Música

Sam The Kid e Mundo Segundo: “Não podes dizer que és bom sem provas dadas”

Atuam esta sexta feira no Festival F, em Faro, e têm "quase pronto" um dos álbuns mais aguardados deste ano. Sam The Kid e Mundo Segundo falam com o Observador sobre hip hop, internet e a TV Chelas.

Autor
  • Rita Dantas Ferreira
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Foi preciso chegarmos a 2013 para que Sam The Kid lançasse o desafio a Mundo Segundo, um dos nomes que também faz parte dos Dealema. “Queria fazer umas batalhas instrumentais e andar na estrada. Queríamos avivar a coisa”, relembra o rapper de Gaia. O objetivo era simples: trazer sonoridades que fossem a mistura dos dois. “O palco tem o formato de uma batalha e depois cria-se uma metamorfose”, explica o músico de Chelas. Sam mexia nos beats de Mundo e vice-versa. Ambos contam agora com os DJs Cruzfader e Guze nos concertos.

Começaram a escrever, com trabalho a quatro mãos. Deu até origem ao tema “Gaia-Chelas”, onde os dois rappers e produtores falam das diferenças do hip hop nas duas regiões do país. Nestas “batalhas em palco”, Sam e Mundo abriram espaço a apresentar duas a três músicas. Depois introduziram cinco ou seis temas, até trazerem convidados especiais. Maze, MC dos Dealema e companheiro de Mundo nos últimos 20 anos, foi um deles.

[o vídeo para “Tu Não Sabes”]

E estes convidados fazem também com que os concertos nunca sejam iguais. “Depende do público. Às vezes temos gente mais mainstream, outras vezes mais dentro da cena do hip hop”, explica Sam. O alinhamento é adaptado ligeiramente a cada espetáculo, sempre com supresas. “O convidado é uma delas. É uma lufada de ar fresco e se tiver clássicos, ainda mais”, acrescenta. Tudo numa agenda bem organizada, o calendário dos dois rappers está bastante ocupado. “Todos os fins-de-semana temos trabalho e assim vai continuar”, refere Mundo.

As músicas são sempre feitas a dois. “O típico tópico que tem a ver com a afirmação do artista”, explica Sam the Kid. Reconhece que o “rap está numa fase muito boa” e há cada vez melhores músicos. “Faltavam mais produtos, com diferentes estilos”, continua, e diz que até a escrita evolui: “Há miúdos com 18 anos ou até menos com rimas muito boas”, refere. Acredita que o crescimento do hip hop português resulta também da abertura. “Temos uma cultura de hip hop muito forte e o mundo dos eventos e dos concertos estão de portas abertas, é uma questão de aproveitar”, comenta.

Ainda, assim, é bom que trabalhem. Sam The Kid leva quase 20 anos como MC e sabe do que fala: “Ganhas a tua credibilidade, os anos fazem com que as pessoas tenham respeito por ti. Não podes dizer que és bom se não tiveres provas dadas”, explica. Acredita que a competição é saudável e é dentro da “batalha”, no palco, que se mostra o verdadeiro talento. “Temos que ser criativos, saber brincadeira e fazer rimas inteligentes”, explica Samuel.

Para Mundo Segundo, o hip hop é feito de altos e baixos. “É por fases. A verdade é que na internet é tudo mais rápido e as pessoas conseguem obter informação de forma mais rápida, isso faz com que haja mais gente a consumir”, diz. Sam The Kid encontra no hip hop o resultado de muitas influências nos últimos tempos. “Há muita pop, o que é natural e normal”, diz: “Mas nós não facilitamos, é isso”.

A experiência e a qualidade dos dois rappers são reconhecidas e ambos sabem que servem de referência para uma nova geração de músicos. “As nossas referências eram americanas. Hoje há hip hop português. É uma honra.” Dizem que o acesso à música de outros hoje é mais fácil e isso, como elemento fundamental na construção do hip hop, torna tudo muito diferente. “Produzo usando músicas antigas e tenho que ir procurar o vinil. Hoje já nem preciso comprar música”, afirma Samuel. “Antigamente o DJ andava com três malas enormes atrás. Hoje fica tudo numa pen. É bom, já não dá dores nas costas”, diz, entre risos.

[o vídeo de “Também faz parte”]

O disco deste duo é um dos mais aguardados do hip-hop nacional. Os singles “Gaia-Chelas” e “Tu não sabes” despertaram a curiosidade. Mundo Segundo e Sam The Kid dizem que não há data marcada. “Não temos pressa. Mas será até ao fim do ano”, diz o homem dos Dealema. Há quem diga que este pode ser um dos melhores discos da década e a expectativa aumenta. “Hoje em dia tem que haver surpresa e quando menos se esperar, ele está aí”, acrescenta Sam.

TV Chelas, o novo projeto de Sam The Kid

Na casa de Samuel Mira, em Chelas, há dezenas de gravações em arquivos, música feita em casa, em formato cassete, minidisc ou CD. E com 37 anos, foi também para fazer bom uso desse arquivo que lançou recentemente um novo projeto: a TV Chelas. “Queria fazer uma plataforma enquanto artista onde partilho ideias e mostro o arquivo que tenho em casa,” explica-nos.

[o teaser da TV Chelas]

Foi há 10 anos que o rapper lançou o seu último álbum em nome próprio, Pratica(mente). Com este novo projeto, Sam queria chegar mais perto do público e de mais pessoas. “Tenho músicas novas que vou produzindo e fazendo coisas novas”, descreve. Nunca demonstrou muita atividade e proximidade com as redes sociais. Por isso, o lançamento da TV Chelas surgiu como uma surpresa. “Continuo com o mesmo comportamento, desligado, um pouco. Sou um bocado inseguro, não gosto de aparecer”, explica Sam the Kid. “Não me sinto confortável em mostrar-me. Quando descobrir uma forma com a qual me sinta bem, crio o meu perfil”, diz.

O novo canal web tem uma programação variada, com entrevistas, podcasts ou vídeos que o músico cria ou tinha em arquivo. “Podem ser pessoas de uma nova geração, rappers, pessoas lendárias, coisas random que tenho guardadas”, descreve. Num dos últimos momentos da TV Chelas, Sam The Kid revela um pouco das novidades que aí vêm com Carlão:

Em junho, “Caravana” estreou em exclusivo no canal de Chelas, juntando Sam the Kid e Boss AC. Foi o primeiro videoclipe apresentado. O download por ser feito aqui e é gratuito. A TV Chelas ainda está numa fase embrionária e sem muitas publicações. “No mês de agosto não consegui fazer nada com a regularidade que gostaria”, explica Sam the Kid que reconhece que na era digital, o sucesso destas plataformas exige “conteúdos novos e postagens diárias”.

Sam percebeu que tinha chegado a altura de comunicar de outra forma. “Se fosse há 10 anos, o meu arquivo de 300 horas era pensado de outra forma. Podia fazer documentários. Agora com o YouTube, os meus vídeos têm cinco minutos”, refere o rapper que conta com a ajuda técnica de algumas pessoas para colocar a TV Chelas no ar. “Gosto do pensamento criativo e diferente. É preciso contextualizar-me sobre o que se passa. E isso agrada-me bastante”.

Sam The Kid e Mundo Segundo estão hoje no palco da Sé, do Festival F, às 23h

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