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Mais de dois mil anos separam as ruínas de Conímbriga do novo museu interativo PO.RO.S., mas ambos são dedicados ao mesmo tema: os romanos. A região é feita desse património e os vestígios com o pó de dois séculos estão por todo o lado, da cidade semi-escavada onde é possível desvendar casas, mosaicos, templos e banhos públicos feitos no século I depois de Cristo, ao aqueduto que atravessa uma pequena aldeia como Alcabideque e que já então tinha um complexo sistema de canalização. Durante muito tempo, Conímbriga foi um dos braços do império de Augusto, local por onde passava a estrada que ligava Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), e que ainda hoje os turistas podem admirar (admirando também o facto de ter menos buracos do que muitas nacionais do país). Lição de geografia: Conímbriga fica em Condeixa, e por isso é impossível separar o concelho dos romanos, tal como não se pode separar a vizinha e turística Coimbra das universidades. Pode-se, no entanto, ouvir os especialistas na região: “Condeixa tem muito para oferecer para além das ruínas”, defende Tânia Neves, guia da empresa de animação turística Rotas de Sicó. E pode-se fazer um roteiro, em cinco paragens, que confirma a afirmação.

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Conímbriga é o ex-líbris de Condeixa e permite conhecer vários vestígios de uma cidade romana de grandes dimensões, incluindo mosaicos muito bem conservados. Se não o fez na escola ou recentemente, uma visita às ruínas e ao museu é obrigatória. (© Jorge Vieira)

1. O novo museu onde se pode ser um soldado romano

Nem silêncio nem indicações de “por favor não toque nas obras”. No novo museu PO.RO.S. tudo o que se vê é para mexer, experimentar ou ouvir, seja um carro romano ou uma espécie de peep show através do qual se pode espreitar a vida íntima da Roma antiga. “O objetivo do museu é ser muito interativo e educativo”, diz a arquiteta Patrícia Ribeiro durante uma visita privada ao Observador. O museu dedicado ao Portugal Romano em Sicó deverá abrir no final de julho, no antigo solar da quinta de São Tomé, que foi toda recuperada, mas por entre as montagens já dá para perceber que a experiência arqueológica é muito diferente da que se tem em Conímbriga, a cinco minutos de carro. Para além de um túnel do tempo, onde se recua até ao período romano através de uma experiência multimédia, é possível por exemplo fazer parte do exército e entrar para dentro da célebre tartaruga — a formação com escudos a toda a volta de um grupo de soldados, tantas vezes reproduzida nos livros de Astérix.

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Na Sala do Império Romano é possível imaginar o que sentiria um soldado por baixo da célebre formação tartaruga, e até pegar na reprodução de uma espada enquanto se ouvem sons de batalha.

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“A ideia é que cada pessoa possa fazer a sua própria visita de uma forma livre e que decida o tipo de conteúdo que vai querer”, diz a coordenadora. Para isso há 10 salas multimédia que atravessam as várias áreas do império, várias mesas com tecnologia touch, maquetes em 3D interativas, peças reais que vieram de Conímbriga e quizzes espalhados por todo o museu. No total, uma obra de cinco anos e um investimento de 3,5 milhões de euros da Câmara Municipal de Condeixa, que inclui a abertura de um auditório, uma sala de exposições temporárias e uma cafetaria com menus inspirados na dieta romana e mediterrânica.

Av. Bombeiros Voluntários de Condeixa, Condeixa-a-Nova. O museu deverá abrir no dia 24 de julho. Preço do bilhete: 7€.

2. As terras a que chamam um figo

Não foram os romanos mas os gregos que acabaram por dar o nome à região onde se insere Condeixa: Sicó. “Em grego este termo significa figo, fruto que terá sido introduzido juntamente com outras espécies mediterrânicas como as oliveiras”, explica Tânia Neves enquanto conduz uma Citröen C4 em direção a Alcabideque. Guia da empresa de animação turística Rotas de Sicó, o seu trabalho é mesmo este: fazer visitas de âmbito cultural e paisagístico num monovolume e apontar os vestígios romanos, filipinos ou geológicos nos vários pontos onde vai parando. “É uma forma mais confortável de descobrir a zona”, diz Tânia, “ideal para quem tem crianças ou não é muito ativo”. Por outras palavras, para quem não tem a pedalada dos muitos ciclistas que vão cruzando a estrada ou dos peregrinos de Fátima e dos Caminhos de Santiago que se veem aqui e ali.

