não foi apenas um acontecimento extraordinário na carreira de Jorge Palma; foi um acontecimento extraordinário na música portuguesa. Íamos dizer “música ligeira”, mas o piano de Palma não merece o termo. Momento monumental de inspiração, é como o mítico dia triunfal de Pessoa em que teria escrito de pé e de uma só vez os trinta e tantos poemas do Guardador de Rebanhos. É um disco perfeito, de uma ponta à outra. Um dos raros que ouvíamos do primeiro ao último tema de seguida, por mais vezes que o puséssemos a rodar.

Com , não se carregava nos botões do leitor; era “play” e ponto final. Íamos descobrindo, a cada 170 audições, que tínhamos novo tema preferido, novo verso de eleição, e debatíamo-los com os amigos, que por sua vez também estavam sempre fascinados por outra passagem, noutro tema. Um homem e um piano – nada mais. O Palma perfeito, desfilando um conjunto assombroso de canções essenciais da música nacional: “Frágil”, “Bairro do Amor”, “Deixa-me Rir”, “A Gente Vai Continuar”, “Estrela do Mar”, “Terra dos Sonhos”, “Canção de Lisboa”, “Jeremias, O Fora-da-lei”… E depois, as menos conhecidas que íamos elegendo preferidas pessoais quando queríamos impressionar: “À Espera do Fim”, “O Meu Amor Existe”, “Dizem que não Sabia Quem Era”, o grande, o grande-grande “Essa Miúda”…

Este disco, que deu voz aos amores e desamores de homens e mulheres como se lhes lesse a alma, faz 25 anos e o autor decidiu comemorar o facto de ainda estarmos todos vivos: ele, nós, a música. Ao todo, serão duas noites em Lisboa, duas no Porto, uma em Coimbra e outra em Faro. Que começaram esta segunda feira, com um Centro Cultural de Belém cheio. “Quente”, disse Palma.

“Só” que toda essa identificação com a obra, associada ao errático comportamento da carreira do artista, criou, no reverso da medalha, um fenómeno nem sempre agradável de experimentar: parece que toda a gente o conhece lindamente. Toda a gente é íntima, toda a gente o trata com uma certa condescendência, toda a gente, enfim, gosta do Jorge. E isso é mau? É. É porque Jorge Palma é maior do que isso. Maior do que os enganos, as brancas, as entradas fora de tom, os pregos. E sobretudo, muito maior do que os risinhos condescendentes, as palavras paternalistas atiradas da plateia, as palmadinhas nas costas, a típica pose negligé que diz que é por isso que Palma é bom. Não, não é. Palma é bom apesar dos enganos e dos esquecimentos e dos pregos, mas é muito melhor quando não os comete. Quando tem a voz e as mãos limpas. Quando é mais exigente com ele mesmo do que quando se contenta com esse pacto tácito com a audiência. Quando, em vez de nos distrairmos com o superficial, temos o privilégio de nos voltarmos a concentrar no grande compositor, no grande poeta e no excelente intérprete.

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Ontem, a noite começou assim. Com tudo muito à vontadinha. Era o Grande Auditório do CCB, mas os urros e gritinhos antes do espectáculo eram de pátio de liceu. Às nove e um quarto, sobe o pano. Palmas para o Palma. Será só ele e o piano, como no disco. Só ele, o piano e nós, como sempre foi. Uma decoração minimal, elegante, com sete projectores ao redor e mais um que Palma transforma em cabide para o casaco de menino bem-comportado de que se livra logo no fim da primeira música. Atrás, as projecções de André Tentúgal às vezes serão o pano de fundo perfeito, outras uma distracção desnecessária.

