Extrema Direita

Os apoiantes de Trump no Parlamento Europeu

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Os partidos da direita radical e populista no Parlamento Europeu rejubilam. O Brexit e a vitória de Trump deram-lhes uma nova força que esperam capitalizar em próximas eleições.

PATRICK SEEGER/EPA

“Parabéns ao novo presidente dos Estados Unidos Donald Trump e ao povo americano, livre”. Marine Le Pen apressou-se a felicitar Donald Trump, via Twitter. Mas não foi a única. Líderes de outros partidos aliados da Frente Nacional francesa no Parlamento Europeu também se manifestaram. Geert Wilders, do Partido da Liberdade holandês, saudou a “revolução” na América que recuperou “a sua soberania e identidade”. “O que a América pode fazer, nós também podemos”, prometeu Wilders cujo partido está bem posicionado nas sondagens para as eleições de Março na Holanda. “Depois de Trump, é o momento dos nossos aliados europeus. Holanda, Áustria, Alemanha”, disse o eurodeputado italiano e líder da Liga Norte, Matteo Salvini no Twitter, onde publicou uma foto ao lado de Trump.

Head of the Front National (FN) far-right party, Marine Le Pen, delivers a speech during a meeting on October 28, 2015, in Besancon, as she supports FN top candidate for the upcoming regional elections for the Bourgogne Franche-Comte region, Sophie Montel ]. AFP PHOTO / SEBASTIEN BOZON (Photo credit should read SEBASTIEN BOZON/AFP/Getty Images)

Marine Le Pen deu os parabéns a Trump e ao povo americano “livre”. Prevê-se que possa passar com facilidade à segunda volta das eleições presidenciais francesas em 2017. O parlamento Europeu é o seu palco principal. SEBASTIEN BOZON/AFP/Getty Images)

Os partidos da direita populista esperam apanhar a boleia do Brexit e de Donald Trump para terem bons resultados ou até ambicionarem vitórias nas próximas eleições nos respetivos países e avançarem com uma agenda de rotura em relação ao establishment e às políticas que os partidos tradicionais praticam há décadas nas democracias europeias.

Para além do estilo truculento, em comum com o futuro presidente americano têm o discurso anti-elite e vários alvos: globalização, comércio internacional, imigração. E, tal como Trump, pretendem reafirmar a grandeza da nação. Reunidos no grupo político Europa das Nações e da Liberdade (ENF, acrónimo inglês) no Parlamento Europeu, estes movimentos viveram com o Brexit um primeiro momento de júbilo. Com a vitória de Donald Trump, o momento é quase de euforia: significa que alcançar o poder é possível.

O resultado do referendo no Reino Unido era há muito desejado por estes partidos e funcionou como uma espécie de legitimação das suas ideias. Mais do que isso, o efeito do Brexit abriu um período de incerteza sobre o futuro da União Europeia e o ENF espera que se gere um contágio a outros países.

Le Pen, Wilders e Salvini foram rápidos a exigir um referendo nos respetivos países assim que foram conhecidos os resultados no Reino Unido. Frexit, Nexit, Dinexit, Swexit. Em cadeia, apelos idênticos surgiram na Áustria, Dinamarca, Suécia, Grécia.

O que quer a Europa das Nações e da Liberdade? Sair da “União Soviética Europeia”

Os partidos do ENF são nacionalistas, pretendem recuperar a soberania nacional que os Estados-membros partilham com Bruxelas. Consequentemente, são contra o euro, o Espaço Schengen, Bruxelas, ou o mercado interno. Querem sair da UE que muitos classificam como “União Soviética Europeia”.

Dutch right-wing Party for Freedom (PVV) leader Geert Wilders (R) addresses a rally of German right-wing movement PEGIDA (Patriotic Europeans Against the Islamisation of the Occident) on April 13, 2015 in Dresden, south-eastern Germany. The PEGIDA marches -- which have voiced anger against Islam and "criminal asylum seekers" and vented a host of other grievances -- began in Dresden in October 2014 with several hundred supporters and have since steadily grown. (Photo credit should read ROBERT MICHAEL/AFP/Getty Images)

Geert Wilders, líder holandês do Partido da Liberdade não é eurodeputado, mas participou na fundação há ano e meio da Europa das Nações e da Liberdade. “O que a América fez nós também podemos”, afirmou, sobre a vitória de Trump. ROBERT MICHAEL/AFP/Getty Images)

Mas não é só a cruzada anti-Europa que cimenta estes partidos. O discurso contra o que consideram ser o número excessivo de imigrantes (“os clandestinos”, como alguns costumam dizer) ganhou novo fôlego com a crise migratória que atingiu a Europa. Geert Wilders que não é eurodeputado, deu o tom no anúncio da criação do novo grupo político. “Juntos vamos lutar contra a imigração massiva e a islamização do nosso continente europeu”.

Foi em Junho do ano passado que estes partidos conseguiram juntar-se no Parlamento Europeu em torno do ENF. Um ano após o início da atual legislatura e depois de muitas dificuldades em conseguir o número mínimo de deputados, Marine Le Pen alcançou esta vitória política que há muito perseguia. Assim nasce dentro de uma instituição europeia um grupo político que pretende acabar com a UE.

A bancada do ENF conta com 39 deputados de nove países sendo o maior contingente formado pela Frente Nacional: 20 membros. Por isso, Le Pen assumiu facilmente a liderança. Há quatro deputados austríacos do FPO, partido cujo candidato disputa as eleições presidenciais de dezembro com fortes possibilidades de vencer.

