É um absurdo, se faz favor. Assim mesmo, sem sequer olhar para a lista. Diz a lenda, com propriedade: um turista entra no Cais 20, um restaurante famoso em São Roque, ali perto de Ponta Delgada, e pergunta pelo preço de uma cerveja com um prato de camarões. A resposta é assustadora: dois euros e meio. O homem enruga a testa, pisca os olhos, estica os ouvidos e solta a língua: that’s absurd. Yup, é mesmo. É um absurdo, se faz favor. Por 500 palhaços (paus ou escudos, escolha à vontade), uma imperial e oito camarões carnudos.

É um absurdo. Assim mesmo, sem sequer olhar para a repetição. Aquela tentativa de Herrera em ganhar um pontapé de baliza numa jogada totalmente inofensiva sai-lhe totalmente ao contrário e o Benfica recupera a bola, através de um canto. Pizzi marca-o depressa e curto, na direcção de André Horta. Do cruzamento deste para o coração da área, salta Lisandro López mais alto que todos os outros. A bola vai picada, ao poste mais longínquo. Casillas estica-se, em vão. O Benfica faz o 1-1 no Dragão aos 90’+3. É o desespero nas bancadas. O Porto perde os primeiros pontos em casa no campeonato 2016-17 e continua a cinco pontos do líder invicto Benfica num clássico atípico. Nem o realizador mais irado da cabeça lembrar-se-ia de imaginar um filme daqueles. Quer dizer, um guião destes só encontra paralelo naquele jogo do Brasil para a 2.ª divisão do Maranhão: 0-0 ao intervalo e 11-0 aos 90 minutos, com nove golos do Chapadinha nos últimos dez minutos. No Porto, a torneira do golo está mais controlada. O caso extraordinário tem mesmo a ver com Herrera, que entra aos 87 minutos para o lugar do herói Diogo Jota e tem tempo para cometer um erro monumental.

Antes desse deslize, o Porto é quem mais domina. Em posse de bola (61% até ao intervalo, 57% durante os 90′), em remates à baliza e em jogadas de perigo. Sem Herrera nem Ruben Neves no onze, o Porto joga um futebol vertical, em ataque contínuo, e o Benfica sente dificuldade para segurar a velocidade de Diogo Jota, Otávio e André Silva, todos bem lançados por Óliver, às vezes até antes do meio-campo contrário. A superioridade do FCP ganha mais élan com a saída do capitão Luisão, por lesão (substitui-o Lisandro, com a braçadeira a voar para Salvio), e sucedem-se as defesas de Ederson aos remates de André Silva (7′), Corona (15′) e Corona (24′). Pelo meio, aos 23′, André Silva quase marca o 1-0, num remate de ressaca de primeira, após ressalto em Samaris. O Benfica só respira, por falta de inspiração colectiva, e nem passa o meio-campo. Casillas, por exemplo, é um dos 50 mil espectadores no Dragão e só se assusta aos 45 minutos, num cabeceamento de Lindelof, desviado em Felipe, ao poste.

A segunda parte traz um Porto ainda mais afoito. Do Benfica, nem ai nem ui, muito menos oi. É ouro sobre azul, o golo de Diogo Jota. Festejos enérgicos de Nuno, onda gigantesca nas bancadas, loucura total. Corona recebe e liberta a bola para a esquerda, onde aparece o jovem de 19 anos. No vai-não vai com Nélson Semedo, o portista ganha espaço perto da linha de fundo e atira surpreendentemente à baliza com o pé esquerdo. A bola passa entre o poste e o atarantado Ederson. E agora, Benfica? Nada de nada, ainda longe do golo (agora o do empate). O Porto, esse, quer o 2-0 por André Silva e, depois, Diogo Jota. Em ambos os casos, os centrais benfiquistas Lindelof e Lisandro resolvem o problema sem Ederson metido ao barulho.

Com a entrada de André Horta para o lugar de Cervi (faz um túnel engraçado a Maxi aos 39 segundos e nada mais), o Benfica acorda e faz-se à vida. Que é como quem diz, ao empate. Mitroglou serve Samaris (titular na posição 6 de Fejsa, lesionado na jornada europeia de terça-feira, com o Dínamo Kiev) e o remate do grego serve para Casillas dar um ar de sua graça. No quadradinho seguinte, um balão de Eliseu é afastado com os punhos por Casillas para outro canto. Carrega o Benfica e Nuno mexe no onze. Entram Rúben Neves e Layún. A ideia é segurar a bola e manter o Benfica bem longe da baliza. O objectivo é parcialmente conseguido. O Benfica sente enormes dificuldades em encontrar o caminho da grande área, quanto mais do golo. E é o Porto a voltar a sentir o pulso ao 2-0, num livre de Alex Telles, aos 76′. A bola passa entre as cabeças de Pizzi e Samaris, vale ao tricampeão a valente defesa de Ederson para canto. Aos 83′, Nélson Semedo corta in extremis sobre Otávio no limite da pequena área e, aos 86′, é Lisandro quem tira o pão da bola a Diogo Jota.

Passa um minuto e Nuno queima o último cartucho, com a saída de Diogo Jota para a entrada de Herrera. Não passa pela cabeça de ninguém o empate. Bom, só se for a cabeça (ou falta dela) de Herrera. E a cabeça de Lisandro. Meu dito, meu feito. Herrera tem aquele alívio disparatado na bola contra Eliseu. O lateral, esperto, desvia-se e ganha o canto. Pim (Pizzi), pam (Horta), pum (Lisandro), é o 1-1. No campo da improbabilidade, o Benfica saca um ponto no Dragão e vai de férias em primeiro lugar. Sim, férias. Outra paragem do campeonato para o Mundial-2018 e a Taça de Portugal. É um absurdo. Mais um, se faz favor.

FC PORTO: Casillas; Maxi Pereira, Felipe, Marcano e Alex Telles; Danilo; Corona (Rúben Neves, 66′), Óliver (Layún, 76′) e Otávio; André Silva e Diogo Jota (Herrera, 87′)
Treinador: Nuno Espírito Santo (português)
BENFICA: Ederson; Nélson Semedo, Luisão (cap) (Lisandro López, 18′), Lindelof e Eliseu; Salvio (Raúl Jiménez, 73′), Samaris, Pizzi e Cervi (André Horta, 59′); Gonçalo Guedes e Mitroglou
Treinador: Rui Vitória (português)
Marcadores: 1-0, Diogo Jota (50′); 1-1, Lisandro López (90’+3)