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O ar, é sempre de poucos amigos. Pelo menos quando pisa o tatami. Apenas quando o pisa.

À entrada, Telma semicerra os olhos amendoados, ata as melenas louras num canto da nuca como a uma boneca, nada no rosto da judoca se franze, é intransponível. Curva-se para cumprimentar a adversária, olhos cortantes nos olhos de quem à sua frente se curva também, ataca-lhe depois o kimono, mãos firmes na pega, puxa-a a si, atira-a ao solo, levanta-se, levantam-se ambas, persegue-a em voltas que são quase uma coreografia de Pina Bausch, puxa-a de novo, de novo a atira, e vence, por ippon, waza-ari, yuko, koka, o que for, mas vence. Telma vence quase sempre. Há muito.

Depois, vencedora, tudo o que nela era intransponível vai-se, regressa-lhe a gargalhada doce, de menina, desata o carrapicho do cabelo, corre, pula, solta um grito, cumprimenta quem derrotou em nova curvatura do corpo e trinca o precioso metal, de ouro, prata ou bronze, ao qual sabe de cor o sabor. Não é a metal que sabe; é a vitória.

Quando a hora é a de lutar, Telma pouco pensa. Foi isso que explicou num entrevista à revista Aula Magna. “Pensar, penso em contrariar a minha adversária, penso na melhor estratégia para lhe ganhar. Não penso em mais nada; nem nas implicações da vitória, nem no mediatismo. Apenas no combate e em chegar ao próximo.” Lutar, para Telma, é como sentar-se em frente de um tabuleiro e mover-se no xadrez. “Sim, é como no xadrez. Temos de ter capacidade de antecipação. Perceber o que vai fazer o nosso adversário, encontrando a melhor solução para ultrapassar as dificuldades que nos coloca. Muitas pessoas não têm consciência disso, mas há uma componente tática muito forte no judo, além de toda a técnica”, explicou à mesma revista.

Um acaso com “DNA” Monteiro

A irmã Ana, uma de três irmãos que tem, mais velha, judoca desde que Telma se recorda de a ver, quis levá-la para o judo. Telma era novíssima: 12 anos. O clube de Ana chamava-se Construções Norte-Sul, e ficava a poucos metros de casa dos pais. E a casa era no Feijó, margem sul do Tejo, num bairro social onde viver não foi fácil. “Quando somos novos queremos sempre aqueles ténis de marca. Mas não era possível. Houve sempre dinheiro para comer, mas muitas vezes chegávamos a meio do mês e tínhamos que racionar. Eu tinha noção dessas dificuldades e aprendi a viver com isso”, contou Telma numa entrevista à SIC, pouco antes de viajar para o Rio 2016. Mas crescer no bairro, apesar de tudo, foi um crescimento feliz: “O que recordo de melhor é o facto de não termos muito e de fazermos muito com muito pouco. Conseguíamos ser felizes assim.”

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Mas voltando ao primeiro treino. Telma foi. E assim foi, assim voltou. O judo não era para ela, dizia. Telma preferia os relvados e o futebol. Preferia até mais o atletismo — que também praticou na infância. Mas haveria de mudar de ideias e voltar ao judo para ficar. Tinha 14 anos. E o porquê de voltar? À Aula Magna explicou: “Cheguei a experimentar o atletismo, o futebol, mas nos dois a competição não era frequente — ou porque estava mal organizada, ou porque tinha de competir com raparigas mais velhas.” E foi a competição do judo que despertou em Telma o interesse derradeiro, até hoje, pela modalidade. “O que mais gosto no judo é de treinar. Mas parte do gozo vem da possibilidade de entrar em competições”, explicou então.

No começo, Telma tinha pouco mais de “palmo e meio” altura, não era forte como agora, mas o talento era incomensurável nela. Desde o primeiro dia. E ainda com 14 anos ganhou uma medalha de prata na primeira competição oficial que disputou, o campeonato nacional de esperanças. Pouco depois, menos de um ano depois, foi competir com atletas mais velhas que ela e sagrou-se campeã nacional de juniores, sendo nona classificada nos Europeus do mesmo escalão. Não tardaria a conseguir mais e melhores resultados lá fora: foi medalha de bronze nos Europeus — ainda de juniores — disputados em Sarajevo. Estávamos em 2003. E foi em 2003 também que deixou, em Portugal, de competir nos juniores e se voltou aos seniores; foi campeã nacional, o seu primeiro título nacional entre os melhores do judo português.

