500 mil seguidores.

Em Vegetariano Todos os Dias estão cerca de 100 receitas do dia-a-dia do casal, divididas em “manhãs”, “refeições leves”, “para levar”, “jantares de família”, “petiscos”, “bebidas”, “sobremesas e guloseimas” (adoçadas naturalmente). Há rolinhos de omelete com maçã e requeijão para o pequeno-almoço, por exemplo, ou gaspacho de morango e melancia para um piquenique. A originalidade e o resultado colorido das receitas são uma constante, seja nos tacos embrulhados em folhas de couve-lombarda, seja na base de piza que leva couve-flor em vez de farinha, ou ainda na explosão de sushi com iogurte de wasabi — uma receita que consegue a proeza de ser própria para vegetarianos e preguiçosos, já que não implica preparar o peixe ou fazer rolinhos, mas sabe de facto a sushi porque leva óleo de sésamo, alga e vinagre de arroz.

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Uma das receitas do livro: hambúrgueres de cogumelos e pêssego.

Pegando no nome do projeto geral, parte do sucesso do Green Kitchen Stories está na metade da “cozinha verde”, parte está na metade das histórias pessoais que os autores partilham em cada receita e que mostram a realidade de uma família que, apesar das correrias associadas à presença de filhos pequenos em casa, consegue comer de forma saudável e prática.

Se pensarmos nisso, todos os pratos que todas as pessoas comem têm uma história: pode ser o que estavam a conversar nessa altura, pode ser a forma como o prepararam juntos”, conclui David. “A comida tem memórias, e para nós isso sempre foi importante. Às vezes gostamos de partilhar as histórias por trás da preparação da comida, às vezes histórias da nossa família ao provar essa comida. Isso parece-nos mais interessante do que dizer simplesmente ‘corte as bananas assim e acrescente 200 gramas assado’.”