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Iglesias contra Errejón: para lá dos beijos a maior crise de sempre no Podemos

Este artigo tem mais de 4 anos

Com congresso marcado para fevereiro, o Podemos atravessa a sua pior crise interna. A disputa é entre Iglesias e Errejón, velhos amigos que divergem no estilo e na visão para o futuro do partido.

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Em plena crise interna, um programa de notícias satírico espanhol desafiou Iñigo Errejón e Pablo Iglesias a darem um beijo

Em plena crise interna, um programa de notícias satírico espanhol desafiou Iñigo Errejón e Pablo Iglesias a darem um beijo

Só nos últimos dois meses, o secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, e o porta-voz daquele partido, Iñigo Errejón, beijaram-se duas vezes. A primeira foi a 29 de outubro, com Pablo Iglesias a surpreender o seu camarada com um beijo na cara enquanto este dava uma entrevista. A segunda foi já no dia 15 de dezembro, num desafio colocado por uma apresentadora do Intermedio, um programa de notícias satírico espanhol, que chamou cada um para seu lado e pediu-lhes que se beijassem. E assim foi: um beijo e depois um abraço.

Acontece que aquilo que as imagens sugerem não podia estar mais longe da verdade — por trás daqueles beijos encenados (que estão longe de terem sido os primeiros de Pablo Iglesias, habituado a presenteá-los aos seus camaradas de fila), está a maior crise interna na curta mas ainda assim atribulada história do Podemos.

Tudo isto acontece em antecipação do segundo congresso do Podemos, sob o título oficial de II Assembleia Cidadã e também com a designação oficiosa de Vistalegre 2, e que opõe duas correntes: a de Pablo Iglesias e a de Iñigo Errejón, ambos cabeças-de-lista que vão a votos no congresso, que será entre 10 e 12 de fevereiro de 2017. Além destas duas listas, há uma terceira, da corrente Anticapitalista. Mas é entre a do líder do Podemos e do seu número dois que existe o verdadeiro debate. E, nos últimos tempos, sobretudo em torno do dia de Natal, não tem sido particularmente cordato.

Leader of Podemos Pablo Iglesias (R) and Podemos' spokesman Inigo Errejon attend the second day of the parliamentary investiture debate to vote through a prime minister at the Spanish Congress (Las Cortes) on October 27, 2016, in Madrid. As the conservatives prepare to re-take power in Spain after 10 months of political limbo, anti-austerity party Podemos is bent firmly on replacing the divided Socialists as the main opposition force. / AFP / GERARD JULIEN (Photo credit should read GERARD JULIEN/AFP/Getty Images)

Nas eleições de junho de 2016, numa campanha orquestrada por Iñigo Errejón, o Podemos adotou uma postura menos agressiva e mais positiva. No final de contas, perdeu votos em relação às eleições de dezembro de 2015

Tudo começou com a destituição de José Manuel López, próximo de Iñigo Errejón, do cargo de porta-voz do grupo parlamentar do Podemos na assembleia regional da Comunidade de Madrid. Isto aconteceu dias depois de o método eleitoral a ser usado no Vistalegre 2 ter sido votado, com o modelo defendido por Pablo Iglesias a vencer apenas com 41,5% dos votos frente a 39% da opção preferida do seu número dois, que assim ganhou terreno. Quando os resultados foram conhecidos, Pablo Iglesias ensaiou um tom conciliador, conforme escreve o El País, que refere que ele prometeu acordos com todas as correntes dentro do partido e lamentou que “o Podemos tenha provavelmente mostrado nas últimas semanas a pior imagem da sua história”. Era dia 22 de dezembro.

Mesmo assim, e apenas um dia depois, a votação para substituir o iñiguista José Manuel López do lugar de porta-voz em Madrid pela pablista Lorena Ruiz-Huertas avançou. Ao todo, 27 pessoas votaram a favor da mudança, uma absteve-se e só três se opuseram. No dia 23 de dezembro, Iñigo Errejón reagiu assim no Twitter: “Ontem [dia 22 de dezembro], as pessoas votaram por mais democracia, diversidade e entendimento para ganharmos juntos. Hoje [link para notícia da destituição de José Manuel López]. Este não é o caminho”.

O contra-ataque também aconteceu no Twitter, com vários pablistas a atacarem abertamente o número dois do Podemos naquela rede social, usando a hashtag #IñigoAsíNo. Ou seja, “Assim Não, Iñigo”.

