O primeiro dia da Convenção do Partido Democrático terminou com os delegados eleitos por Bernie Sanders silenciosamente lavados em lágrimas, depois de terem ruidosamente enchido a sessão com assobios, apupos e vaias na cerimónia anual de um partido que tenta pôr para trás umas eleições primárias renhidas e preparar-se para as presidenciais de 8 de novembro.

Se a tensão entre os delegados pró-Hillary Clinton e os seus congéneres associados a Bernie Sanders já seria, por si só, um elemento normal nesta convenção, esta acabou por ser aumentada a níveis pouco aconselháveis para um partido que procura unir-se, depois de ter vindo a lume um conjunto de manobras que o Comité Democrático Nacional (CDN) aplicou para prejudicar Bernie Sanders durante as primárias, conforme denunciou a Wikileaks e está explicado aqui. A descoberta, que para muitos seguidores do senador do Vermont foi apenas a confirmação de algo que já suspeitavam fortemente, levou à ocorrência de manifestações no exterior do evento, em Philadelphia. De acordo com a CNN, 50 pessoas foram detidas em manifestações que se prolongaram para lá do início da convenção.

“Vocês estão a ser ridículos”

Lá dentro, no Wells Fargo Center, o ambiente era tenso, com os partidários de Bernie Sanders a tomarem conta das hostilidades. Logo ao início, enquanto um elemento do Comité de Regras da Convenção discursava, muitos começaram a vaiar ao ouvirem uma menção à expressão “união no partido”. Os assobios surgiram automaticamente, como uma reação alérgica que, quanto mais se coça, mais ferida faz. Porque foi isso mesmo que aconteceu, com os restantes delegados e presentes no evento a pedirem silêncio, apenas para terem mais barulho em resposta. “Bernie! Bernie! Bernie!” devolviam-lhes os revoltosos.

Os apupos continuaram sempre que subiu ao palco alguém próximo de Hillary Clinton, como o ex-senador Barney Frank. Marcia Fudge, substituta interina de Debbie Wasserman Schultz, a líder do CDN que está no centro da investigação WikiLeaks, não conseguiu ignorar as vaias que lhe chegavam enquanto discursava. “Muitos de vocês não me conhecem, mas deixem-me dizer-vos uma coisa: eu tenho a intenção de ser justa, quero ouvir as várias opiniões que aqui temos. Eu quero respeitar-vos e quero que me respeitem também”, atirou.

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Sarah Silverman disse que os apoiantes de Bernie Sanders mais incondicionais estavam a “ser ridículos” (Chip Somodevilla/Getty Images)

O barulho chegou a um nível sem precedentes quando o palco foi tomado por Al Franken — comediante, senador pelo Minnesotta e apoiante de Hillary Clinton — e Sarah Silverman — comediante e partidária de Bernie Sanders. A ideia era promover a união dentro do partido, usando duas figuras simpáticas e conhecidas de todos. Sarah Silverman, que se apresentou na condição de apoiante de Bernie Sanders, teve a atenção e o silêncio de toda a plateia… até que disse que ia votar em Hillary Clinton:

Hillary Clinton é, tipo, a única pessoa que alguma vez esteve qualificada para o emprego de Presidente. Eu digo-vos, vou votar em Hillary com gosto, ao mesmo tempo que vou continuar a ser inspirada para entrar em ação pelos ideais impulsionados por Bernie, que nunca vai deixar de lutar por nós. Eu faço parte do movimento de Bernie e uma parte vital do movimento é assegurarmo-nos de que Hillary Clinton é eleita.”

Esta última frase valeu-lhe uma forte onda de “buuuuu”, à qual respondeu num estilo muito seu, enquanto da organização lhe pediam para fazer tempo no palco, supostamente por questões técnicas: “Deixem-me dizer isto à gente do Bernie or Bust [apoiantes de Bernie que se recusam a votar noutro candidato, neste caso Hillary Clinton]: vocês estão a ser ridículos”.

Toda esta animosidade foi escalando e ganhando proporções tais que, embora estivessem longe de igualar a monumental vaia com que Ted Cruz foi despachado do terceiro dia da convenção dos republicanos, eram impossíveis de ignorar pelos oradores, que ora respondiam com sorrisos amarelos ora com pausas aleatórias. Até que, por fim, Bernie Sanders subiu ao palco.

SAUL LOEB/AFP/Getty Images

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O senador do Vermont foi aplaudido durante mais de um minuto, naquilo que foi o desfecho de uma longa campanha pela Casa Branca que o levou do estatuto de um político de um pequeno estado em New England para o de líder de um autodenominado “movimento” que reconhece em si mesmo os contornos de uma “revolução política”.

