Estamos em 2017, já inventámos formas de estacionar o carro com o telemóvel e uma Barbie versão holograma, mas a expressão restaurante de hotel ainda provoca esgares de desconfiança entre muitos adeptos da comezaina. O fenómeno é antigo, já foi amplamente discutido, e apesar de não faltar quem o queira combater — a recente Pineapple Week, por exemplo, teve esse propósito –, continua a afetar todos os restaurantes que não se conseguem emancipar das unidades que os albergam.

Assim, é natural que essa emancipação se processe, cada vez mais, à nascença. Uma tendência que começou com a dupla The Decadente e The Insólito, ambos do mesmo grupo, prosseguiu com o Bastardo e, mais recentemente, com o Café Colonial, e ganha agora novo ímpeto e significado com este Infame, inaugurado no último dia de janeiro, duas semanas antes do hotel de que faz parte, o 1908 Lisboa Hotel.

O 1908 Lisboa Hotel fica num edifício de autoria do arquiteto Adães Bermudes, distinguido com o prémio Valmor nesse mesmo ano. (foto: © Divulgação)

Não se desvalorize, porém, o dito hotel, que ele não merece a desfeita: instalado num belíssimo e bem recuperado exemplar de Arte Nova de autoria do arquiteto Adães Bermudes, prémio Valmor de 1908, trata-se de um quatro estrelas superior, com 36 quartos. Um deles, The King of Dome, exibe uns enormes janelões e faz uso da magnífica cúpula do prédio. Noutros, a vista para a rua é oferecida por umas pequenas e castiças janelas arredondadas, a lembrar as escotilhas de um navio.

Ao longo de todo o edifício, do bar ao elevador, instalado no antigo saguão, destacam-se uma série de obras de artistas como Bordalo II, SuperVan, David Oliveira e os Irmãos Marques, que reinterpretaram, cada um à sua maneira, a sua história e vida boémia fruto, em boa parte, da localização, o Largo do Intendente.

No quarto King of the Dome tem-se acesso a uma mezzanine que aproveita a cúpula do prédio. (foto: © Divulgação)

Mas o Infame quer afirmar-se em Lisboa e perante os lisboetas como um restaurante em causa — ou em casa — própria. Daí ser possível, neste caso, inverter a formulação habitual: o Infame não será o restaurante do 1908 Lisboa Hotel, mas o 1908 Lisboa será o hotel do Infame. E porquê? Para começar, pela própria lotação: 80 lugares — que serão mais de uma centena assim que a esplanada estiver pronta — para apenas 36 quartos. Depois, pela entrada e designação independentes, pelas janelas enormes da cozinha e da sala, à vista de quem passa na rua, e pelo conceito gastronómico muito mais virado para Lisboa e, sobretudo, para o bairro em que se situa, do que propriamente para os cânones hoteleiros.

A decoração mistura o ambiente industrial com um mosaico hidráulico idêntico ao que fazia parte do projeto original do edifício. (foto: © Divulgação)

O responsável pela cozinha tem experiência nisto de separar as águas entre hotel e restaurante: Nuno Bandeira de Lima, antigo chefe executivo da dupla The Decadente e The Insólito assina uma carta muito inspirada pela vizinhança. “Quis saber a história deste bairro, andei a experimentar os restaurantes aqui à volta”, revela. A salada Martim Moniz (7€), por exemplo, é inspirada pelos restaurantes clandestinos do bairro homónimo. Já o Mi Dai, uma cantina muito frequentada pela comunidade chinesa, fê-lo arriscar numa beringela recheada com pasta de arroz, a pasta Valmor (11€). E da ida aos restaurantes do Bangladesh, que também os há, resultaram as veggie pakoras (7€), uns pastéis de legumes primos afastados da patanisca.

Nas carnes e peixes combinam-se matérias-primas habituais, como o atum, o polvo, o borrego ou a barriga de porco com muitas especiarias e acompanhamentos asiáticos. “A ideia é misturar proteína portuguesa com guarnições orientais”, explica Nuno, que promete alterações na carta assim que chegar o calor. “Nessa altura vamos mexer, pode por exemplo sair o pho [sopa vietnamita] para entrar um gaspacho asiático.” Nas sobremesas, referência obrigatória ao bolo de tâmara com caramelo de uísque e gelado de lúcia-lima. A designação homenageia os tempos em que, naquele mesmo espaço, os quartos se alugavam à meia hora de cada vez: Má-Vida (5€).

O atum Infame (16€) é grelhado, servido com guacamole, cevada e papaia verde. (foto: © Tiago Pais / Observador

Ao almoço, a carta perde protagonismo perante o menu de almoço: 12,50€ por entrada, prato do dia, sobremesa, bebida e café. Entre as horas das refeições principais, é possível explorar a carta de snacks, que inclui, por exemplo, um hambúrguer de black angus em brioche, uma sanduíche de camarão com malagueta — “é como se o estivéssemos a comer al ajillo mas dentro de pão”, ilustra Nuno — e uma outra de pá de porco. O pequeno-almoço, servido entre as 07h30 e as 10h30, também está aberto ao público. “Este é um restaurante completamente virado para quem vem de fora”, reconhece a diretora do hotel, Margarida Almeida. Tanto assim é que por vezes acontece a equipa da cozinha estar a trabalhar e haver quem bata no vidro a perguntar o que estão a preparar. “Há uns dizem que vão entrar para provar”, conta Nuno. Eles que entrem, as portas estão abertas.

Nome: Infame
Morada: 1908 Lisboa Hotel, Largo do Intendente, 6 (Lisboa)
Telefone: 21 880 4008
Horário: Todos os dias, das 12h às 15h e das 19h às 22h. Às sextas e sábados, ao jantar, a cozinha fecha às 23h.
Preço Médio: 12,50€ (almoço); 25/30€ (jantar)
Reservas: Aceitam
Site: www.infame.pt / 1908lisboahotel.com