O primeiro a dirigir-se a Iñigo Errejón nesses termos foi Pablo Echenique, secretário do Podemos e, por isso, uma figura de quem é esperada uma postura neutra em conflitos internos. “Sabes que gosto muito das tuas ideias, mas a dinâmica fraturante, de famílias e quotas é velha e divide o Podemos. Companheiro, assim não”, escreveu no Twitter.

https://twitter.com/pnique/status/812639284150706176?ref_src=twsrc%5Etfw

Também Ramón Espinar, líder do Podemos em Madrid e defensor do afastamento do ex-porta-voz do partido naquela região, reagiu no Twitter. “Sempre achei que Iñigo Errejón é uma das pessoas mais brilhantes que conheço. É tão imprescindível como a união. #IñigoAsíNo”, escreveu o político, próximo de Pablo Iglesias.

Do lado dos defensores de Iñigo Errejón destacou-se Rita Maestre, que atualmente faz parte do executivo de Madrid, sob a liderança da ex-juíza Manuela Carmena. Segundo o El País, Rita Maestre disse que a “campanha” do #IñigoAsíNo “só pode ser definida como um erro crasso, como um cálculo muito mal feito e como algo que prejudica o Podemos”. Sobre Iñigo Errejón, disse que ele “não é só o número dois do partido, mas também uma pessoa sem a qual o Podemos não estaria onde está agora” e que sem ele “o Podemos não teria nascido e não teria conseguido cinco milhões de votos”.

Também Clara Serra Sánchez, deputada do Podemos na assembleia regional de Madrid, reagiu no Twitter. “Ontem o Pablo falava de má imagem. Hoje são os seus que fazem uma campanha contra quem deu a pele para que chegássemos aqui”, escreveu.

Afinal, o que distingue Errejón e Iglesias?

Como acontece regularmente sempre que há lutas que roçam o fratricídio dentro dos partidos, torna-se difícil, para quem olha de fora, perceber, afinal, o que verdadeiramente os separa. Ainda assim, há algumas diferenças que saltam à vista entre Pablo Iglesias e Iñigo Errejón e os projetos que defendem tanto para o partido como para Espanha.

A primeira diferença tem a ver com a forma. Pablo Iglesias, que habituou os espanhóis ao seu estilo intempestivo e expressivo, quer que o partido seja mais “das ruas”, que esteja disposto a “cavar trincheiras na sociedade civil” e que, em suma, se apresente como um movimento político de protesto e combativo. Já Iñigo Errejón quer um Podemos que “não dê medo” àqueles que ainda não depositaram a sua confiança e o seu voto naquele partido. Para isso, prefere uma postura mais suave e uma mensagem mais positiva, como a que foi apresentada na campanha das eleições de junho de 2016, que, sob a direção do próprio Iñigo Errejón, operava sob o slogan “o sorriso de um país”.

A segunda diferença parte da primeira, mas não é por isso secundária. Trata-se da relação do Podemos com os outros partidos, principalmente com os socialistas do PSOE. Sensivelmente três meses depois das primeiras eleições do recente bloqueio político em Espanha e outros três meses antes das segundas eleições, o Podemos podia ter permitido ao PSOE governar com a ajuda do Ciudadanos, formando uma coligação contra o Partido Popular, que venceu as eleições aquém da maioria absoluta. Ainda assim, apesar de algumas partidas em falso e encontros entre Pablo Iglesias e o então secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, o Podemos não deu a mão aos socialistas.

Depois disto, já nas segundas eleições legislativas do impasse, tanto o Podemos como o PSOE viriam a perder deputados e o PP a ganhá-los — e, embora a custo, Mariano Rajoy conseguiu formar um novo Governo em finais de outubro.

Dentro do Podemos, discute-se a postura do partido durante o bloqueio político. Neste dossier, também Pablo Iglesias é menos diplomático, impondo a entrada do Podemos em qualquer executivo com o PSOE como condição para uma viabilização governamental. Já Iñigo Errejón teria preferido uma solução com o Podemos de fora, exercendo tanto quanto possível um papel regulador do PSOE a partir das bancadas parlamentares e nunca em Moncloa.

Ainda na relação com outros partidos, Pablo Iglesias está aberto à continuação da recente aproximação à Izquierda Unida (nas eleições de junho, concorreram nas mesmas listas sob o nome Unidos Podemos) e Iñigo Errejón prefere que o Podemos atue de forma mais isolada, podendo aliar-se pontual e estrategicamente a partidos tanto à sua esquerda como à sua direita.

“Essa vai ser a discussão de ideias fundamental. A discussão tem a ver com a direção que o Podemos vai tomar, não com quem o dirige”, disse Iñigo Errejón sobre o Vistalegre 2 em meados de novembro. Porém, é precisamente nisso que se tem tornado a recente crise do Podemos: uma luta entre dois egos onde aquilo que mais se tem discutido tem sido quem pode dirigir o partido do que o caminho que ele deve conseguir.

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