Telma olímpica: uma história (longa) de desilusão, que só se escreveu de medalha no Rio

2004. Aos 18 anos, e com somente quatro de judo, Telma Monteiro venceu o Europeu de juniores. E foi medalha de bronze no Mundial do mesmo escalão. Entre seniores, foi igualmente de bronze num Europeu. Se havia peito para mais medalhas? Havia, claro. Talvez para a dos Jogos Olímpicos. Mas em Atenas, Telma foi traída pela inexperiência e ficou-se pelo nono lugar.

Haveria de voltar à mais importante competição desportiva do mundo quatro anos depois. Até lá, mais vitórias. Muitas mais. Em 2005, foi medalhada com o bronze no Europeu e no Mundial de judo. Em sub-23, foi vice-campeã da Europa. No ano seguinte, 2006, chegou ao primeiro lugar do ranking mundial. E tudo porque foi medalha de ouro no Europeu. Seria novamente campeã da Europa no ano seguinte. E medalha de prata no Mundial. Até que chegou, por fim, Pequim, os Jogos Olímpicos e o ano de 2008. Ali, Telma não era mais inexperiente no judo. Era a melhor entre melhores. Mas acabou por ser (novamente e “apenas”) nona classificada.

Aquele não foi um ano feliz. Não por causa dos Jogos Olímpicos, onde não foi medalhada. O ano foi infeliz porque Telma perdeu o treinador de sempre, António Matias, selecionador nacional de judo feminino, em janeiro. António tinha 43 anos e morreu depois de um treino com Telma. À SIC, contou o que viveu nesse dia e não mais esquecerá: “Ele tinha acabado de me dar um treino. Depois alguém veio dizer-me que o Matias estava caído no chão. Fui a correr para o balneário e vi-o. Quando as pessoas partem, e quando não é esperado, temos que seguir o caminho que, se elas cá estivessem, ficariam orgulhosas de nos ver seguir. O caminho que irias percorrer com elas.”

E Telma percorreu. Até conquistar o que lhe faltava conquistar: a medalha olímpica. Seria em Londres? Tudo indiciava que sim. Os resultados indiciavam que sim. Mudou de categoria, dos – 52 kg para os – 57 kg, mas continuou a vencer. Em 2009 foi medalha de prata no Mundial, título que repetiu dois anos depois. Nenhuma outra judoca (homem ou mulher) em Portugal conseguiu tal façanha. Mas Telma, até aos Jogos Olímpicos, foi também campeã da Europa, em 2011. Em 2010 foi bronze. E vieram as olimpíadas. Se até aí havia sido nona, em Londres, tetra campeã da Europa, porta-estandarte de Portugal na competição, fez pior. Estranhamente pior. Em pouco mais de sete minutos, Telma foi eliminada pela americana Marti Malloy, que haveria de ser medalha de bronze.

A medalha tardou, tardou, e só chegou no Rio de Janeiro, em 2016. Isto, claro, depois de Telma ser novamente medalha de ouro em Europeus (2012 e 2014) e de prata no Mundial de 2014. Telma esteve perto do ouro no Brasil. Foi derrotada por uma mongol quando para lá seguia. Foi à “repescagem” para o bronze. E aí, venceu tudo o que havia para vencer. E disse, ao primeiro de dois combates até à medalha: “Eu vim para ficar!” Agora já pode voltar. Com o peito mais pesado e a reluzir.

O futuro? Pintar de ouro o que ainda falta pintar: um Mundial e uns Jogos Olímpicos

Telma Alexandra Pinto Monteiro. Em dezembro, fará 31 anos. Ser trintão no judo não é ser-se “velho”. É idade de sobra para voltar a competir nos Mundiais, também nos Europeus e, quem sabe, chegar na fina flor do judo às próximas olimpíadas. Até lá, Telma continuará a levantar-se todos os dias às seis e meia da manhã, a ir treinar ao Benfica às oito, depois a treinar novamente ao final do dia, todos os dias, folgando apenas ao domingo.

A vida de um atleta de alta competição é uma vida de privação, de sacrifícios. Mas Telma não sente que tenha perdido muito desde os 14 anos e até hoje. E foi isso que explicou em entrevista à Sábado: “Podíamos considerar sacrifícios todas as coisas das quais tive de abdicar para ser atleta de alta competição. Mas foram tantas as coisas positivas que ser atleta de alta competição me trouxe, que se torna impossível falar em sacrifícios. O meu objetivo é, em todas as competições que fizer, ser bem-sucedida, ganhar. Enquanto a minha carreira não acabar, eu vou tentar conquistar tudo aquilo que conseguir.”

E quando acabar? “Penso um dia em ser mãe. Tenho muito amor para dar e a continuação desse amor será o meu filho. Não é para já, mas tenho que pensar nisso porque já tenho 30 anos”, gracejou, na última entrevista que deu antes do bronze olímpico, à SIC.