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Há ciclistas que levam companhia. (© Jorge Vieira)

Há várias rotas ao gosto dos clientes, entre elas a que explora as ruínas de Conímbriga com um guia e um iPad, a que mostra o anfiteatro que faria parte da cidade romana e cujos vestígios estão hoje entalados entre as casas e hortas da aldeia de Condeixa-a-Velha, ou ainda a que se detém perante as buracas do Casmilo, uma formação geológica rara — “só existe aqui e em França” — que os locais chamam de “bocas da serra” porque se assemelham a grutas abertas na horizontal. Imperdíveis são os moinhos de vento no alto do miradouro da aldeia do Outeiro. Feitos de madeira e com rodas, para serem mais leves e girarem sobre si próprios, dão-nos a volta à cabeça de tão bonitos.

A empresa faz passeios a partir de 12,50€. Rotas e inscrições aqui.

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Os moinhos do Outeiro são feitos em madeira e garantem fotos de postal. (© Jorge Vieira)

3. Casa-Museu Fernando Namora

Em cima da secretária estão os óculos grossos, o cachimbo, a máquina de escrever e uma mola para prender os documentos com “assuntos urgentes”, e na sala está um retrato não terminado de José Manuel Mendes exposto num cavalete. A todo o instante, é como se Fernando Namora (1919-1989) pudesse entrar para terminar as suas obras, consultar os livros da sua biblioteca pessoal ou experimentar uma nova marca de tabaco. A memória do escritor está viva na sua Casa-Museu e esse é o maior elogio que se lhe pode fazer. Afinal, foi aqui que Namora nasceu e é aqui também que, de certa forma, não morreu. Aberta ao público todos os dias em pleno centro de Condeixa, a Casa-Museu permite ainda descobrir outra faceta do autor de Retalhos da Vida de um Médico: a de pintor. Ao lado das obras assinadas pelo condeixense estão também quadros e fotografias de outros artistas com quem se relacionou tal como Malangatana, Cargaleiro, Júlio Resende, Eduardo Gageiro e Victor Palla.

Largo Artur Barreto, Condeixa-a-Nova. A Casa-Museu está aberta todos os dias das 10h00 às 17h00. Entrada livre.

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Fernando Namora nasceu em Condeixa e antes de morrer, em 1989, já tinha doado o seu espólio com o objetivo de ter uma casa-museu, que viria a abrir no ano seguinte, com vários objetos do escritor. (Foto: © Jorge Vieira)

4. Uma pousada num antigo palácio

Quando um hotel está inserido num edifício do século XVI e com ligação à natureza, tem-se disto: um bar de apoio à piscina que funciona num antigo pombal e coelhos a apanharem banhos de sol na relva, quando os hóspedes já estão longe e só os podem ver da varanda. Em pleno centro do concelho mas com um jardim privado, a Pousada de Condeixa Coimbra fica onde em tempos se ergueu o Palácio dos Almadas, incendiado durante as invasões francesas, e é um bom ponto de partida quer para explorar a região, quer para visitar Coimbra, a 15 quilómetros de distância. Inaugurada em 1993 e com 43 quartos e duas suítes, a pousada foi renovada há dois anos e espera agora atrair mais famílias e casais de portugueses. “Oitenta e nove por cento dos nossos hóspedes são estrangeiros”, diz a diretora, Sofia Fezas Vital. Ao que consta, a maioria não são romanos mas sim holandeses.

Rua Francisco Lemos, 3 a 5, Condeixa-a-Nova. Tel. 23 994 4025; info@pousadadecondeixa-coimbra.com. Quartos duplos a partir de 95€ com pequeno-almoço.

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No verão, o bar de apoio à piscina funciona num antigo pombal. (© Pousada de Condeixa)

5. Do cabrito ao doce anti-crise

Todas as terras têm um prato “à moda de”, e o de Condeixa é o cabrito. Há um festival anual só dedicado a ele (no início de maio), e até um prémio para quem o prepara melhor: o Cabrito de Ouro. O restaurante Regional do Cabrito é um dos que o serve como manda a tradição, com batata assada, grelos e arroz de miúdos (10,50€ a 18,80€), mas é famoso também pelo polvo à lagareiro com migas e batatas a murro. Já nos cafés ou no mercado, nem pense em pedir um pastel de nata para acompanhar o café e prove antes a escarpiada. O nome pode assustar mas trata-se de um bolo típico feito de massa de pão, açúcar amarelo, canela e azeite, bastante saboroso e húmido. A sua origem não se conhece ao certo mas diz a lenda que foi criado numa altura de crise, com aquilo que os padeiros tinham à mão. Quando surgiu fazia-se uma grande escarpiada inteira, mas há cerca de 50 anos que se vende à unidade, por cerca de 1€. Uma medida igualmente low cost.

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A escarpiada vende-se praticamente em todos os cafés e pastelarias da região. (© Câmara Municipal de Condeixa)

O Observador viajou a convite da Pousada de Condeixa-Coimbra.

Artigo atualizado no dia 7.07.2016 às 19h38 para corrigir uma informação sobre a origem do nome Sicó.