A estes juntam-se ainda quatro deputados do Partido da Liberdade holandês, cinco do italiano Liga Norte, dois polacos do Congresso da Nova Direita, um do partido Alternativa para a Alemanha, um dos separatistas flamengos do Vlaams Belang, um romeno e uma britânica que desertou do eurocéptico UKIP.

O que faz a extrema direita no PE?

“Somos a voz da resistência europeia. Defendemos a identidade nacional, defendemos a nossa prosperidade e a nossa soberania”, disse Geert Wilders no lançamento do ENF.

Em matéria económica, os deputados do ENF são proteccionistas e votam contra todos os acordos de comércio livre. Rejeitam tudo o que está relacionado com o euro, a coordenação de políticas económicas, a União Bancária, o mercado interno e o que implique partilha de soberania.

Italian Northern League (Lega Nord) party leader Matteo Salvini speaks during a rally against the Italian government's policy in Rome on February 28, 2015. AFP PHOTO / TIZIANA FABI (Photo credit should read TIZIANA FABI/AFP/Getty Images)

Matteo Salvini, líder da Liga do Norte Italiana, usa uma linguagem forte no Parlamento Europeu que lhe dá protagonismo nacional. TIZIANA FABI/AFP/Getty Images)

As propostas de resolução que apresentam são curtas e diretas: pretendem a dissolução do euro (“relíquia bárbara”), a dissolução da União Europeia (definida como um “monstro tecnocrático”), o fim de instituições europeias, a revogação do Espaço Schengen, o restabelecimento das fronteiras nacionais.

Levantam a voz contra a Europa, mas sobretudo contra a imigração. Embalados pela crise migratória e pelas dificuldades da UE em lidar com a situação, os deputados da direita radical e populista parecem renascer. Pouco dados a nuances, apostam sobretudo na amálgama. Numa mesma resolução ou intervenção são capazes de misturar tudo (migrantes, refugiados, terroristas).

Mas os interesses destes eurodeputados ultrapassam o mero ódio à UE e à imigração. Algumas resoluções manifestam preocupação com o futuro do sector da beterraba, com os maus-tratos infligidos a galgos em Espanha, ou com a restrição de importações de gás não convencional produzido através de fraturação hidráulica ou de perfuração direcional.

O trampolim europeu para a cena nacional

“Obrigada Senhora Merkel por nos dar o prazer de vir hoje com o seu vice chanceler, administrador da província da França”, afirmou Marine Le Pen perante Angela Merkel e François Hollande numa sessão do Parlamento Europeu, em Outubro de 2016, por ocasião de uma visita histórica dos dois governantes. A líder da extrema direita francesa aproveitou a oportunidade para diminuir o presidente francês e seu possível rival nas eleições de Abril, tratando-o como um “vice chanceler” de Merkel.

Marine Le Pen é exímia em utilizar o palco do hemiciclo de Estrasburgo para fazer campanha eleitoral interna com declarações de efeito mediático garantido. A constituição de um grupo político no PE permitiu-lhe ter ainda mais visibilidade.

Mas a francesa não é a única a utilizar o palco europeu para fazer política nacional. Outros, como Matteo Salvini, também usam o Parlamento como uma montra, um trampolim para outros voos. Hábil e mordaz, Salvini é um mestre na polémica, muitas vezes no limite do insulto. Aproveita todas as oportunidades para atacar o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. Aquilo que realmente os dois visam é a política nacional. Por isso, Marine Le Pen continuará a utilizar o palco da Europa até às presidenciais francesas onde deverá alcançar a segunda volta.

Um estudo este ano da Media Tenor sobre cobertura mediática apresentava Marine Le Pen e Matteo Salvini (juntamente com Nigel Farage do UKIP) como os eurodeputados com maior visibilidade.

Também o holandês Geert Wilders, apesar de não ser eurodeputado, aparece sempre que tem oportunidade nos momentos-chave do ENF, projetando-se desta forma na política doméstica. Wilders, que será candidato a primeiro-ministro, deverá alcançar um bom resultado nas eleições de Março. Já foi considerado o “homem político do ano” numa sondagem de televisão em Dezembro de 2015.

Extrema direita reforça meios com criação do ENF

“O grupo vai representar uma força de ataque política sem comparação com a situação anterior”, chegou a afirmar Marine Le Pen no lançamento do ENF. “Vamos ganhar influência no Parlamento Europeu”, corroborou Geert Wilders. E tinham razão. Ao constituir-se como grupo político, o ENF passou a beneficiar dos mesmos direitos que os restantes grupos: um secretariado com pessoal, gabinetes, meios logísticos e financiamento reforçado.

O ENF e os seus 39 membros custam ao orçamento do Parlamento cerca de 3,2 milhões de euros por ano. Quase o dobro do que recebiam antes de formar um grupo político. A criação do ENF também lhes proporcionou mais tempo de palavra e margem de manobra no plenário. Apesar de toda a sua visibilidade, o ENF é um dos grupos mais pequenos do Parlamento. Vive praticamente isolado e não tem margem de manobra para influenciar políticas ou negociar decisões. A sua falta de peso político é compensada notoriedade mediática motivada pelas intervenções dos seus líderes.

Mas agora, empurrados pelo Brexit e pela vitória de Trump, esperam alcançar bons resultados nas várias eleições nacionais que aí vêm.

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