Foi precisamente por aí, pela “revolução política, que Bernie Sanders iniciou a sua intervenção, admitindo que “é justo dizer que não há ninguém mais desiludido do que” ele por não ter vencido as eleições primárias. Depois veio um “mas”:

Mas para todos os meus apoiantes, aqui e em todo o país, eu digo que espero que se orgulhem muito de todos os feitos que conseguimos. Juntos, meus amigos, começámos uma revolução política para transformar a América. E essa revolução, a nossa revolução, continua. Os dias de eleições vão e vêm, mas a luta do povo para criar um Governo que nos representa a todos e não só o 1%,um Governo baseado no princípios da igualdade económica, racial, social e ambiental, essa luta continua. E eu estou ansioso por fazer parte dessa luta convosco.”

Estava montada a montanha-russa emocional dos apoiantes de Bernie Sanders, que aqui tinham uma reedição dos discursos do senador do Vermont. Por momentos, bastava querer para acreditar que Bernie estaria ali a estender ainda um pouco mais o seu número, quase que esquecendo o facto de ter declarado abertamente o seu apoio a Hillary Clinton no dia 12 de julho.

Mas, depois de usar o seu estratagema oratório preferido (explicar as desigualdades salariais nos EUA com recurso a figuras como “os 90%”, os “99%” e também “os 10% superiores dos 1%”), Bernie Sanders matou todas as dúvidas:

Qualquer observador objetivo concluiria que, tendo como base as suas ideias e os seus objetivos, Hillary Clinton tem de ser a próxima Presidente dos EUA.”

Numa clara tentativa de assegurar aos seus apoiantes que nada estava perdido, Bernie Sanders referiu como os comités que agora juntam a sua campanha com a de Hillary Clinton chegaram a acordo numa série de questões que concretizam uma espécie de encontro entre as duas forças que até há pouco tempo eram de facto rivais.

As bandeiras que passam de Bernie para Hillary

“Não é segredo que eu e Hillary Clinton discordamos nalgumas questões”, enunciou. “Mas eu estou feliz por voz dizer que, no Comité da Plataforma Democrática, houve uma aproximação entre as duas campanhas.” O resultado, nas palavras de Bernie Sanders, é a “plataforma mais progressiva na história do Partido Democrático”, que contem propostas como um compromisso para “desmantelar” as “maiores instituições financeiras de Wall Street”; uma maior regulação da banca; oposição ao TTIP; e ensino superior gratuito em universidades estatais para filhos de famílias cujo rendimento anual não exceda os 125 mil dólares anuais. A este último ponto, uma jovem que segurava um cartaz com o nome de Bernie gritou-lhe, entre lágrimas: “Isso não chega!”. Mas, a fazer fé no que Bernie Sanders anunciou, uma coisa é certa: o senador do Vermont conseguiu preservar as suas bandeiras ao longo das primárias e, agora, assegurou-se de que Hillary Clinton tratará de erguê-las na campanha que se avizinha.

Por tudo isto, Bernie Sanders foi capaz de dizer que “Hillary Clinton vai ser uma Presidente incrível” e acrescentou ter “orgulho” de estar “ao lado dela”.

Até porque, do outro lado, estará “o” inimigo a abater: Donald Trump, o milionário nova-iorquino que ainda na quinta-feira passada fez o seu discurso de aceitação da nomeação do Partido Republicano para ser candidato nas eleições presidenciais de 8 de novembro.

Se é verdade que Bernie Sanders não lhe fez muitas referências ao longo do discurso — tendo-se concentrado mais em enumerar as suas propostas e depois a atá-las a Hillary Clinton —, não houve quem faltasse para criticar Donald Trump no primeiro dia da Convenção do Partido Democrático.

De forma direta ou indireta, foram muitos os que lançaram críticas duras ao candidato dos republicanos. A senadora Elizabeth Warren referiu-se-lhe como “um homem que nunca pode ser Presidente dos EUA”. A atriz Eva Longoria, de ascendência mexicana, disse: “O meu pai não é um criminoso ou um violador”. O sindicalista Lee Saunders questionou-se “como é que se pode ser pelos trabalhadores quando se é conhecido pela frase ‘estás despedido!’?”. Jim Kenney, mayor de Philadelphia, referiu-se aos republicanos que apoiam Trump como os “sabem nada”, dizendo que estes “estão de volta”. Anastasia Somoza, portadora de deficiência física, fez referência à ocasião em que Donald Trump fez pouco de um repórter do The New York Times, também ele deficiente físico. “Donald Trump não me vê, não me ouve e sem dúvida não fala por mim”, disse, num dos discursos mais aplaudidos da noite. E Adriano Espaillat, candidato congressista dominicano, garantiu a Donald Trump que ele seria o primeiro ex-imigrante sem documentos a servir um mandato no Capitólio. “Toma lá disto, Donald Trump!”, desafiou-o.

