À beira de fazer 92 anos, morreu um ator cómico que nasceu no camarim de um teatro e começou a pisar o palco com cinco anos. Estava num hospital, em cuidados paliativos para atenuar a dor de dois cancros, um na próstata e outro nos intestinos. O seu nome era conhecido de gerações várias, umas que o acarinhavam desde os tempos do teatro, outras que foram conquistadas pelos seus programas televisivos.

É impossível, quando se fala em Camilo de Oliveira, presença televisiva desde a fundação da RTP, não recordar o quadro televisivo do programa “Sabadabadu”, “Os Agostinhos”, da autoria de César Oliveira e Melo Pereira, protagonizado pelo próprio e por Ivone Silva. As duas alcoolizadas figuras cantavam versos que começaram a ser repetidos nas ruas e nas casas portuguesas: “Este país perdeu o tino, a armar ao fino / Este país é um colosso, está tudo grosso, está tudo grosso”.

O seu protagonismo televisivo na finória Nação intensificou-se a partir dos anos 90 – com séries como de Camilo & Filho, Lda (1995) e Camilo a Presidente (2009 e 2010), ambos da SIC. Diga-se que da primeira, sucesso de audiências, já não estão vivos nem Camilo nem Nuno Melo, que fazia o segundo papel.

Morre assim mais um ator de comédia de travo marcadamente português e popular, daqueles que marcaram o humor nacional muito antes da stand-up comedy e das one-liners do Twitter. Um homem que falava para um povo que gostava que o lembrasse para sempre como um das figuras marcantes da comédia portuguesa – ao lado de João Villaret, António Silva e Vasco Santana. Eram esses nomes que referia quando era convocado para falar sobre a forma como desejava ser recordado após a morte. E outros com quem contracenou, como Raul Solnado, Ribeirinho e Beatriz Costa.

A estreia profissional aconteceu aos 15 anos na companhia itinerante da família, Salão Rentini, mas a popularidade iniciou-se depois de ter mudado de Buarcos (Figueira da Foz), para a capital e com a participação, em 1951, na revista “Lisboa é Coisa Boa”. Seguiram-se, além de 24 comédias, mais 46 revistas “com sal e pimenta” (título de uma delas, de 1962), cozinhadas à base de todas as características de malandrice verbal típicas do género.

Não faltavam, claro está, as alusões eróticas, uma das imagens de marca de um homem conhecido pela sua imoderada inclinação pelo género feminino (não por acaso, em 1973, fez parte do elenco de “Mulheres é Comigo”) e as sátiras à instituição eclesiástica (tornou-se famosa a sua personagem Padre Pimentinha).

Camilo, pai de dois filhos, teve três casamentos: com a atriz italiana Io Appolloni, com quem chegou a contracenar, com Maria Luísa Bettencourt e com a atriz Paula Marcelo. Homem de assumidas paixões, era do Sporting, clube que aliás escreveu um comunicado onde lamenta a morte da personalidade e do adepto que foi rugido de leão em 2008 e fez parte da Comissão do Centenário.

Na hora da morte, amigos e colegas têm recordado a sua capacidade em fazer com rigor e o seu profissionalismo mas também o seu ocasional feitio difícil, capaz de, nas palavras de Herman José, fazer “alguns inimigos de estimação pelas razões certas”.

Nuno Costa Santos, 41 anos, é escritor e guionista. Escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.