Dilma Rousseff jogou, esta segunda-feira, a sua última cartada para tentar reverter o processo de impeachment (impugnação) e voltar ao Palácio do Planalto, quando respondeu no Senado perante os senadores brasileiros durante mais de doze horas. A estratégia da Presidente mostrou três objetivos fundamentais: defender-se das acusações que motivaram o seu processo de destituição, convencer parlamentares indecisos a votar contra a impugnação do seu mandato e tentar definir a sua narrativa com a qual o seu nome ficará escrito na história do Brasil.

O Observador acompanhou o dia mais longo da historia de Dilma Rousseff e dividiu em três momentos os principais acontecimentos da sessão.

A manhã de Dilma

Leitura de discurso pouco combativo e muito abrangente, recurso ao Supremo Tribunal Federal e respostas repetidas para perguntas repetidas

BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 29: Brazilian judge and the current president of the Supreme Federal Court of Brazil Enrique Ricardo Lewandowski speaks with suspended Brazilian President Dilma Rousseff during her impeachment trial on the Senate floor on August 29, 2016 in Brasilia, Brasil. Senators will vote in the coming days whether to impeach and permanently remove Rousseff from office.. (Photo by Igo Estrela/Getty Images)

Dilma Rousseff cumprimenta o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, na chegada ao Senado (Igo Estrela/Getty Images)

  • O dia de Dilma Rousseff começou com a leitura da sua defesa no Senado. Durante cerca de 45 minutos, a Presidente afastada reiterou que o impeachment é um “golpe de Estado”, fez referências ao seu passado político – quando foi presa e torturada durante a ditadura militar no Brasil – e disse que defenderia o seu mandato não por “vaidade”, mas por “acreditar na democracia.
  • Apesar de pouco combativo e muito abrangente, o discurso de Dilma Rousseff deixou alguns recados a Aécio Neves (presidente do PSDB e principal opositor nas eleições de 2014), ex-ministros da sua equipa ministerial (que são senadores e manifestaram publicamente que vão votar a favor do seu afastamento definitivo), ao “centrão” (bloco informal formado por 13 partidos de centro-direita que aprovaram o impeachment na Câmara dos Deputados) e a “setores da grande media brasileira” que estarão a apoiar o processo.
  • Os recados mais diretores foram para o “chefe” e “vice-chefe” do golpe, conforme se referiu Dilma Rousseff a Michel Temer e Eduardo Cunha, em abril. A Presidente afastada criticou a falta de diversidade racial e de género na composição da equipa ministerial interina de Michel Temer e a sua política económica, e assegurou que o “processo de impeachment foi aberto por uma ‘chantagem explícita’ do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha”.
PMDB party postpones decision to leave coalition

Michel Temer (à direita) e Eduardo Cunha (ao centro).

  • A sessão de questões a Dilma Rousseff iniciou-se em seguida, com defensores e opositores da Presidente afastada a tentar definir o tom do debate em posições antagónicas. Enquanto senadores favoráveis ao impeachment associaram o processo à crise económica do país, parlamentares aliados à petista defenderam a ideia que o seu afastamento é um “golpe de Estado”.
  • Quando questionada pelo senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) sobre a razão pela qual ainda não recorreu ao Supremo Tribunal Federal para denunciar o alegado golpe”, Dilma disse que “ainda não esgotou essa instância” por respeito ao Senado, mas avançou que tomará esta medida, caso o seu impeachment seja aprovado. Ou seja, a sua destituição no Senado pode não ser “o fim” da briga pela volta ao Palácio do Planalto.

A tarde de Dilma

Novas eleições, pedido de desculpas e críticas mais ferozes dos senadores e aos senadores

BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 29: Suspended President Dilma Rousseff points to an economic chart displaying oil prices while answering a question from a Senator on the Senate floor during her impeachment trial on August 29, 2016 in Brasilia, Brasil. Senators will vote in the coming days whether to impeach and permanently remove Rousseff from office. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

(Mario Tama/Getty Images)

  • Ao retomar do descanso, Dilma Rousseff enfrentou um dos seus maiores críticos no Senado: Aécio Neves (PSDB). O parlamentar disse que “não foi uma desonra perder a eleição defendendo ideias e respeitando a lei” e relembrou algumas frases de Dilma Roussseff durante a campanha eleitoral de 2014, quando foi vencido pela Presidente afastada. Dilma garantiu: “Prefiro o barulho das ruas, das divergências eleitorais. Agora, não respeito a eleição indireta, produto de um processo de impeachment sem crime de responsabilidade”.
  • Enquanto Dilma se defendia no Senado, o Presidente interino Michel Temer participava de um evento, em Brasília, em que recebeu atletas brasileiros que participaram dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Temer disse aguardar “com absoluta tranquilidade” o resultado do julgamento final de Dilma Rousseff e garantiu que não assistiu ao discurso da petista no Senado por “falta de tempo”. “Eu não assisti [ao discurso], sabe que eu não tive tempo? Fiquei trabalhando nos despachos e não tive a satisfação de acompanhar o discurso”, revelou.

