A operar desde 2011, o aeroporto de Beja, que custou 33 milhões de euros, está quase sem atividade e aquém das expectativas de população, empresários e autarcas, que criticam a “falta de vontade política” para desenvolver a infraestrutura.

O aeroporto “está, sem dúvida, muito aquém” das expectativas da população, autarcas e de instituições locais, porque “todo o seu potencial” tem “estado a ser desperdiçado”, disse à Lusa o presidente da Câmara de Beja e da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, João Rocha.

Segundo o autarca, “só a falta de vontade política, até agora, justifica que não se esteja a apostar em todo o potencial” do aeroporto, que “não foi uma aposta falhada, antes pelo contrário”, porque “as razões que ditaram a sua construção mantêm-se válidas e atuais”.

O presidente da Associação Empresarial do Baixo Alentejo e Litoral (AEBAL), Filipe Pombeiro, diz à Lusa que é “muito cedo” para um balanço, mas frisa que “gostaria” que a atividade que o aeroporto teve nos primeiros cinco anos “fosse substancialmente maior” e que “estratégia falhada” seria ter a pista da Base Aérea de Beja “apenas com aproveitamento militar”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Segundo Filipe Pombeiro, a AEBAL e “a maioria dos empresários da região” tinham “uma expectativa muito superior” em relação à utilização dada ao aeroporto, mas sabem que “as condicionantes a que está sujeito levaram a um crescimento lento” e esperam que, “no curto/médio prazo, venha a desenvolver-se de forma mais rápida e, sobretudo, mais sustentada”.

Para José Queiroz, que foi presidente da Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja (EDAB), “o que se constata é que o aeroporto não contou com qualquer atividade operacional relevante e nenhuma das valências enunciadas nas intenções iniciais foi concretizada, defraudando, assim, o contributo esperado para o desenvolvimento regional”.

A aposta no aeroporto “não foi falhada”, mas “a sua concretização, por várias razões, falhou”, afirma José Queiroz à Lusa, referindo que a ANA – Aeroportos de Portugal, quando obteve a concessão da infraestrutura e antes de ser privatizada, “nada” fez “para cumprir as instruções do Governo” da altura e, “daí para cá, continuou a completa ignorância da viabilização da infraestrutura”.

Segundo a ANA, a decisão de construir o aeroporto de Beja, “um investimento estruturante que deve ser entendido como um ‘sunk cost'” (custo irrecuperável), “assentou em critérios políticos e não financeiros” e, por isso, não é adequado, “em momento algum”, fazer um “balanço em termos operacionais ou económicos”.

A ANA escusou-se a indicar o número de voos e passageiros processados pelo aeroporto de Beja desde 2011, argumentado que “não se afigura relevante, embora se tenham registado operações de várias dezenas de operadores aéreos”.

A atividade do aeroporto “limitou-se a algumas operações ‘charter’ e, essencialmente, de aviação executiva”, indica a ANA, referindo que a infraestrutura também foi usada para “operações de manutenção exterior de aviões”, enquanto as operações de carga foram “limitadas”.

Segundo dados prestados à Lusa pela ANA em 2014, o aeroporto de Beja processou, nos primeiros três anos, 6.624 passageiros e realizou 245 movimentos de aeronaves, sendo a “maioria” de operações ‘charter’ não regulares.

Atualmente, “o tráfego é maioritariamente de aviação executiva” e, desde o início deste ano, também de voos de posição das companhias aéreas Hi Fly e SATA, que têm usado o aeroporto para estacionar aviões, indica a ANA.

De acordo com a ANA, a decisão de construir o aeroporto foi tomada “num contexto em que estavam programados ambiciosos planos de investimento turístico e imobiliário, que seriam suscetíveis de gerar tráfego de passageiros” em Beja.

Mas, “a suspensão da maioria” dos investimentos eliminou a relevância da componente de transporte de passageiros e, por isso, “nenhuma empresa de transporte aéreo regular manifestou uma intenção séria de utilizar” o aeroporto.

Assim, “as operações comerciais de tráfego de passageiros suscetíveis de concretização deverão estar associadas a projetos desenvolvidos e acordados entre a entidade regional de turismo, os operadores turísticos e as unidades hoteleiras da região”, como tem acontecido até agora, refere a ANA.

A situação “impôs uma mudança de estratégia” no aeroporto e, por isso, a ANA refere que “tem diversificado a sua aposta também noutras atividades”, como o uso da infraestrutura para estacionamento de média-longa duração de aviões.

João Rocha considera “positiva” e Filipe Pombeiro vê “com bons olhos” a estratégia da ANA de usar o aeroporto para estacionamento de aviões, mas José Queiroz defende que devia ser “uma atividade complementar, marginal”, porque não tem impacto na economia local e regional.

A ANA refere que também tem apostado na implementação de atividades industriais e, nesta área, a empresa portuguesa AeroNeo vai investir oito milhões de euros numa unidade de manutenção e desmantelamento de aviões e valorização de ativos aeronáuticos no aeroporto de Beja, que criará 80 postos de trabalho.

É um “projeto estruturante”, segundo a empresa, que terá “um significativo impacto na região do Alentejo” e “comprova a eficácia da estratégia” que a entidade gestora tem seguido.

Ao nível do tráfego de carga, “as operações que poderão ser realizadas estão dependentes da própria robustez da economia da região e do seu crescimento sustentado”, diz.

A construção do aeroporto de Beja, para aproveitamento civil da Base Aérea n.º 11, foi durante muitos anos defendida e reivindicada por autarcas, instituições e populações.

Em 2000, o Governo reconheceu o interesse na promoção da Base para fins civis, iniciou o estudo de viabilidade do aeroporto de Beja e criou a EDAB.

O estudo, que determinou a viabilidade do aeroporto, terminou em 2003 e, após a conclusão do plano diretor, dos projetos de execução e do estudo de impacto ambiental favorável, as obras de construção da infraestrutura começaram em 2007 e terminaram em 2009.

O aeroporto começou a operar a 13 de abril de 2011, quando se realizou o voo inaugural, mas, desde então, apesar de aberto, tem estado praticamente vazio e sem voos e passageiros na maioria dos dias.

Desde que começou a operar, o aeroporto só teve três operações relevantes de voos ‘charter’, sendo que a primeira, entre Beja e Londres, foi promovida em 2011 por um operador turístico britânico, incluiu 44 voos e movimentou 807 passageiros.

As outras duas foram promovidas por um grupo hoteleiro, uma de oito voos, entre Estugarda e Beja, em 2011, e outra de nove voos, entre Hannover e Beja, em 2012.

Uma outra operação ‘charter’, entre Paris e Beja, promovida por um operador turístico português em 2014, foi cancelada após terem sido realizadas quatro das 12 rotações previstas.

A construção do aeroporto foi financiada através de fundos comunitários e do Orçamento do Estado provenientes do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e contempladas no Programa de Investimento e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central de 2006 (15,9 milhões de euros), 2007 (15,1 milhões) e 2008 (2,1 milhões).