“Quando eles vão abaixo, nós vamos acima”

Mas, acima de todas, a intervenção que teve a receção mais calorosa da noite foi a da primeira-dama, Michelle Obama. E também foi um dos discursos mais críticos de Donald Trump.

ROBYN BECK/AFP/Getty Images

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Sem nunca referir o nome do candidato republicano, Michelle Obama falou de como ela e o marido tentaram criar as duas filhas na Casa Branca, com todas as suas exigências e vicissitudes. Falou dos valores que o casal tentou incutir nas filhas, Sasha e Malia.

“Eu apercebi-me de que a Casa Branca iria formar a base de quem elas são hoje”, disse, para depois fazer uma alusão a Donald Trump, dando a entender que o republicano representa os valores diametralmente opostos àqueles com que criou as filhas. “É nisso que eu e o Barack pensamos todos os dias quando tentamos proteger as nossas filhas dos desafios desta vida pouco usual, aos olhos de todos. Como as instamos a ignorarem quem questiona a cidade ou a fé do seu pai. Como insistimos que a linguagem odiosa que elas ouvem de algumas pessoas na televisão não representa o verdadeiro espírito do nosso país. Como explicamos que quando alguém é cruel ou age como um bully não nos devemos baixar ao nível deles”, disse, para depois rematar com uma das frases-chave do discurso: “O nosso lema é ‘Quando eles vão abaixo, nós vamos acima'”.

Mais à frente, elogiou Hillary Clinton, dizendo que aquilo que mais admira na presumível candidata dos democratas “é que ela nunca cede sob pressão, nunca vai pelo caminho mais fácil”. “Quando eu penso em alguém que quero que seja Presidente das minhas filhas, e dos nosso filhos, eu penso nela”, disse ainda, para depois retomar as críticas a Donald Trump:

“Penso em alguém que leva o seu trabalho a sério, alguém que entende que as questões que um Presidente encara não são a preto e branco e que não podem ser resumidas a 140 caracteres. Quando se tem os códigos para um ataque nuclear na ponta dos dedos e o exército na mão, não se pode tomar decisões a quente.”

Por fim, já a fechar aquele que foi possivelmente o melhor discurso da noite, Michelle Obama fez uma referência ao discurso de 2008 em que Hillary Clinton concedeu a vitória nas primárias democráticas a Barack Obama. Nessa altura, aludiu ao facto de então ter ficado mais perto do que alguém alguma vez tinha ficado de se tornar na primeira mulher Presidente dos EUA. “Se conseguirmos disparar 50 mulheres para o espaço, um dia conseguiremos projetar uma mulher para a Casa Branca”, disse. “Embora não tenhamos sido capazes de quebrar este telhado de vidro [isto é, uma barreira invisível mas que existe], graças a vocês, ele agora tem 18 milhões de rachas.” Isto é, tantos quantos votaram então em Hillary Clinton.

Mark Wilson/Getty Image

Michelle Obama contou que educou as filhas “a ignorarem quem questiona a cidade ou a fé do seu pai” (Mark Wilson/Getty Image)

Michelle Obama não esqueceu esse discurso. Agora, oito anos depois, com dois mandatos do seu marido para trás, expressou admiração por “líderes como Hillary Clinton, que têm a coragem e a graciosidade de continuarem a voltar e a pôr essas rachas nos telhados de vidro mais altos e mais duros até que eles finalmente se partam, levantando-nos a nós todos juntamente com ela”.

E, por fim, ficou visivelmente emocionada pelo facto de ela e o marido terem sido a primeira família afro-americana a habitar a Casa Branca. “Esta é a história deste país”, disse, referindo-se também à escravatura daqueles que “continuaram a lutar e a ter esperança e a fazer o que era preciso para que eu pudesse, hoje em dia, acordar todos os dias numa casa que foi construída por escravos”.

E, de novo, tornou a falar das filhas e dos telhados de vidro: “E eu vejo as minhas filhas, duas raparigas negras lindas, a brincar com os seus cães no relvado da Casa Branca. E, por causa de Hillary Clinton, as minhas filhas, todas as nossas filhas e filhos, dão por garantido que uma mulher pode ser Presidente dos EUA”.

Pode, é um facto. Mas nada é certo. Tanto que as sondagens indicam que Donald Trump se aproxima cada vez mais de Hillary Clinton em percentagem de votos, algumas chegando mesmo a pô-lo à sua frente. Por isso é que, em política, querer não é poder. Melhor mesmo, é ver para crer.