Os números são expressivos. Nos últimos três meses, as autoridades filipinas, secundadas não raras vezes por grupos de vigilantes, mataram mais de 700 pessoas suspeitas de estarem envolvidas no tráfico e consumo de drogas. Esta verdadeira guerra sem quartel foi denunciada por mais de 300 organizações não-governamentais, que já vieram pedir a intervenção urgente das Nações Unidas.

“Apelamos [aos responsáveis] da ONU que condenem publicamente as atrocidades cometidas nas Filipinas. Esta matança sem sentido não pode ser justificada como uma medida de combate [ao tráfico] de droga. O silêncio é inaceitável, quando existem pessoas a serem assassinadas nas ruas dia após dia”, sublinhou Ann Fordham, diretora executiva do Consórcio Internacional sobre Políticas de Drogas (IDPC), em declarações ao The Guardian.

O combate cerrado ao tráfico de droga, alimentado por uma política de shoot first ask later, acontece sob o incentivo explícito do novo Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, como lembra o mesmo jornal britânico. Duterte foi eleito depois de ter protagonizado uma campanha eleitoral centrada, precisamente, na guerra contra as drogas.

Em junho, quando celebrava a vitória nas eleições presidenciais perante uma multidão em êxtase, Duterte incentivou os filipinos a pegarem em armas e a vestirem a pele de carrascos. “Se conhecerem viciados em drogas, matem. Seria muito doloroso se fossem os pais a fazê-lo”.

Apesar do número cada vez mais chocante de vítimas mortais, o Presidente filipino não parece disposto a ceder um centímetro na estratégia que definiu. Ainda durante a campanha eleitoral, Rodrigo Duterte admitiu que a guerra contra as drogas podia resultar na morte de mais de 100 mil pessoas, nem que para isso fosse preciso despejar os corpos na Baía de Manila.

Mesmo com o apelo de várias organizações internacionais de defesa dos direitos do homem e com a crescente oposição interna, a retórica inflamada de Duterte, que foi eleito depois de ter defendido, em plena campanha eleitoral, a reintrodução da pena de morte por enforcamento e a entrega de recompensas monetárias a quem entregasse corpos de traficantes de drogas, não dá sinais de refrear. E ONU tornou-se também o alvo do Presidente filipino.