O ponto de encontro foi a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, o que indicava à partida que a apresentação do Festival TODOS passaria obrigatoriamente pela comida. Sim, a gastronomia é uma das atividades a ter em atenção na 8ª edição do evento. De 8 a 11 de setembro na Colina de Santana, em Lisboa, as artes performativas, como o teatro e a dança, vão conviver com os sabores e os cheiros de várias partes do mundo.

Tem sido assim desde 2009: a Câmara Municipal de Lisboa em parceria com a Academia de Produtores Culturais procura demonstrar afinal o que é que isto de uma Lisboa intercultural. Os artistas são de várias partes do mundo, da França até Marrocos, e alguns deles já deixaram marcas na cidade. Desde as paredes coloridas da Rua de São Bento até à imersão multicultural no Martim Moniz ou no Intendente, o eixo da programação e das iniciativas mantém-se: “pensar a arte num mundo contemporâneo”, segundo Madalena Vitorino, uma das responsáveis do Festival Todos.

A companhia Laika, da Bélgica, apresenta o espetáculo “Piknik Horrifik”, uma combinação de teatro e gastronomia, que tem como inspiração o quadro “Jardim das Delícias” de Hieronymous Bosch. Durante a apresentação do TODOS estão na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, mas em setembro o local do espetáculo será o antigo Hospital Miguel Bombarda, um sítio que o chef Peter De Bie acredita ser o indicado para a dualidade “paraíso e inferno” que pretende transmitir.

Disse logo à organização que queria o último sítio imaginável para fazer um piquenique”, refere.

O Hospital Miguel Bombarda, uma unidade vocacionada para a psiquiatria, fechou há alguns anos. Em 1911 era a “casa” do Convento de Rilhafoles. Se muitos estranharam o local escolhido, outros acharam ser apropriado consoante o que foi apresentado: pratos de terra comestível, salgado e doce, e até uma cara feita de mousse de salmão, tudo foi pensado para inquietar e desmitificar o conceito idealizado de piquenique. “A ideia que temos desta atividade é sempre comparável a um paraíso”, explica Peter De Bie.

O aniversário dos 500 anos da morte de Hieronymus Bosch foi um dos pontos de partida para o espetáculo da equipa da companhia Laika. Tal como no quadro “O Jardim das Delícias”, com uma divisão da pintura em três partes, onde o pintor recriou a linha ténue que existe entre o inferno e o paraíso, também Peter De Bie tenta colocar uma tela à frente dos seus olhos. “Estamos todos, neste momento, num quadro do Bosch”, diz, apontando para a sala. No Festival TODOS vai “alimentar” 200 pessoas de cada vez, para isso, conta com a ajuda de nove elementos da companhia e com a participação de dez residentes da Colina de Santana.

jardim das delícias bosch

“Jardim das Delícias”, de Bosch

De recordar ainda que o quadro “Tentações de Santo Antão”, outra das obras emblemáticas de Bosch, foi emprestado em maio deste ano pelo Museu de Arte Antiga ao Museu do Prado para integrar a exposição dedicada ao pintor.

A programação do evento fica completa com a música, o circo e a dança: um dos destaques vai para uma open-call a todos os guitarristas de Lisboa para participarem num espetáculo de funambulismo, a arte circense em que o artista caminha sobre uma corda suspensa no ar. A música vai acompanhar a proeza e promete ajudar o restante público a exercitar a respiração ao som das cordas elétricas, com os olhos postos no céu.

A 8ª edição do Festival Todos tem como tema “Surpreender o quotidiano” e desde logo leva o público até alguns dos “segredos” da Colina de Santana: desde conventos transformados em antigos hospitais psiquiátricos até palácios e casas particulares, o objetivo passar por resgatar em Lisboa “uma memória que as pessoas sabiam que existia, mas que não conheciam”. A entrada nas atividades do festival é gratuita.