Durante uma hora, Palma tocará todo o . Os 15 temas, noutra ordem, com outra idade e outra intenção. Entre os pregos e os enganos e as brancas dele, e os risinhos e os “és o maior, Jorge” do público, enrola a língua para contar como se inspirou em Stockhausen para o final da “Terra dos Sonhos” e no terceiro andamento de “Titã”, de Mahler, para a “Canção de Lisboa”. Diz aquilo com leveza e a sala também parece ouvir com leveza, mas, quando canta “Não está só a solidão / Há tristeza e compaixão”, suspeitamos que está outra vez a tentar falar a sério. A falar a sério como sempre falou nas canções de e em muitas outras, ainda que às vezes pareça que já ninguém se lembra porque toda a gente gosta do Jorge e é tudo muito agradável. A solidão, o alcoolismo, a depressão, o crime, o abandono, as vítimas, enfim, os temas das canções do Jorge podem, se não estivermos atentos, confundir-se no porreirismo. “Nós sem ti não sabemos, mamã / libertar-nos do mal…” – e o peso que Palma volta a pôr nestas palavras – libertar-nos do mal” – volta a dizer-nos que estes versos não podem ser deixados passar em vão. Não se pode cantarolá-los e ficar incólume.

Jorge vai distribuindo dedicatórias. À Guida, à Rita – a mulher, a quem pede desculpa pela “nervoseira” –, à amiga dinamarquesa de longa data. Explica que estão muitos amigos e família na sala (perguntamo-nos se são eles que gritam onomatopeias e nomes de canções nos intervalos, mas suspeitamos que não). Está lá o repertório, está lá à conversa, está lá o ambiente, mas qualquer coisa continua a deixar esta noite abaixo de muitas outras de Palma. As noites em que não dávamos por nós a senti-lo a tentar encontrar um caminho para sair dos improvisos. E, porém, aqui e ali há versos em que ele se volta a pôr inteiro atrás das palavras e volta a ser impossível não ser tocado por elas: “temos em comum o facto de ambos vermos a vida por um canudo”. Porventura. “Será que ainda cá estamos no fim do Verão?” Até agora, não nos safámos mal… “Onde cada um tem de tratar das suas nódoas negras sentimentais” – e, no entanto, sarámos tantas ao som destas canções. “Só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada” – e quase damos por nós a lamentar o contraste desse velho projecto anárquico com a previsibilidade burguesa do serão.

Até que.

Ao fim de uma hora, estava tocado o disco. Que fazer? Mas Palma tinha tudo planeado. “And now for something completely different” – anunciou. Ia tocar Beethoven. “Beethoven?!”, ouviu-se na plateia. A sonata nº 8, “Pathétique”, disse ele, que envolvia uma “grande história pessoal”. E, de repente, o “à vontadinha” que rodeava a noite fez finalmente sentido, fora por fim transformado em qualquer coisa. Palma sentiu-se legitimamente à vontade para fazer o que quisesse – incluindo tocar 20 minutos de música erudita, a meio dum concerto pop, com tudo caladinho na plateia. Toma lá o luxo. “Não é preciso dizer que não sou a Maria João Pires”, avisou antes de começar. Não é. Não foi. Ainda bem. Foi ele próprio, no grande momento indiscutível da noite. Virtuoso, intenso, verdadeiro. Um ou outro engano? Claro. Mas por favor. Era o Palma que podia outra vez dizer coisas sérias, mesmo sem palavras, e ser ouvido.

Seguiu-se a “Valsa de um Homem Carente”, com letra de Carlos Tê, um original (a belíssima “Amor Digital”) e a recordação de coisas bem mais antigas como os “Passos em Volta”, a “Mi Fá” (que ficámos a saber que era uma pessoa real, tal como suspeitado), a “Balada de um Estranho” e “O Lado Errado da Noite”. “Tenho aqui este piano, tenho vocês, o tempo todo…”, disse, e continuou a tocar.

Com efeito, foi generoso. Muito. Ainda foi buscar Léo Ferré, “Avec Le Temps”, e Leonard Cohen, “Bird on the Wire”. De cada vez que cantava “I have tried in my way to be free”, sentíamos que, como todos fizemos nossas as canções de “Só”, Jorge teve de ir buscar as de outros para falar dele.

Mais logo, volta a acontecer.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).