Istambul, 2005. Final da Liga dos Campeões. Não há ninguém indiferente à resposta do Liverpool aos três golos do Milan. Segue-se prolongamento e penáltis. Ganham os ingleses. Sentado no sofá do seu apartamento em Berlim, o alemão Christian Güttler não perde tempo em beber borussias (a cerveja que dá o nome ao clube de Dortmund) e senta-se numa mesa da sala a desenhar uma plataforma de treino revolucionária, concebida para melhorar os controlos de bola, os passes, a concentração e a capacidade de reação dos jogadores. Passam-se uns anos e Güttler completa a obra-prima. O destinatário é o Borussia Dortmund.

O treinador já é Jürgen Klopp e vê neste invento uma forma de dar um salto qualitativo na preparação da sua equipa. “É uma ferramenta de treino perfeito, nunca vi coisa igual”,reage o técnico no dia da apresentação. O brinquedo chama-se Footbonaut e tanto dá para a primeira equipa como para todos os escalões. A cobaia chama-se Mustafa Amini, australiano de 19 anos. Quando começa o exercício, a máquina faz sons parecidos aos de uma nave espacial. Vem de lá o ET?

De repente, apita uma vez e lá se inicia a simulação. Sai uma bola de uma das paredes e o jogador tem de a controlar e colocá-la no retângulo verde antes de passar a laranja. Cinco minutos é como se fosse a maratona. A ideia é realizar um ciclo de 20 minutos repartidos por três/quatro exercícios com 200 bolas. O Footbonaut é um cubo de 317 metros quadrados no centro de treinos do Dortmund-Brackel. O seu interior é como se fosse um campo de futebol de salão. Nas quatro paredes, 72 retângulos (18 em cada uma delas) com barreiras de luz nos seus perímetros. No centro, um círculo que jamais poderá ser abandonado pelo jogador, o qual, devidamente especializado, consegue jogar cada vez mais rápido e preciso.

Ora bem, esta máquina de luz e movimento chamada Dortmund apresenta-se esta terça-feira à noite em Lisboa. É a sua primeira visita a Alvalade. E é o décimo clube alemão no covil do leão. O balanço é negativo para o Sporting, com apenas duas vitórias (mais cinco empates) em 12 jogos. No quesito dos golos, 9-16. Uisch, isto está bera. Os alemães são mesmo tramados para o Sporting. Basta ver as duas últimas épocas: 2-0, 0-0 do Wolfsburgo e adeus Liga Europa 2014-15 mais 1-0, 3-1 do Bayer e adeus Liga Europa 2015-16. Vamos lá animar a festa e só falar das vitórias. Uma com o Hertha, outra com o Schalke.

1 de outubro de 2009. É a ressaca de um fim-de-semana deprimente para Gascoigne, autor de um novo recorde: seis tulipas em 20 minutos. Não é digno. Nem sequer digno de registo. É só mais um episódio caricato da sua vida. Quando começa a beber, o Blackburn ganha 1-0 ao Arsenal. Quando cai do banco rotativo encostado ao balcão, 3-2 para o Arsenal. Na cama do hospital, 6-2 e a cabeça a andar à roda. Ressaca ou crise? Numa altura em que cinco pubs ingleses vão à falência diariamente, Gazza desmente a crise. Bebe, cai e desmaia. Gazza não joga mas dá espetáculo. Passa-se o mesmo com Alex Ferguson. No empate com o Sunderland, o cameraman está mais preocupado com o escocês do que com o jogo propriamente dito. Porque Alex mastiga furiosamente a pastilha. Ao todo, 247 ruminadelas/minuto. Nada de especial. Ainda se fossem tulipas.

Eis o cenário dantesco. O Sporting recebe o Hertha com o recorde de cerca de zero vitórias em 16 jogos vs alemães. É a era Paulo Bento, com Miguel Veloso a lateral-esquerdo. No onze, registem-se as estreias de Adrien em 2009-10 e a de Caicedo a titular. E é precisamente o primeiro a decidir o imbróglio, aos 18 minutos, num remate forte e feliz com o pé esquerdo. A bola ainda desvia em Dardai e trai Burchert. Curiosamente, Adrien seria expulso por duplo amarelo nos descontos, poucos segundos depois de Janker acertar na trave e garantir a tal primeira vitória leonina sobre a Alemanha.

Desbravado esse Cabo das Tormentas, o Sporting repete a dose logo a seguir, com o Schalke, em novembro 2014. O onze de Marco Silva aparece com Mané no lugar de Carrillo (opção), Sarr no de Maurício (suspenso) e Jefferson no de Jonathan (opção). É a ressaca ao impensável 3-0 em Guimarães. E tudo começa mal, com o autogolo de Slimani. Falta desnecessária de Sarr, livre de Aogo e cabeceamento do argelino na molhada (a meias com Choupo-Moting). É o cúmulo do azar, o terceiro autogolo da época após os de Sarr (Porto) e Maurício (Vitória SC). Calma, muita calma. Pede-se cabeça fria.

Aos 26 minutos, Adrien marca um livre e Sarr (1,96 m) empata de cabeça, sem tirar os pés do chão. Falha inconcebível do Schalke porque Slimani também está ali solto. O golo anima o leão e William tem o 2-1 nos pés no minuto seguinte. Vale a intervenção com os pés de Fahrmann. O Schalke, 7.º classificado na Alemanha, não é nenhum bicho-papão e sofre a bom sofrer até ao intervalo: Nani (37’) e João Mário (38’) fazem brilhar Fahrmann.

Quando o italiano Tagliavento apita para o início da segunda parte, ninguém espera um vendaval de golos, três deles para o Sporting. Aos 52’, Nani segura dois adversários e atrasa para o pontapé de Jefferson. A recepção à futsal do lateral é um primor (sola do pé esquerdo em cima da bola e depois o cá vai disto). O Schalke abana e quer reagir. Arrisca aqui e ali, o Sporting defende-se como pode, às vezes atabalhoadamente. Aos 72’, o recém-entrado Carrillo pega na bola na linha do meio-campo, passa pelo pobre Fuchs e ninguém o trava até ao cruzamento rasteiro para o 3-1 de Nani. Fechado? Ainda não. O Schalke assusta com Aogo, assistido por Boateng (88’), e o Sporting arruma a questão nos descontos. Uma bola longa apanha Slimani em corrida desenfreada para o 4-2. Do autogolo à consagração, eis o carrossel de emoções do avançado argelino.

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