É uma lenda viva, muito embora deteste a expressão, que diz não compreender. Mais do que atriz, com participações em obras cinematográficas de relevo (O Desprezo, A Verdade e Vida Privada), é, nas palavras de Andy Warhol, a primeira mulher moderna. Os Beatles adoravam-na, a escritora Marguerite Duras chamou-a de “Rainha Bardot” e milhões de homens adormeceram a sonhar com ela — é o que garante a edição francesa da Vogue. Já o Paris-Match descrevia-a, em 1958, de “imoral, da cabeça aos pés”. Já lá vai o tempo. Esta quarta-feira, Brigitte Bardot celebra 82 anos.

“BB”, como ficou conhecida, virou as costas aos holofotes antes de completar 40 anos. Trocou a passadeira vermelha e a perseguição constante de paparazzi por uma vida dita normal. Corria o ano de 1973. A carreira de atriz não foi propriamente das mais longas — há quem diga que se retirou do meio no auge da beleza. E, de facto, é pelo rosto de boneca, lábios carnudos e figura ampulheta que muitos se recordam dela.

Diz a imprensa internacional que a francesa nunca seguiu os ditames sociais. Ao invés, criava as próprias regras, longe da imagem polida das estrelas de Hollywood. E ao contrário de algumas companheiras de profissão, como Sophia Loren (que também completou 82 anos este mês), não pertencia à classe trabalhadora. Bardot vinha de uma família burguesa e católica; vivia num apartamento com sete quartos, localizado no 16º arrondissement, em Paris. Não muito longe da Torre Eiffel.

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Ainda jovem, estudou ballet por três anos, no conservatório parisiense, onde desenvolveu a postura elegante que, depressa, encantaria o mundo. Mas as piruetas e os pliés foram abandonados em detrimento da vontade de arriscar nas lides da representação: Bardot estreou-se no grande ecrã em 1952, no filme Le Trou Normand. Mais tarde, com apenas 23 anos, fazia história ao participar na longa-metragem E Deus criou a mulher (Et Dieu… Crea La Femme, 1956), do realizador Roger Vadim — o primeiro dos quatro homens com quem BB esteve casada. Uma das cenas mais famosas da película mostra a protagonista a dançar, descalça e com o cabelo solto, numa espécie de transe sensual, o que à época era considerado ousado. Resultado? O escândalo voou além-fronteiras.

Por terras norte-americanas, gerentes cinematográficos foram processados por permitir a divulgação do filme, que chegou a ser banido em alguns estados do país. Houve, inclusive, artigos de jornais que denunciavam a “depravação” registada em tela. A situação que se gerou em torno da película fez dela um êxito ainda maior do que o previsto — os resultados nas bilheteiras tiveram igual eco. “E o furor viajou de volta para a Europa”, escreve o jornal britânico The Guardian. A publicação espanhola La Vanguardia acrescenta: “Numa semana, BB é a alternativa europeia de Marilyn Monroe.” A bailarina que virou atriz transformava-se na sensação de lentes fotográficas.

Dona de um sex appeal descontraído, Bardot fascinou, pelo menos, duas gerações. Diz o Guardian: “Porque Bardot comportava-se, na vida privada, como um homem. Ela não tinha restrições. (…) Ela não era nem esposa nem mãe. Tentou as duas [coisas], esteve casada quatro vezes e teve uma criança, e decidiu que não estava talhada para aquilo.”

BB não representava por rebeldia, era apenas uma forma de estar na vida. Até hoje, leva no currículo cerca de 50 filmes e 80 discos (o amor pela música fez com que editasse vários discos na década de 1960 e 1970). Que não haja dúvidas, o cinema foi sempre o seu principal foco de atenções. Chegou a ser nomeada para um prémio Bafta por melhor atriz estrangeira, no filme de 1965 Viva Maria!, mas despediu-se do grande ecrã na longa-metragem Se D. Juan fosse mulher, onde contracenou ao lado da cantora britânica Jane Birkin — a cena lésbica protagonizada pelas duas é, até hoje, (re)lembrada pela imprensa internacional.

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O adeus ao mundo do cinema significaria o regresso, tão desejado, da privacidade. No entanto, as coisas não correram como planeado. Brigitte vive hoje como uma reclusa e dedica a energia que lhe sobra à defesa dos direitos dos animais — tem, inclusive, uma fundação em nome próprio. A biógrafa Marie-Dominique Lelièvre explica ao Guardian que, após décadas a viver como uma reclusa nas duas propriedades que tem em St. Tropez, BB desenvolveu uma visão distorcida do mundo. Também o Daily Mail citava, no final de 2013, Jane Birkin a propósito do estado de saúde da atriz francesa: “Ela ainda me escreve. (…) Os postais que recebo dela são sempre algo tristes. (…) Embora ela tenha uma vida privada dúbia, com pessoas suspeitas, ela fez com que as pessoas tivessem uma espécie de consciência moral [a propósito da defesa dos animais]”.

Mas esta não é a única razão para que o nome Brigitte Bardot vá aparecendo, de vez em quando, nos jornais. Entre 1997 e 2008, a estrela enfrentou os juízes franceses por cinco vezes acusada de “incitamento ao ódio racial”, sendo que na última ocasião foi obrigada a pagar uma multa de 15 mil euros. Também a relação que tem com a Frente Nacional dá azo a conversa, tendo manifestado em vezes anteriores não só a admiração como a amizade que sente por Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa.

Apesar disso, explica Marie-Dominique Lelièvre, Bardot é um ícone a quem celebridades como Kate Moss e Amy Winehouse devem muito, pelo estilo pessoal e não só — Bardot contribuiu igualmente para que a pequena vila de St. Tropez se tornasse num famoso destino de férias, além de, ao longo da vida, ter definido modas e tendências.

É ainda considerada, pelos franceses, um exemplo de beleza nacional, embora a fama e o sex appeal tenham cruzado fronteiras há muito tempo. De outra forma não seria de esperar, não fosse Brigitte Bardot, aos 82 anos, uma lenda viva. Mesmo que não goste da expressão.

Artigo publicado originalmente a 27 de setembro de 2014 e atualizado a 28 de setembro de 2016.