Os alunos do secundário pararam durante uma hora. No auditório da Escola Francisco Simões, em Almada, havia turmas de Desporto, Inglês e Filosofia. Desporto, porque se ia assistir a uma palestra de um atleta. Inglês, porque esse atleta falava inglês. E Filosofia porque… esse atleta ia falar sobre a discriminação que sentiu por ser homossexual.

Ao atleta canadiano de 21 anos juntou-se o embaixador do Canadá em Portugal, a diretora do agrupamento Francisco Simões, um representante da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. Catarina Marcelino começou por revelar um objetivo de mandato: “O nosso sonho é pôr António Costa à mesa com o primeiro-ministro do Canadá (Justin Trudeau) a falarem sobre homofobia e discriminação. Somos os dois países muito à frente nestes temas”, salientou, orgulhosa da iniciativa.

Para já, a presença do Canadá em Portugal cingiu-se à presença de John Fennell, que trouxe também pedaços da Rússia. Os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, determinaram a passagem de uma vida de “ataques de pânico” e “obsessão com os gestos corporais” para que ninguém descobrisse a homossexualidade; para uma vida livre, com a participação no projeto One Team e com palestras a adolescentes, pelo mundo fora, sobre a importância da coragem e da liberdade. Lisboa entrou na rota.

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John Fennell apresenta o One Team, um programa de inclusão de LGBTQ nas escolas, lançado pela equipa de atletas olímpicos do Canadá.

“Um atleta que se assume gay é visto como menos homem, menos forte”

John Fennell tem 21 anos e revelou publicamente a sua orientação sexual aos 19. Já sabia o que sentia desde os 13, 14 anos mas optou por esconder. “Ignorei logo desde início. Menti muitas vezes”, conta ao Observador. O desporto começou a tornar-se caso sério e John tornava-se um profissional de luge — descida de trenó a alta velocidade em gelo. À medida que ia subindo na carreira, ia recalcando cada vez mais o que sentia.

O ponto de rutura aconteceu no início de 2014, quando fez a sua estreia como adulto nos Jogos Olímpicos de Inverno. A Rússia, país anfitrião, lidava na altura com várias notícias de leis anti-homossexuais e isso contribuiu para a “pressão gigante” que o assombrou: “Na Rússia sentia que era um alvo a abater. Foi uma das experiências mais duras da minha vida”, lembra.

Por um lado estava super feliz porque tinha conseguido a qualificação para os Jogos Olímpicos, mas por outro estava super nervoso com o que estava a acontecer lá”

Os nervos prejudicaram a performance do atleta, que acabou em 27º lugar. “Lembro-me de quase sufocar, de ter ataques de pânico. Estava tão preocupado se alguém tinha percebido alguma coisa que a última coisa de que me lembrava era de me focar no treino e nas provas, que era o que realmente importava”, lembra. “Estava sempre a sentir-me constrangido e limitado em tudo o que fazia, parece que os nervos são maiores do que tu.”

O pânico era tanto que podia mesmo fazê-lo desistir: “Cheguei a pensar que tinha de acabar a minha carreira ali, que me iria retirar. Tinha medo que se soubesse e tinha medo que, quando se soubesse, não fosse bem recebido”. Por isso, John Fennell foi durante muito tempo outra pessoa. Fez tudo para ser e parecer um heterossexual convicto e incorruptível. “Agia como um ‘super macho’ e tinha de estar sempre atento aos meus maneirismos: o andar, o mexer as mãos, o falar, tudo. Tinha namoradas, tratava as pessoas de forma rude, usava linguagem homofóbica.”

Nos Jogos Olímpicos tens o mundo todo a olhar para ti. É uma pressão gigante.”

O receio pela estadia na Rússia era tal que o rapaz de 21 anos certificou-se de que não deixava provas da sua orientação sexual. Não levou computador nem o telemóvel pessoal, com medo que o governo russo espiasse as conversas que tinha. “Na minha cabeça, eu estava tão nervoso que só pensava naquilo. Sentia que tinha de tomar todas as precauções para ninguém descobrir de forma nenhuma que eu era gay”, revela.

