Manuel Pardal, homem baixo e de rosto queimado pela faina, ganhou fama a cantar os seus poemas nas tabernas que existiam junto à lota de Quarteira, freguesia do concelho de Loulé. Cândido Correia, agora reformado, lembra-se bem de encontrar o poeta popular “nas vendas”, por vezes com António Aleixo, que também ali parava para cantar.

Sempre de “cigarrinho feito à mão, na boca”, Pardal “enchia a casa de gente para ouvir os versos”. “Era uma festa”, conta o antigo vendedor de peixe, que garante que o poeta, falecido em 1984, “era um dos melhores de Quarteira”.

“Era quase analfabeto, mas muito inteligente. Tinha lá versos que não são brincadeira”, conta, referindo que Pardal, nos seus poemas, dava “voz aos problemas do povo”.

A única edição do livro que reunia os seus poemas foi feita em 1977, pela mão do investigador José Ruivinho Brazão, mestre em literatura portuguesa, que cinco anos antes tinha descoberto o repentista na taberna da Ti Máxima. O livro reeditado, com o patrocínio da Câmara de Loulé e da Junta de Quarteira, é lançado hoje, no dia em que se completam 100 anos do nascimento do poeta popular, às 19:00, no Largo do Mercado.

Nos poemas que Pardal sabia de cor, fala-se da pesca, do mar – no qual muitas vezes criava os versos -, da pobreza, da liberdade e dos tempos da ditadura, em que “não se podia abrir a boca, nem tão pouco p’ra comer”. “Sinto a fome do meu lar e esta mágoa me consome”, dizia, em versos normalmente cantados.

A homenagem ao poeta, que tem uma rua e um largo com o seu nome na freguesia, termina na quinta-feira, às 22h00, na Praça do Mar, com a exibição do documentário de 1976 “Mau Tempo, Marés e Mudanças”, de Ricardo Costa, em que o pescador é personagem principal. “A voz dele dizia as verdades que as pessoas não sabiam dizer”, disse à Lusa Ruivinho Brazão.

Amante do despique, Pardal recebeu influências do pai, também poeta, e de António Aleixo, figura que o marcou, antevendo que, tal como aquele poeta algarvio, iria morrer “desgraçado”, “sem ninguém saber”.

No entanto, outros reparavam nas qualidades de Pardal, como é o caso de Clementino Baeta, poeta popular de Almancil e discípulo de Aleixo: “Há um Pardal em Quarteira / que é diferente dos demais, / que canta de outra maneira / que não cantam os pardais”.

As tabernas junto à lota eram o seu “auditório”, fazendo “uma festa em torno da palavra”, conta Ruivinho Brazão, recordando a facilidade com que Pardal “soltava quadras”, normalmente em cima da sua lancha, Ana Paula, quando ia à pesca à lula.

O presidente da Associação de Pesquisa e Estudo da Oralidade recorria a um gravador de ‘cassette’ e ficava até “quase de madrugada” a ouvir Pardal a cantar os seus poemas e contos “cheios de realismo, que estão por publicar”. Para Ruivinho Brazão, Manuel Pardal era alguém que “acreditava que o canto e a palavra tinham o poder de aproximar os homens, mudar a vida e de transformar”.

“Saiu ao pai”, conta Lurdes Pardal, de 82 anos, sobrinha do poeta que estava sempre “a cantar – não parava”. Sem nunca “lagar o cigarrinho”, Pardal “metia-se nas tabernas” a cantar os versos “que fazia no mar”, recorda, referindo que o livro editado em 1977 “era o grande sonho dele”.

Célia Pardal Gonçalves, filha do poeta, passava todos os versos “para o papel”, entre os seus sete e nove anos. “Ia pescar à lula e, enquanto pescava, fazia a poesia dele. No outro dia, chegava à casa e dizia: ‘Célia, vamos passar isto para o papel’. Tudo o que tinha pensado de noite ele dizia. Não se esquecia de nada”, conta.

“Era uma pessoa muito querida por todos e que levava noites inteiras a cantar em despiques, horas infinitas nas tabernas, quando havia temporais. Não perdia um”, realça a filha do pescador, que num dos seus poemas vincava o sonho de ver a sua obra publicada: “faço-a para o povo ler / E por muitos ser cantada”.