Nesta dança feita de saudade, ganha mais pontos quem sentir mais falta do outro: ou nós de Sara Tavares ou Sara de nós. Faz sete anos desde Xinti, último disco da artista, e nem por isso nos deixamos esmorecer, nem por isso ousamos esquecer. Mais: é tempo de roer todas as unhas, de gastar todos os tiques que contornam a ansiedade, há um novo disco a caminho. E enquanto contamos os dias, enquanto a cantora trata de terminar esse objeto que deve ver a luz do dia no início de 2017, encurtemos caminho.

Houve um bonito atalho que apareceu a meio de outubro, quando Sara Tavares disponibilizou “Coisas Bunitas”, single de avanço para aquilo que está para vir. E as boas notícias continuam, porque podemos insistir nesta aproximação e tornar o caminho mais curto: passemos pelo Cinema São Jorge, onde atua dia 26, sábado, no Vodafone Mexefest.

[“Coisas Bunitas”, o novo single de Sara Tavares]

A vida, por vezes, pode bem ser madrasta. Uma complicação de saúde obrigou a artista a descer a cortina, ou, pelo menos, a abrandar. “Depois desatei a fazer coisas, participei em discos, continuei a fazer concertos, compus para outros, só que foi a um ritmo mais tranquilo. Sou muito lenta a compor, para mim, sobretudo, bem mais do que sou para os outros. É um misto de exigência, de falta de disciplina, de não me querer repetir”, explica junto à sua sala de ensaios no Teatro da Lanterna Mágica, no Bairro do Alvito, Lisboa.

Hiato que é hiato tem que ser proveitoso, aquele gerar de coisas nos bastidores, sem fazer grande alarido. Essa busca, essa forma irrequieta de estar, fez Sara Tavares encontrar-se, descobrir o novo trajeto a seguir:

“Nos últimos dois anos encontrei um caminho, que acho fixe, que é o da colaboração, tenho mais pessoas à minha volta e isso traz-me fluidez, este novo disco que deve vir aí no próximo ano partiu muito disso, quer a nível da composição, quer ao nível daquilo que tinha mais sede de fazer que é a produção”.

E os nomes que mais tarde escutaremos acumulam-se que nem uma pilha de ficheiros que queremos ler. Nada entediantes, seguem alguns deles: Kid Gomez, N’Do, Paulo Flores, João Gomes, Manecas Costa, Conductor, entre tantos outros, que fizeram deste “um disco que é resultado de partilha, de experiências de coisas que tenho ouvido e gostado”, adianta — “é meter tudo para dentro da panela e ver o que dá”.

Esclareça-se que o disco já era suposto estar feito. Só que Sara Tavares é meia tartaruga, inimiga da pressa, e profundamente ponderada na hora de ir para estúdio: “Preciso de ter canções, se assim não for faz-me aflição. Se as tiver e se souber com quem vou colaborar está feito, definida a equipa a coisa tem liberdade, se estamos todos a falar a mesma linguagem deixo acontecer, não quero ter uma música estéril, não quero saber de antemão se não apanho uma seca”, afirma.

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O que não parece ter sido seca nenhuma foi esta pausa, este tempo mais ameno e fora do estúdio. É entre discos que as coisas por norma acontecem, e Sara Tavares, ainda que singular, não escapa a esta máxima. “Coisas Bunitas” é a prova inegável disso mesmo:

“Durante este período que não estive a gravar fui bastante à discoteca. E há muito aquela coisa do rapaz querer conquistar a rapariga, às vezes só para uma simples dança, mas há uma falta de jeito incrível e é parte de uma atrapalhação. Acho que uma frontalidade com doçura chega, a canção parte disso, se não tens nada bonito para dizer está calado, se queres dizer ganha tomates e diz como deve ser”, conta entre gargalhadas.

Pois é, gente atrevida, isto não é só ter ginga. Há que saber dançar com a voz, ou, vá lá, com a personalidade. Quanto à de Sara Tavares está intacta, gente boa, mulher doce e que usa a simplicidade como a maior das cartadas. Basta escutar um dos primeiros versos de “Coisas Bunitas” para chegar a confirmação: “Diz-me que a minha carapinha te faz lembrar uma coroa de rainha”.

A mudar alguma coisa, ou, por outra, o que está diferente em Sara Tavares é sobretudo a música, assim parece quando nos conta como está a ficar o aspeto desse disco que aí vem: “Coisas que não tinha nos discos anteriores: teclados vintage, guitarras elétricas e programações. Sinto que é aquilo que estou a ouvir, a música acústica está-se a repetir muito, é com música eletrónica que me estou a divertir mais, quero refletir aquilo que me diverte”. Se é para ir que seja por lugares confortáveis, e isso só pode dar muitas coisas bonitas. Ainda mais.

Sara Tavares atua no sábado no Cinema São Jorge, em Lisboa, concerto que faz parte do cartaz do Vodafone Mexefest. O festival começa sexta-feira. Programa completo aqui.