  • Dilma voltou a defender a ideia da realização de uma consulta popular sobre a possibilidade da antecipação de eleições presidenciais. A proposta já havia sido formalizada há duas semanas, numa carta divulgada à imprensa. A Presidente afastada também declarou o seu apoio a uma reforma política, de modo a diminuir o número de partidos que integram o Congresso brasileiro.
  • Aproveitando a questão do senador Eduardo Amorim (PSC), Dilma Rousseff disse que o seu governo foi responsável por algumas das principais medidas de combate à corrupção. “Não nomeamos engavetador geral da República”, disse em referência à Procuradoria-Geral da República, órgão que lidera a investigação Operação Lava Jato.
  • A Presidente afastada pediu “desculpas” ao senador Eduardo Amorim (PSC) pela falta de diálogo com os parlamentares durante a sua Presidência, mas disse que este argumento não é base para um pedido de impeachment. “Senador [Amorim], o senhor receba as minhas desculpas por não ter atendido às suas expectativas quanto ao diálogo. É algo que, eu tenho clareza, é importante que seja feito. Repito, não é base para nenhum crime de responsabilidade”, defendeu.

  • Senadores da oposição subiram o tom das críticas a Dilma Rousseff. “O seu Governo já não existe mais. Em horas, já não existirá mais a sua presidência”, sentenciou José Aníbal (PSDB). “Nunca soube que era possível um julgador, na hora em que uma testemunha está depondo, externe o seu julgamento”, rebateu a petista.

A noite de Dilma

Manifestações tímidas nas ruas, Eduardo Cunha e governo interino contra-atacam, Lula da Silva busca votos de última hora

Suspended Brazilian President Dilma Rousseff gestures during her testimony in her impeachment trial at the National Congress in Brasilia on August 29, 2016. Rousseff told senators in emotional, combative testimony at her trial Monday that voting for her impeachment would amount to a "coup d'etat." / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

(EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

  • Enquanto falava ao Senado, manifestantes contra e a favor do impeachment de Dilma Rousseff começam a se aglomerar de maneira tímida em frente ao Congresso brasileiro. Em São Paulo, protestos contrários ao processo aconteceram na Avenida Paulista e causaram enfrentamentos com a polícia.

https://twitter.com/lucasrohan/status/770391967700226049

  • O deputado e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, utilizou a sua conta no Twitter para dizer que Dilma Rousseff “segue mentindo contumazmente” ao acusá-lo de ser o responsável pela abertura do processo de impeachment.

  • A Secretaria de Comunicação do governo interino de Michel Temer também divulgou uma nota de imprensa a reagir às declarações de Dilma Rousseff, esta segunda-feira, no Senado, sobre possíveis cortes em programas sociais. “O debate no Senado Federal sobre o processo de impeachment gerou falsas acusações de retirada de direitos sociais, previdenciários e trabalhistas pelo Governo Federal aos cidadãos brasileiros”, defendeu a Secretaria.
  • A governabilidade foi um dos temas recorrentes na parte final da sessão de perguntas a Dilma Rousseff. Foi o caso do senador Telmário Mota (PDT), que questionou como e com quem a Presidente afastada irá governar, caso volte ao poder. Dilma disse que comandará o Brasil com lideranças e políticos de base progressista e rejeitou voltar a contar com o apoio de todo o PMDB como aliado, apesar de não descartar alianças com alguns deputados do partido.
  • O jornal Estado de S. Paulo relata que o ex-Presidente do Brasil, Lula da Silva, esteve a conversar esta segunda-feira com alguns senadores indecisos ou passíveis de mudança de voto para tentar travar o impeachment de Dilma Rousseff. Lula da Silva mostrou-se otimista com a votação final. “O jogo vai terminar com uma vitória nossa”, garantiu.
BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 29: Former Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva attends the impeachment trial for suspended Brazilian President Dilma Rousseff on the Senate floor on August 29, 2016 in Brasilia, Brasil. Senators will vote in the coming days whether to impeach and permanently remove Rousseff from office.. (Photo by Igo Estrela/Getty Images)

Lula da Silva esteve presente no Senado brasileiro, esta segunda-feira (Igo Estrela/Getty Images)

  • Já o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, condenou Dilma Rousseff ao dizer que a Presidente afastada “faz um jogo de retórica” ao comparar o impeachment a um golpe de Estado. “Não me parece, que com tanta supervisão, por parte do Congresso, da Câmara, do Senado, o Supremo acabou por regular tudo isso”, disse Mendes.
  • Na sua última intervenção aos senadores, Dilma Rousseff pediu consciência para que os deputados pensem na sua decisão sobre o impeachment e que parem de fazer disputas com a política fiscal do seu governo. “Tentar inventar crimes de responsabilidade onde eles não existem ou transformar o orçamento público num espaço de disputa ideológica que não tem consequências para o país, acho que já temos maturidade suficiente para superar esse processo”, defendeu.