Pedro Passos Coelho recusa responsabilidades na austeridade que possa vir aí e acredita que, se Portugal tiver de passar por um novo resgate (ou um novo “mal maior”, como lhe chamou), será por “ato deliberado” do Governo. Ou seja, não será por falta de avisos, não será por “ingenuidade”, por “distração” nem tão pouco por “incompetência”, mas sim por “consequência de ato deliberado”, disse esta terça-feira no encerramento das jornadas parlamentares do PSD, em Coimbra, num discurso onde procurou mostrar que o modelo económico socialista já falhou uma vez, e pode vir a falhar uma segunda vez.

Para isso, o líder do PSD e ex-primeiro-ministro recuou a 2011, aos tempos em que era líder da oposição e o governo minoritário de José Sócrates precisou do PSD para aprovar os chamados Planos de Estabilidade e Crescimento, que incluíam medidas de austeridade. “Não me venham com a conversa da austeridade, essa é uma retórica esgotada que foi trazida para a conversa política pelo Governo que antecedeu o meu”, começou por dizer, lembrando que, “à falta do PCP e do BE”, que na altura não apoiavam o PS no Parlamento, o Governo “ainda pediu ajuda ao maior partido da oposição para que essa retórica pudesse ser posta em prática”.

E a história é conhecida: o PEC IV foi chumbado, o governo de Sócrates caiu, veio o resgate e a troika. Na semana em que Mário Centeno, numa entrevista à estação televisiva norte-americana CNBC, respondeu a um jornalista dizendo que tentaria tudo para evitar um segundo resgate, Passos Coelho recuperou a história para — e sem usar a palavra resgate em nenhum momento para não fazer aquilo que o PSD acusa Centeno de ter feito — lembrar que nessa altura um “mal maior” acabou por acontecer. Resta saber se agora acontecerá outro.

“O mal maior acabou por acontecer, desta vez se acontecer qualquer coisa desse tipo será só por consequência de ato deliberado. Quem passou por aquilo que nós passamos não pode aceitar que por qualquer ingenuidade, distração ou incompetência uma coisa dessas volte a acontecer”, disse.

À boleia dos últimos apelos do Presidente da República para os partidos se entenderem e fazerem pactos de regime em áreas chave, nomeadamente na justiça ou na execução dos fundos comunitários, Passos Coelho lavou daí as suas mãos e rejeitou fazer compromissos com “este PS”, isto é, com aqueles que têm uma “conversa cínica” sobre compromissos, que “atiram pedras” às ideias dos outros partidos e rompem com as opções tomadas pelo anterior Governo.

“Não podemos fazer compromissos com quem é revanchista, nós fazemos compromissos com os portugueses e com quem quer fazer realmente compromissos e não com quem nos atira pedras todos os dias”, disse, e reforçou: “Quem quer compromissos não anda à pedrada, anda a ver com cuidado onde nos podemos entender e é sobre essas áreas que investe trabalho de aproximação e realização”.

Recusando-se a “embarcar na falsa onda” de começar a discutir o Orçamento do Estado para 2017 antes de o documento do Governo ser conhecido, Passos pediu aos deputados da bancada social-democrata que “ganhem alguma carapaça” e não sejam atingidos pelo debate da espuma dos dias. “O que têm de fazer é o debate que é importante para o futuro, é nesse que temos de nos concentrar”, disse. E reforçou a mesma mensagem várias vezes: “Não basta lidar com o presente, é preciso valorizar a nossa capacidade de resolver os problemas do futuro. É assim que para mim vale a pena fazer política, não vale a pena andar a encontrar desculpas, é preciso olhar para o que está à nossa frente e ver como e que podemos fazer para fazer a diferença”, transmitiu aos deputados.

E admitindo que no seu tempo de governante fez reformas que não agradaram toda a gente, rematou lembrando os deputados que esta semana entram numa nova sessão legislativa, que “a nossa missão não é agradar, é reformar para pôr o país num nível de bem-estar superior”. Depois do discurso na festa do Pontal e do discurso de encerramento da Universidade de Verão do PSD, Passos Coelho voltou a fazer mais um discurso de rentrée no final das jornadas parlamentares do partido, que acontecem nas vésperas do arranque de mais uma sessão legislativa. Antes da intervenção final de Passos, passou no auditório em Coimbra um vídeo com declarações de António Costa intitulado “Retrato de um projeto falhado”, que serviu de mote para atacar o discurso do Governo que “choca com a realidade”.