Tudo certo para ninguém desconfiar, tudo certo para obedecer a um padrão que John identifica. “É suposto os atletas agirem de determinada maneira. É suposto serem fortes, masculinos… Quando um atleta se assume gay, começa a ser visto como ‘menos homem’, tipo aquela história de ‘correr como uma menina’. Como se por seres gay fosses um atleta menos bom.”

Na prática, o facto de ter conseguido esconder a orientação sexual com todas aquelas estratégias não resultou num alívio da pressão no fim do evento. Pelo contrário: “Depois dos Jogos, senti-me deprimido. De certa forma eliminei a minha identidade porque tinha medo de ser julgado. Estava muito frustrado”.

O clique deu-se ainda durante os Jogos Olímpicos, mas foi quando chegou a casa, “em segurança”, que John decidiu fazer o coming out. E hoje garante que os principais benefícios da revelação pública veem-se no desempenho físico: “Acho que sou um atleta melhor depois de me assumir. Porque agora estou a ser 100% eu e estou 100% dedicado ao meu trabalho. Posso focar-me só em treinar e em pensar na prova. Não tenho de me preocupar com os outros”, conta o atleta.

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“Muitos atletas já vieram ter comigo, pelas redes sociais ou por e-mail, para me contar a história deles, para pedir ajuda… Acho que há um efeito dominó: quando uma pessoa se assume, as outras também se sentem encorajadas a fazê-lo”, diz, enquanto posa ao lado do cartaz na Escola Secundária Francisco Simões.

“A que velocidade andas? Treinas quantas horas?”

Determinante para uns, irrelevante para outros. O tema do bullying em relação à homossexualidade escapou ao interesse dos alunos daquela escola da margem Sul do Tejo. Horas antes, numa outra escola no Seixal, o cenário tinha sido o mesmo: nem uma pergunta relacionada com a orientação sexual, várias perguntas sobre o luge, desporto pelo qual o atleta compete.

“Mostrei um vídeo meu a competir e muitos alunos disseram que nunca tinham visto sequer os Jogos Olímpicos de Inverno. Quase ninguém cá conhece o luge. Deve ser porque é um desporto em montanhas de gelo e aqui está sempre calor, não é?”

Um aluno quer saber a frequência com que John tem de treinar. Resposta: 4 a 6 horas por dia, 5 dias por semana. Em tempos de competição é todos os dias, sem descanso. Outro aluno quer saber o que John planeia fazer quando acabar a carreira. Resposta: ainda não há resposta. Para já, John está concentrado em qualificar-se para os Jogos Olímpicos de Pyeongchang, na Coreia do Sul, em 2018. Outro aluno quer saber a velocidade a que John desce aquelas montanhas de gelo. Resposta: mais de 100 hm/h, pode chegar aos 140 km/h.

Os alunos não quiseram saber da outra parte, mas não interessa: pode ter ajudado alguém. “Sei que há muitos jovens que podem passar pelo mesmo que eu passei, por isso a minha esperança é que a minha história inspire outras pessoas. Os atletas são modelos e acredito que as palavras e as ações deles podem ter muito impacto em quem os segue”, salienta John Fennell.

O desporto tem a ver com coragem, com ires à luta. E eu pensei para mim: ‘Como é que posso ter coragem para descer uma montanha altíssima se não tenho coragem sequer para ser quem sou?'”

Hoje, John Fennell faz parte da One Team, um projeto de atletas canadianos para promover a inclusão das pessoas LGBTQ e o combate à discriminação nas escolas. São perto de 40 atletas que se têm deslocado a alguns países através das embaixadas locais, para espalhar a mensagem de respeito e igualdade. “Toda a gente tem espaço no desporto e é suposto o desporto mudar-te para melhor, nunca para pior”, remata. “Podes viajar pelo mundo inteiro, podes conhecer mil pessoas de mil países, mas as dúvidas e as histórias são sempre as mesmas: as pessoas sentem que são diferentes dos outros e sentem-se desnorteadas por causa disso”.