Deve haver pouca gente que ainda não tenha ouvido falar de FIFA 17. Afinal, mesmo não sendo um adepto dos videojogos ou de futebol, há uma enorme probabilidade de conhecer alguém que o seja. Para mais, trata-se de um jogo que traz alguma bagagem: 17 anos de história, para ser mais preciso. Tanto que o jogo é tido como “Tão certo como a morte e os impostos” na primeira abordagem que o Rubber Chicken lhe fez depois do lançamento oficial.

Não é fácil inovar neste segmento. As regras do futebol continuam relativamente imutáveis, salvo raras exceções. E continua a haver limitações físicas e de plausibilidade que estão inerentes a um jogo de futebol minimamente desafiante e verosímil. Por muitas voltas que se dê, o jogo continua a ser disputado num retângulo verde, com duas balizas, uma bola e 22 jogadores. Continua a haver passes, remates, cortes, faltas, lançamentos e penalties. Não dá para reinventar a roda. Dá, apenas, para pontapear a bola e brincar com ela, como se de um jogo de futebol se tratasse.

As sucessivas edições de FIFA procuram adicionar algo de novo. Novas animações, novas técnicas de controlo de bola ou de remate, novas reações e jogabilidade. Mas, convenhamos, é mais do mesmo. Ano após ano após ano.

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FIFA 17 não reinventa a roda. Continua a ser um videojogo centrado no futebol, com um campo relvado e 22 jogadores a correrem atrás de uma bola. Há novas formas de passar a bola, de dar efeitos a remates e outro tipo de argumentos que, por si só, dificilmente seriam válidos para justificar a compra de (mais) um jogo de futebol.

Mesmo com as ligas atualizadas, com os nomes dos clubes e respetivos jogadores com algumas pinceladas básicas de parecenças físicas nuns casos e com réplicas quase perfeitas noutros, isso dificilmente seria razão para justificar uma compra. Mas FIFA 17 desta vez inovou. Ousou sair do retângulo relvado e trazer o jogo para o campo de treinos, para os balneários, as salas de imprensa, e para a nossa casa.

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A grande novidade – e o argumento de maior peso – deste FIFA 17 é o modo The Journey, acerca do qual já havíamos falado aquando do pré-lançamento do jogo, em junho. Neste modo de jogo, somos colocados na pele de um jovem jogador, à procura de dar os seus primeiros passos na competitiva Premier League. Não sendo, por si, inovador, passa a sê-lo quando se explora o modo em questão e se verifica que as coisas não são fáceis dentro ou fora do campo.

Indo beber inspiração – e competências – a outros tipos de jogo orientados à história, The Journey constrói uma relação emocional com a nossa personagem e permite-nos ir moldando a sua personalidade mediante atitudes e respostas aos diversos diálogos que o jogo nos vai proporcionando. É um sem-número de novas camadas a explorar dentro de um jogo que dá o salto para fora de um campo de futebol e nos guia através de uma história que, aos poucos, começamos a transpor para a primeira pessoa.

As relações de Alex Hunter com a sua família, amigos e colegas vão, gradualmente, deixando de ser apenas dele e passam a ser as nossas, num envolvimento pouco comum em videojogos do género. Acresce a isso a dificuldade de estarmos na pele de um jovem de 17 anos e, portanto, com muito ainda por onde crescer e evoluir, o que se reflete no que podemos fazer, principalmente no início da nossa caminhada no jogo.

Aqueles dribles estonteantes ou os remates certeiros que vemos os jogadores fazerem quando pegamos num Cristiano Ronaldo não são desde logo possíveis no nosso jovem jogador, o que levará a que nem sempre tenhamos o melhor desempenho em campo. Lidar com isso, com eventuais conflitos dentro do balneário, com perspetivas de carreira menos apelativas que aquelas que pretendíamos, é também parte da envolvência do jogo. E para que se possa criar ainda uma maior ligação à personagem, The Journey permite que, durante os 90 minutos, controlemos apenas o protagonista, ficando à mercê dos nossos companheiros de equipa para as restantes tarefas no decorrer do jogo.

Não é perfeito. Há ajustes que poderiam ser implementados para tornar a experiência mais realista, mais agradável, mais abrangente. Mas é, tal como está, uma excelente viagem na primeira pessoa ao mundo do futebol que, então sim, poderá justificar a aquisição de FIFA 17, abrindo portas para explorar o resto dos conteúdos do jogo, como o FIFA Ultimate Team e outros regressos. Num mundo de retângulos verdes, FIFA 17 consegue sobrepor-se à concorrência e dar uma pedrada no charco, para os fãs do futebol e não só.

Ricardo Mota, Rubber Chicken